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A Europa e a guerra

Os governos europeus são incapazes de garantir a segurança das sociedades sem o poder militar norte-americano. Trump sabe isso e despreza a Europa. Putin sabe isso e não para de desafiar e provocar.

João Marques de Almeida
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Apesar de ter aumentado o investimento na defesa, a Europa não sabe lidar com guerras. A cultura política europeia, ou seja, dos países europeus tornou-se pacifista. Com o fim da Guerra Fria, os europeus convenceram-se que o mundo, ou a ordem global, poderia tornar-se como a União Europeia: uma ordem regulada por instituições multilaterais, pelo direito internacional e onde as guerras seriam raras, e instrumentos para impor as regras globais. Neste mundo pós-bélico, as prioridades seriam a economia, as políticas sociais e o combate às alterações climáticas.

A utopia europeia assentava (e assenta), sobretudo, na segurança dada pelo poder militar americano. O comércio internacional, essencial para as economias europeias, é garantido pelo poder naval e aéreo americano. A cooperação entre a CIA e os serviços de inteligência europeus têm protegido a Europa de mais ataques terroristas e assim se vai mantendo a sensação de segurança e de prosperidade na Europa.

Tudo isso começou a acabar com a invasão da Ucrânia pela Rússia. Os europeus, em choque, perceberam que o uso do poder militar na Europa não era uma relíquia da primeira metade do século XX. Continua a ser um instrumento da política externa de uma potência militar que ameaça a segurança da Europa. A China deixou de ser um grande mercado para as exportações europeias, e passou a ser uma rival e uma ameaça industrial. Não há uma grande indústria europeia que não seja neste momento ameaçada pelo poder industrial chinês.

A chegada de Trump à Casa Branca, pela segunda vez, acabou com o sonho europeu sobre o fim das guerras entre potências. Os líderes europeus já tomaram decisões importantes, sobretudo o aumento do investimento no poder militar, mas não é suficiente. Além de poder militar, será fundamental fazer a transição de paradigmas intelectuais para entender a transformação do mundo e lidar com as novas ameaças. Como se viu com a guerra no Irão, as lideranças políticas europeias ainda não estão preparadas para o regresso da guerra como instrumento político. Continuam a olhar para o mundo com óculos do multilateralismo e do direito internacional. Nas últimas semanas, os líderes europeus limitaram-se a expressar desejos sobre o regresso do passado recente, ou dar lições morais aos Estados Unidos e a Israel.

A impotência e a paralisia europeias perante a nova realidade geopolítica são impressionantes e muito preocupantes. Neste momento, os governos europeus são incapazes de garantir a segurança das suas sociedades sem o poder militar norte-americano. Trump sabe isso e despreza a Europa. Putin sabe isso e não para de desafiar e provocar os europeus. E o resto do mundo deixou de levar a Europa a sério, pelo menos no plano geopolítico e na defesa militar. Como europeu, e como um defensor da União Europeia, é muito penoso assistir à incapacidade das lideranças europeias. Os governos europeus não fazem a mínima ideia sobre o modo de lidar com a nova realidade geopolítica.