A escassos meses do fim do mandato de António Guterres, os quatro candidatos a secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) começam a apresentar-se, a partir desta terça-feira, em Genebra, na Assembleia Geral da ONU, para audições com os embaixadores dos 193 estados-membros. Numa corrida muito menos disputada do que em 2016 — quando o ex-primeiro-ministro português foi eleito pela primeira vez —, os Estados Unidos tentam inviabilizar, logo à partida, uma possível eleição da ex-presidente chilena Michelle Bachelet, uma das candidatas consideradas mais fortes, e que a Casa Branca descreve como uma “lunática pró-aborto”.
Há quatro nomes perfilados para suceder a Guterres no mais alto cargo da diplomacia mundial: Michelle Bachelet, Rafael Grossi (atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica), Rebeca Grynspan (ex-vice presidente da Costa Rica) e Macky Sall (ex-presidente do Senegal).
A primeira candidata a ser ouvida será Michel Bachelet, esta terça-feira. No mesmo dia, também Rafael Grossi vai responder às perguntas dos embaixadores. Para quarta-feira, estão agendadas as audições de Rebeca Grynspan e Macky Sall. As audições têm uma duração prevista de três horas.
O atual panorama internacional, com conflitos armados e guerras em várias partes do mundo, terão levado a uma corrida com muito menos candidatos relativamente a 2016, nota o Washington Post. Nesse ano eram 13 os candidatos que se perfilavam para a sucessão de Ban Ki-moon, contra apenas quatro este ano. Tal como atualmente, também em 2016, havia uma pressão para eleger como secretário-geral da ONU uma mulher (eram sete as candidatas, contra seis homens) mas os estados-membros entenderam que fora Guterres a ter o melhor desempenho no chamado ‘diálogo interativo’ na Assembleia Geral.
A eleição do próximo secretário-geral é considerada importante, de forma a devolver à ONU a função de ‘bússola do mundo’, uma posição que a organização perdeu ao longo dos últimos anos, lamentam analistas. Perante uma ordem internacional cada vez mais frágil, o próximo secretário-geral terá pela frente desafios significativos, como as mudanças climáticas, os conflitos globais, os fluxos de refugiados ou a saúde. No entanto, para ter peso na resolução dos grandes problemas mundiais, a ONU enfrenta um grande obstáculo: o do financiamento. No final de dezembro, a organização sofreu um duro revés neste campo, com os EUA (o maior financiador da ONU) a anunciaram um corte de 90% na ajuda humanitária.
https://observador.pt/2026/04/01/com-mandato-de-guterres-na-reta-final-corrida-ao-cargo-de-secretario-geral-da-onu-aquece-ha-quatro-candidatos/
Ex-presidente chilena deverá enfrentar a oposição dos EUA
Espera-se que a escolha do próximo secretário-geral — que só deverá ser oficialmente nomeado depois do verão — seja influenciada pelo fator da rotatividade regional. Tradicionalmente, o cargo é rotativo entre as regiões, mas quando Guterres foi eleito, em 2016, esperava-se que fosse escolhido um nome oriundo da Europa Oriental, o que não aconteceu. Se se for mantido o acordo não escrito, desta vez deverá ser nomeado um secretário-geral oriundo da América Latina. Se assim for, surge como uma das favoritas a chilena Michelle Bachelet.
A ex-presidente chilena foi formalmente indicada para o cargo pelo Chile, Brasil e México a 2 de fevereiro, embora o Chile tenha retirado o apoio a 24 de março, pouco dias após ter tomado posse o novo presidente do país, José Antonio Cast. Conotado com a direita radical, Kast decidiu retirar o apoio à ex-presidente socialista. Se for eleita, Bachelet, de 74 anos, será a primeira mulher a ser escolhida para o cargo.
“Os conflitos armados prolongam-se, as ameaças diversificam-se, a desconfiança entre os intervenientes cresce e as disrupções tecnológicas estão a redefinir os alicerces das nossas sociedades. Neste cenário de transformação global, as Nações Unidas devem reforçar a sua capacidade de ação, antecipação e serviço“, escreve a ex-chefe de Estado chilena. “A minha liderança basear-se-á na reconstrução da confiança nas Nações Unidas, com foco nos problemas da atualidade”, lê-se ainda na missiva.
No entanto, a candidatura de Bachelet pode ter pela frente a oposição dos EUA. No final de março, os membros republicanos do Congresso dos EUA enviaram uma carta ao Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a pedir o veto da candidatura da chilena, classificando-a como “uma fanática pró-aborto com a intenção de usar a autoridade política para sobrepor-se à soberania dos estados em favor de agendas extremistas”.
A posição de Washington não está ainda fechada. Numa audição na Comissão de Relações Exteriores do Senado, na semana passada, o embaixador dos EUA na ONU, Mike Waltz, não se quis comprometer mas afirmou que “partilha as preocupações” do Congresso. No entanto, um porta-voz da Casa Branca disse à EWTN News que “qualquer novo secretário-geral precisa de devolver à ONU seu propósito fundamental — manter a paz e a segurança no mundo — em vez da ideologia absurda, politizada e progressista que minou a eficácia da instituição”, numa crítica velada à liderança de Guterres.
Bachelet já defendeu publicamente que “o aborto está firmemente enraizado na lei internacional dos direitos humanos e é fundamental para a autonomia das mulheres e meninas”. Na carta enviada a Rubio, os congressistas e senadores republicanos lembram que a ex-presidente chilena fez campanha para as presidenciais do seu país, em 2022, prometendo enfraquecer a lei pró-vida do Chile e que foi autora e “um projeto-lei para legalizar o aborto em determinadas situações” naquele país.
Criticam ainda a posição expressa por Bachelet a propósito do caso Dobbs v. Jackson Women’s Health Organization, em 2022, no qual o Supremo Tribunal dos EUA decidiu que a Constituição americana não confere o direito ao aborto, remetendo a decisão para cada estado. Na altura, Bachelet classificou a decisão judicial como “um grande golpe para os direitos humanos das mulheres” e um “um grande retrocesso”.
Grossi também na linha da frente para suceder a Guterres
Outro forte candidato a liderar a ONU é o argentino Rafael Grossi, atual diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), cargo que ocupa desde 2019. Grossi conta com o apoio do seu país-natal. Diplomata há mais de 40 anos, Grossi já foi embaixador da Argentina na Áustria, tendo-se especializado, durante as últimas três décadas, nos temas do controlo de armas e energia nuclear. Ocupou também o cargo de representante da Argentina em Genebra, a sede europeia da ONU.
Na carta onde explica a sua visão para a ONU, Grossi defendeu uma ONU renovada e orientada para apresentar resultados. “A relevância das Nações Unidas perdura, mas a sua eficácia deve ser renovada […] é urgentemente necessária uma abordagem honesta e corajosa para alcançar uma Organização que seja relevante e impactante. O mundo não precisa de mais declarações“, assinalou o atual diretor-geral da AIEA, numa crítica velada ao mandato de António Guterres. O candidato argentino acrescenta que é necessário uma “capaz de responder às exigências reais do nosso tempo, com imparcialidade e uma abordagem orientada para os resultados, fundamentada em factos”.
No espaço geográfico da América Latina emergiu ainda uma outra candidata: a ex-vice-presidente da Costa Rica Rebeca Grynspan. Política e economista, atualmente ocupa o cargo de Secretária-Geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Com uma longa carreira no seio da organização que quer agora liderar, Grynspan já ocupou o cargo de subscretária-geral durante o mandato de Ban Ki-moon e foi também responsável pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento entre 2010 e 2014.
Outro candidato é o ex-presidente do Senegal Macky Sall, indicado pelo Burundi. Na carta de intenções, Sall afirmou que o mundo atravessa uma profunda crise na qual a ONU enfrenta crescente desconfiança e um risco sem precedentes de enfraquecimento. O político defende ainda que a organização precisa de ser reformada, simplificada e modernizada.
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