É claro que podemos viver sem ler o livro Má Terapia, de Abigail Shrier. Mas viveremos com menos ferramentas para refletir sobre os nossos tempos e, sobretudo, para compreender o modo como as novas gerações parecem ter tantas dificuldades em lidar com o mundo e a realidade. É esse o contributo de Shrier, que já tinha escrito Irreversible Damage: The Transgender Craze Seducing Our Daughters (infelizmente ainda não traduzido entre nós) e se debruça agora sobre o processo de psicologização em curso nas sociedades ocidentais.
Encontramos por todo o lado evidências desse processo, mas ele é especialmente visível nas crianças, o grupo sempre mais vulnerável às ideias progressistas que são apresentadas como o segredo para salvar o mundo. Encontra-se tanto na substituição de uma linguagem moral por uma linguagem terapêutica (a criança não se portou mal, a criança está perturbada, com ansiedade ou em processo de sofrimento traumático) como na crescente obsessão com o que as crianças estão a sentir: estão felizes? tristes? desiludidas? irritadas? Tudo enquadrado na chamada “educação para as emoções” e o assustador “monstro das cores”.
O objetivo é sempre apresentado como bondoso: educadores, psicólogos e terapeutas querem garantir que a criança é feliz (mais sobre isto em breve) e uma educação centrada nas emoções e terapeutizada permitiria esse objetivo.
Infelizmente, e como tantas vezes acontece, a realidade é mais teimosa: os estudos são consistentes na indicação de que, apesar de todas as intervenções, os adolescentes apresentam hoje níveis de saúde mental menos satisfatórios do que as gerações anteriores, revelam níveis de egocentrismo e individualismo mais elevados e não se mostram capazes de usar as ferramentas mágicas que lhes são ensinadas para lidar com as dificuldades da vida.
As emoções são uma parte natural da biologia humana e quase sempre respostas adaptativas que fomos adquirindo no processo evolutivo. Mas isso não significa que nos devamos tornar reféns das emoções e ser constantemente estimulados a tentar perceber o que estamos a sentir e a adotar uma atitude de aceitação submissa que se traduz, geralmente, em lágrimas incontroláveis.
As lágrimas são uma reação natural do corpo e ajudam-nos a lidar com as emoções, mas não devem ser confundidas com uma forma de viver. Em particular, no que diz respeito aos rapazes.
Faz parte da litania atual afirmar vezes sem conta que “os homens também choram”, uma expressão tão mais incomodativa quando é apresentada como se fosse uma novidade. É claro que os homens também choram, e bastariam os textos homéricos para sabermos como os heróis são de lágrima fácil, como chama a atenção Frederico Lourenço.
Aquiles, o grande herói, violento, virulento, tantas vezes irado, chora copiosamente nas páginas da Ilíada. Na Odisseia, quando Ulisses nos é apresentado encontra-se lavado em lágrimas e, no Canto 10, “aquele em que temos mais choro”, os homens fartam-se de chorar e arrancar cabelos. Mas nenhum momento é tão emocionante como aquele em que Ulisses e Telémaco se descobrem, no Canto 16, pai e filho:
“Assim falando, sentou-se; e Telémaco abraçou
o nobre pai, chorando e vertendo lágrimas.
E do coração de ambos surgiu o desejo de chorar.
Gemeram alto, os seus gritos mais acutilantes que os
de corvos-marinhos ou abutres de recurvas garras, a quem
os lavradores roubaram as crias antes de lhes crescerem as asas:
assim deploravelmente dos olhos se lhes derramavam as lágrimas.” (p. 466)
Que os homens também choram é, assim, uma evidência. Mas talvez se tenha perdido a razão pela qual os homens devem ser especialmente educados para controlar as suas emoções e evitar as lágrimas nos momentos difíceis. A cultura atual de obsessão com a igualdade faz-nos esquecer o que as sociedades anteriores sempre souberam: homens e mulheres não são iguais e, por essa razão, os homens têm responsabilidades especiais, como usar a sua maior força física para proteger, ajudar e defender os mais fracos.
Nos momentos difíceis, em que precisamos de coragem, frieza e objetividade, chorar não ajuda: as lágrimas toldam-nos a visão – não só literalmente, mas também metaforicamente na medida em que nos impedem de agir com frieza e tomar decisões difíceis. Nesses momentos, não queremos que os homens chorem, queremos que os homens ajam corretamente. Afinal, um herói é aquele que faz o que deve ser feito. E é por isso que devem ser educados para controlarem as suas emoções e não se deixarem levar por elas: para poderem pôr a sua maior força física à disposição dos outros.
A lengalenga de “os homens também choram” torna-se, neste sentido e ao contrário do que parece, mais prejudicial do que benéfica. Na verdade, precisamos que os homens não chorem facilmente e se comportem, antes, como o jovem português que foi apanhado pelo acidente de comboio em Adamuz no início do ano. Em entrevista à TVI, Santiago recorda o que pensou depois de recuperar a consciência: “Tenho dez minutos de adrenalina e vou fazer o melhor que puder”. E querendo fazer o melhor, soltou a namorada que estava encurralada, partiu a janela do comboio e ajudou outro homem que estava sem forças a sair. Fez o que devia ser feito. Chorar naquele momento teria adiantado muito pouco.