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(A) :: A rebeldia que nos falta

A rebeldia que nos falta

É preferível cometer um erro ocasional do que permanecer indefinidamente em silêncio por receio das consequências.

Iolanda Santiveri
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Em criança, sempre fui a menina bem‑comportada que qualquer mãe ou pai desejaria ter. Tirava boas notas, portava‑me exemplarmente em qualquer lugar, era sempre o modelo que os professores apontavam como exemplo. Isso, inevitavelmente, moldou a minha infância e a pessoa em que me tornei. Ao ver as recompensas que este comportamento me trazia, tinha inúmeros incentivos para continuar a agir desta forma.

Fazendo uma pausa para refletir sobre a definição de obediência, verificamos que esta remete para o cumprimento de uma ordem, de um pedido ou de uma lei, bem como para a submissão à autoridade de alguém. Enquanto adulta, a noção de me submeter indiscriminadamente à autoridade é algo que já não faz sentido para mim. Ainda assim, aquilo para que fomos condicionados na infância não é simples de apagar e tende a permanecer como parte da nossa identidade.

Como mãe de gémeos, comecei a refletir sobre este tema de outro ângulo. Os meus filhos têm agora seis anos e não podiam ser mais díspares, tanto no aspecto físico como na mentalidade e comportamento. Enquanto um é rebelde, o outro tem exatamente a mesma postura que eu tinha em criança: o obediente. Para uma mãe, esse parece o cenário ideal. Porta‑se bem em qualquer lado e, na maioria das vezes, responde ao que os pais e professores querem ou pedem, nomeadamente em âmbito escolar.

Este padrão, porém, tem muitas consequências na vida adulta. A obediência é um comportamento extremamente conveniente para a sociedade porque permite manter as pessoas controladas e submissas. Ao crescer e ao perceber repetidamente que este comportamento é recompensado, acabamos por ver apenas vantagens em continuar a ser assim; a menos que sejamos, por natureza, desobedientes e com um espírito desafiante que questiona tudo o que nos é pedido.

É precisamente aqui que quero focar-me: neste traço de comportamento desafiante, onde acredito existir um claro enviesamento de género.

Os homens são frequentemente vistos como mais rebeldes do que as mulheres. Porém, a pergunta essencial é outra: serão, de facto, mais rebeldes, ou apenas lhes é concedida maior permissão para o ser?

De um modo geral, as raparigas são educadas para cumprir regras, para não causar problemas, para serem discretas e bem-comportadas, para não dizerem certas verdades e, em última instância, para seguirem a manada. Crescemos a internalizar esta mensagem e, muitas vezes, acabamos por nos moldar ao que ela prescreve, mesmo quando isso nos limita.

Esta condicionante tem efeitos profundos e duradouros: reduz a nossa propensão para arriscar, para discordar, para ocupar espaço e para reivindicar protagonismo. E é precisamente por isso que, em tantas áreas, as mulheres continuam a ser empurradas para a retaguarda, incluindo na tecnologia, onde a visibilidade, a assertividade e a confiança para experimentar e falhar ainda pesam mais do que deveriam.

Ser obediente de forma constante leva-nos a perder a nossa essência. Porque deixamos de ser fiéis a nós próprias. Passamos a agir de determinada forma porque acreditamos que isso nos trará uma recompensa. Aprendemos cedo: se faço o que me mandam, os adultos ficam satisfeitos e assim não há repreensões.

Mas isto significa que fazemos aquilo que sentimos ou pensamos? Que seguimos o que acreditamos ser melhor? Claro que não.

Este comportamento pode ajudar-nos em certos aspectos da vida, mas não nos ajuda a destacar-nos. Dentro das empresas, especialmente no setor tecnológico, onde a inovação nasce do desafio, os bons líderes, confiantes e dispostos a correr riscos, valorizam alguém que questiona e traz perspectivas diferentes.

Ao longo da minha carreira no mundo corporativo, aprendi uma verdade que me custou a aceitar, mas se mostrou essencial: temos de desaprender a obediência, especialmente nós, mulheres. Temos de aprender a dizer o que pensamos, a discordar, a defender o nosso ponto de vista sem receio das repercussões.

É preferível cometer um erro ocasional do que permanecer indefinidamente em silêncio por receio das consequências.

Convido-vos a experimentá-lo já nas próximas reuniões, em âmbito profissional. Façam-no de forma educada, mas firme. Ficarão surpreendidas com os efeitos positivos: à medida que começam a expressar as vossas opiniões, verão aumentar o respeito dos colegas e parceiros.

Este conselho não se aplica apenas ao trabalho. Usem a mesma abordagem na vida pessoal. Com amigos, com o vosso companheiro ou companheira. Rapidamente perceberão como a vossa presença passa a ser vista de forma diferente, mais forte, mais autêntica, mais respeitada.

No entanto, é fundamental enfatizar que expressar a nossa opinião não, por si só, sinónimo de conflito ou de confrontação. A franqueza pode ser serena, e a discordância não exige ruído: é possível falar com clareza, colocar limites e expor um ponto de vista sem elevar o tom, sem hostilidade e sem transformar o espaço num lugar desconfortável. Muitas vezes, o que chamamos conflito é apenas a presença legítima de duas perspectivas diferentes.

Desaprender a ser obediente, neste sentido, não é desafiar por desafiar, nem procurar vencer o outro. É, sobretudo, um exercício de integridade: permanecer fiel a nós mesmas, reconhecer o que pensamos e o que sentimos, e ter a coragem tranquila de o expressar com respeito e firmeza. É escolher a autenticidade em vez do silêncio, e a honestidade em vez do medo das consequências.

O Observadorassocia-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.