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(A) :: #CresceEAparece!

#CresceEAparece!

Eu tinha 1,52 m, era gordinho e de pernas arqueadas. Mas havia exemplos de privados e EP`s obrigados a incluir pessoas "desfavorecidas". Também eu haveria de ter lugar numa equipa de basquete.

José Torres da Costa
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Na rua, nas brincadeiras, o que predominava era o jogo da bola. Sempre que possível pegávamos numa e jogávamos como se não houvesse amanhã. Às vezes, quando não havia nenhuma por perto, improvisávamos com trapos, com laranjas, com o que houvesse, mas desde que se conseguisse malta, e para isso dois bastavam, havia jogo e brincadeira. Nessa altura, ali, pelas redondezas mais estreitas de St.º Ildefonso, a diversão era sempre possível até a mãe ou algum irmão mais velho nos arrancar do folguedo para a janta ou para o ritual dos “deveres”. Aos fins de tarde e sempre que não havia aulas, era assim que passávamos o tempo e a meninice. Jogar à bola, era a actividade mais frequente, mas também jogávamos à “casquinha”, às escondidas, saltávamos à corda, etc. Por vezes fazíamos corridas de um contra o outro pela Ruas de Passos Manuel, da Alegria, Formosa e St.ª Catarina, um quadrilátero perfeito. E improvisávamos. Um corria por um lado e o outro em sentido contrário, quem primeiro chegasse ao ponto de partida ganhava. Quase sempre quem perdia reclamava que o seu circuito era mais longo, tinha mais subidas, etc., mas ninguém amuava. Eu nas corridas perdia sempre e era tão fraco que quando as fazíamos num improvisado regime de estafetas, era sempre o último a ser escolhido. Não tinha jeito para correrias e para jogar à bola também não tinha grande queda. Porém, participava sempre. Sempre que havia jogo ou actividade lúdica, lá estava eu. Desengonçado, sem grande jeito, mas lá estava, sempre pronto e feliz por participar.

Às vezes gozavam-me de fininho, como hoje se diz, havia “bullying”, mas eu não me importava, o que queria era participar e curtir com o maralhal. Estar no grupo era o mais importante. E se não tinha queda para a bola, se era muito tosco de pés e ficava em último nas corridas desenfreadas, isso não me diminuía minimamente. Eu gostava era de basquetebol. Haveria de ser bom nisso!

À noite enquanto adormecia, imaginava-me de bola na mão, a driblar, a driblar pelos “State Warriors” no “Oracle Arena de Oakland, Califórnia” e – saía de bola controlada, aproximava-me do meio-campo do adversário, tinha habitualmente dois jogadores a bloquearem-me, mas arranjava quase sempre uma linha de passe para Klay Thompson ou Harrison Barnes. Estes de imediato metiam a bola em Draymond Green ou Andrew Bogut que umas vezes iam para o cesto, mas muitas vezes devolviam-me a bola e eu, já solto de adversários, ou depois de uma ou duas simulações, atirava e quase sempre conseguia os três pontos. Aí, colocava as mãos juntas, numa prece junto à face, como que a dizer aos adversários que o melhor era irem dormir. Eu era o Stephen Curry, o armador da equipa, o n.º 30.

Umas vezes equipávamos de branco com pormenores azuis e dourados, noutras o equipamento era de base azul. Era lindo. E eu imaginava-me a vestir aquela camisola n.º 30 e a multidão a delirar com a minha actuação. Recordo-me do 3.º jogo contra os Cleveland Cavaliers onde após uma série de cestos da zona dos 3 pontos, fiz, a um minuto do fim, mais um desses cestos brilhantes que ajudou à vitória por 110-102, garantindo-nos o título da NBA em 2018. Foi a loucura no estádio e no meu quarto. Vinte mil espectadores assistiam maravilhados aquele que foi um dos mais empolgantes jogos do ano e, enquanto exultavam e gritavam o meu nome, eu saltava de felicidade. O resultado foi para os Warriors garantirem o título da NBA em 2018 e para mim, feliz que estava, uns sopapos por na euforia da ocasião ter partido a cama e o candeeiro de cabeceira.

Todo o meu quarto respirava basquete. E eu sabia que quando as coisas não me corriam pelo melhor, fosse na bola, fosse nos amigos, fosse nas “namoradas” para quem era quase sempre “translúcido”, fosse quando fosse e pelo que fosse, eu sabia que no fundo havia um futuro risonho que me esperava. O meu quarto era o meu refúgio e para espanto de todos eu ainda haveria de ser jogador de basquete da NBA. Esse era o meu destino, não tinha dúvidas. O meu quarto, era o meu oráculo, o santuário onde num “ritual sagrado” atirava bolas de papel, ou o que tivesse à mão para o cesto (do lixo) e, como um “áuspice”, via naquele resultado o que o destino me tinha reservado – ser um idolatrado jogador de basquetebol!

“Grande”, assim eu me via, mas sempre ansioso pois “os grandes têm sempre sucesso entre as meninas”, ouvia recorrentemente à rapaziada. Porém no meu caso deveriam estar todas longe do meu campo de visão, uma vez que uma qualquer jovem, a existir, estava-me sempre oculta. Alguns anos antes tinha tido um “crush” por uma menina que fazia ballet e que não sei se era pela graciosidade que lhe via quando andava “em pontas”, se pelas pernas esguias e elegantes, se pelos cabelos de cachos dourados, o certo era que tinha por ela uma “paixoneta” que na minha escala de prioridades só era superada pelo basquetebol. À noite na cama, depois de me imaginar no “Oracle Arena” era com ela que sonhava enquanto me apaziguava com o mundo e adormecia. Às vezes, quando me sentia para aí virado, primeiro pensava nela e só depois é que vinha a partida de basquetebol. Nessa idade a ordem destes factores é absolutamente arbitrária. A coisa durou pouco, pois ao que se constou terá fugido com um gajo que era professor de remo e mais velho do que ela 30 anos. Ao certo não sei bem o que aconteceu, mas à noite e à falta de melhor é nela que penso.

Nunca pensei muito nisto, mas “translúcido” como era tinha de me agarrar a algo. Pode ser que um dia lhe escreva um poema! De qualquer forma, namoradas, nem “detrás”, nem “de trás”, pois, bem vistas as coisas, a expressão é demasiado misógina. Podia sempre inverter a ordem dos personagens e colocar a companhia pela frente ou de lado, mas não consigo, pois lembro-me sempre do que sofro no cinema quando tenho gente grande ao lado ou à frente. Grandes como descritos no adágio, se ao lado, invadem o meu espaço e me esmagam, à frente, o filme fica com um “rodapé” tipo relvado ou como um lago a refletir um pôr de sol lá ao longe. Aliás, nem gosto muito de falar das minhas experiências nas salas de espetáculo. Uma vez estava no cinema, numa fila um pouco acima do centro da sala quando comecei a sentir que caíam pipocas ali por perto. Não liguei grande importância, mas fiz mal porque aquilo era prenúncio do que viria a acontecer. Estava eu a incentivar-me, todo focado nas pernas da “bailarina” que nesse dia tinha ido comigo ao cinema, quando me caem um monte de pipocas logo seguidas por um gajo meio tolo que se tinha atirado de umas filas atrás. Levantei-me e ainda confuso, mas magoado e cheio de razão berrei-lhe e insultei-o. Porém e para perplexidade minha, o cabrão em vez de pedir desculpa, arreganhou-me os dentes e se não me afastava levava uma dentada. As merdas que me acontecem! Nunca mais fui ao cinema e a minha bailarina em breve foi “remar” para outras latitudes.

De modo que nem com namorada ou namorado, nem à frente nem de lado ou atrás, é só que teria de estar, era só que teria de me tornar grande e era só que no meu quarto, à noite, me via idolatrado por multidões. O meu quarto era o meu santuário, ninguém lá entrava. Aquele território numas águas-furtadas da rua de St.º Ildefonso com uma pequena janela virada para o Douro, era o meu pavilhão, era ali que treinava que jogava e sonhava. As paredes estavam forradas de figuras lendárias do basquetebol como Michael Jordan; Scottie Pippen; LeBron James; Neemias Queta; e o inevitável Stephen Curry. Aqueles eram os meus ídolos, era com eles que me identificava e, quando nos jogos de bola me gozavam pela minha falta de jeito, isso nunca me incomodou porque sabia que os meus ídolos tinham por mim o mesmo respeito e devoção que eu por eles sentia.

Para além dos pósteres, tinha ainda uma coleção de uns números antigos da Slam, várias bolas de basquete, algumas assinadas por figuras notáveis do basquete nacional como Carlos Lisboa, Neemias Queta, Brad Tinsley e Will Sheehey. Com as assinadas raramente jogava. Têm um lugar de destaque na prateleira e na minha imaginação. Pela cama, pela cadeira e secretária, ou dobradinhas na gaveta e com aquele cheirinho a fresco que sempre ligamos à infância e à figura materna, tinha várias camisolas de jogadores famosos que religiosamente colecionava. Mais novo tive também uma pequena tabela de basquete, mas o barulho e os estragos que fazia quando me punha a driblar naquelas minúsculas águas-furtadas fez com que o cenário dos meus sonhos se alterasse e o objecto do êxtase dos três pontos e das vitórias no último minuto passasse a ser um muito humilde cesto de lixo, mas tal como eu, destinado a grandes feitos.

Estávamos no ano de 2018, fazia eu 18 anos nesse ano. Estava na altura de entrar para uma equipa sénior como jogador profissional de basquetebol. Como nestas coisas o não está sempre garantido, a primeira equipa que tentei foi a do FC Porto. A nível sénior, na primeira liga de basquetebol, a região do Porto oferece várias possibilidades, mas o FCP é para um portista como eu um sonho de vida. Tinha outras possibilidades, ainda que com menor projeção – o Maia Basket Clube, o Vasco da Gama ou o Gaia Basket Clube. Para além destes o distrito do Porto contava ainda com várias agremiações com basquete não profissional e, se fosse necessário, podia ainda recorrer a uma das várias equipas do distrito de Aveiro. Opções não faltavam!

Foi assim que uma quarta-feira, após ter completado 18 anos me dirigi ao pavilhão “Dragão Caixa”, para assistir a um treino e falar com o treinador, o Coach Moncho López, e dar-lhe nota da minha disponibilidade e interesse em ingressar na equipa.

Quando me consegui abeirar dele, pedi-lhe cinco minutos para lhe dar umas palavras, ao que acedeu e eu de peito feito, já a ver-me no lugar de armador de jogo, de dragão ao peito e camiseta azul listada, a brilhar e a ser conhecido como o “Príncipe” dos três pontos. Não tardaria muito e Stephen Curry também teria um poster meu, colado no teto para que, de manhã, quando acordasse tivesse em mim o seu ídolo, um pouco em jeito de retribuição dos anos em que ele fora o meu. E assim, perdido nestes sonhos lá estava eu a falar com o Mister Moncho López para dar início à minha fulgurante carreira.

Moncho López estava sentado, calmo, bebericava uma garrafa de água enquanto me ouvia o “espanholês” muito mal-amanhado com que me explicava.

Quando terminei, ele olhou lentamente para Marcus Arledge, um gigante de 2,06 metros, e disse-lhe num inglês meio arrevesado: “This guy actually wants me to get him a place on our team!”. Deram ambos uma gargalhada e enquanto se afastavam, Arledge exclamou: “It’d be a joke playing with a guy who’s half my size. He wouldn’t even reach my junk!”. E soltando gargalhadas, lá abalaram os dois deixando-me surpreendido e com cara de parvo! Aquele desaforo tinha sido a “gota de água”! Por sorte consegui controlar-me a tempo. Estive quase a perder as estribeiras e a “arrebentar-lhe o focinho”. Na altura contive-me, mas não perdia pela demora! Quando fosse oportuno e apanhasse metade do yankee de cada vez, então, iria ver de que massa era feito o portuguesinho de St.º Ildefonso!

A verdade é que eu tinha 1,52 m de altura e a minha constituição física não ajudava a vender o meu sonho. Mais novo, quando jogava nos juniores do Fluvial Portuense, era gozado pela baixa estatura e falta de jeito. Era baixote, gordinho e de pernas arqueadas. Chamavam-me desajeitado, minorca, meia-leca, “shot de sumol”. Nunca me incomodei com a maioria dos epítetos com que me brindavam. Bem, não me incomodava não é completamente verdade. Quando me chamavam de “caga-tacos” a coisa escalava.

No fundo eu acreditava que a prática do basquete era a forma adequada para se esticar as pernas e endireitar aquele joelho varo que me dava um aspecto de cowboy desajeitado. Esperava eu que com uma prática desportiva exigente daria uma oportunidade para que os meus genes se exprimissem. O meu pai tinha 1,90 e os meus irmãos mais velhos tinham, o Carlos 1,95 e a Cremilde 1,79. Eu pelos vistos saíra ao lado da mãe, mas sendo eu o mais novo dos três irmãos, o último da fornada, talvez a minha curva de crescimento estivesse atrasada e a prática desportiva talvez me ajudasse a recuperar o potencial genético. Afinal, o basquete estimula o crescimento! Só teria de ser paciente.

Foi assim que com 1,52 m procurei um lugar como profissional de basquete primeiro no FCP e depois nas restantes equipas profissionais do distrito do Porto. E durante 2018 e 2019 a cada porta a que batia, o vexame estava sempre garantido. Nem mesmo quando lhes prometia que com o treino adequado poderia crescer 20 a 30 cm em dois anos, nem mesmo depois de fazer essa promessa os conseguia convencer. Sentia-me perdido, e não fora a pandemia e o desenlace desta história poderia ser bem diferente.

Como sabem em inícios de 2020 o mundo entrou numa fase pandémica e durante esse período de reclusão forçada pude refletir bastante sobre a minha condição. Resumindo, eu era branco, baixote, a atirar para o gordo, desajeitado de pernas arqueadas e com muito pouco jeito para o basquetebol. Era o exemplo perfeito de segregação num mundo que se diz de oportunidades, mas para quem acumula todos os factores de exclusão, o resultado só poderia ser esse. Mas, já lá vamos!

Durante o período de confinamento pandémico pude ler e refletir, mas também assisti a coisas insólitas. Vi no meu prédio gente morrer durante a pandemia. Numa semana contaram-se cinco óbitos. O Sr Manuel de 83 anos, do 3.º esq.º, morreu com um AVC. Já no hospital fez teste Covid que foi positivo. Foi a primeira vítima do Covid no prédio! Nessa semana, morreu a D. Amélia de 75 anos, também com AVC, o Sr. Joaquim, de 60 anos, foi encontrado morto na cama com várias revistas pornográficas espalhadas pelo quarto, a D. Eufrasina, de 98 anos, largou um ai e morreu, e a D. Ermelinda, de 78 anos, foi-se com uma leucemia em fase terminal. Como todos tiveram um teste positivo para a Covid, o nosso prédio foi considerado uma caso de saúde pública pela autoridade de saúde local. No espaço de uma semana tivemos a visita da Sandra Felgueiras que fez uma longa reportagem no prédio, vieram 3 psicólogos, dois especialistas em stress pós-traumático, um nutricionista, uma enfermeira de reabilitação, duas autoridades sanitárias, e uma enfermeira parteira que depois de percorrer todos os pisos concluiu que ninguém se via grávida, nem desde a véspera. Sem que fazer, preencheu o formulário, fez um relatório e depois de uma semana de papelada, nunca mais lá pôs os pés. Durante esse período, recordo ainda que fomos visitados por duas figuras estranhas. Uma senhora muito bemposta, sempre com um bonito alfinete ao peito e que não se cansava de ensinar como entrar num elevador. Ora, num prédio que nem elevador tinha ficava difícil cumprir o que ela pedia. Ela pedia, insistia, e nós dizíamos que não era possível! Mas ela não desarmava e voltava a ensinar-nos tudo de novo num português lento e pausado como se fossemos estrangeiros.

O senhor que a acompanhava era um patusco. Com uma cara bonacheirona e um bigode à D. Carlos, era, suponho, doutor da Direção Geral de Saúde e, uma vez que estávamos perto do Natal, quis ensinar-nos a trocar prendas nos corredores e vãos de escadas. Fui a umas seis dessas sessões e consegui oito embalagens de compotas todas diferentes, pois aproveitei a técnica dos corredores para fazer trocas e evitar repetições.

Foi um período difícil, mas sentindo-me eu “discriminado” em relação a algo que achava um direito, dei por bem gasto o tempo que despendi à procura de respostas.

Ao contrário do que confabulara em sonhos de adolescente, das qualidades necessárias para profissional de basquetebol só tinha a vontade. Essa era inabalável! Era baixo, a tender para o gordo, de pernas tortas, “branquela” e com pouco jeito para o jogo. Se listasse as características de exclusão para a modalidade, eu fazia o pleno. Porém, deveria isso ser justificação suficiente para não perseguir o meu sonho e a imagem de mim e com que me identificava? A sociedade está repleta de medidas de proteção a pessoas desfavorecidas e os responsáveis políticos são muitas vezes instados a tomarem medidas que protejam minorias e minimizem constrangimentos de pessoas como eu.

Na sociedade existem múltiplos exemplos em que privados e empresas públicas são obrigados a incluir nos seus quadros pessoas, não pelo mérito para o cargo, mas porque são portadoras de “características desfavoráveis” que a sociedade entende poderem ser factores de segregação. – Lei n.º 38/2004 (Lei da Educação Especial); Lei n.º 46/2006 (Lei da Não Discriminação); Lei n.º 7/2009 (Código do Trabalho); Lei n.º 93/2017 (Lei da Igualdade de Género); Lei n.º 62/2017 (Lei da Paridade nos Órgãos de Administração e Fiscalização das Empresas do Setor Público e das Empresas Cotadas em Bolsa); Lei n.º 4/2019, de 10 de janeiro, que regula o regime de quotas de emprego para pessoas com deficiência com um grau de incapacidade igual ou superior a 60%, entre outras.

Este tipo de leis não se destina à promoção de igualdade nas oportunidades, elas obrigam a resultados, obrigam à equidade. Estas leis são alinhadas com pensadores como Richard Delgado, Herbert Marcuse e outros, para quem a igualdade de oportunidades não limita os fenómenos de segregação. Para eles, os factores de segregação são endémicos, sistémicos e a equidade não se atinge apenas e só na igualdade de oportunidades. Estas perspetivas colavam na perfeição à minha experiência. A sociedade em algumas questões combatia activamente a segregação, mas no que respeitava à minha condição não a via com equidade nem empenho.

E sim, não adiantava dizerem que me seriam dadas oportunidades, o que me importava eram os resultados, eram esses que teriam de ser assegurados. Podia não ter as qualidades adequadas para profissional de basquetebol, podia, mesmo que me fosse dada a oportunidade, podia não ter o mérito de Muggsy Bogues (1965 – presente) que, com 1,60 m, foi um magnífico profissional da NBA e o de menor estatura de que há registo. Posso não ter o seu mérito, mas, reconhecendo isto tudo, e observando como a sociedade intervém noutras formas de “marginalização”, não me bastava exigir igualdade nas oportunidades. Teria de exigir que as minhas diferenças não determinassem uma segregação numa sociedade de basquetebol dominada por negros, atléticos e altamente capacitados. Era assim que eu via o problema!

Há muito que a sociedade reconhece que tem, entre muitas, uma contradição que nunca conseguiu resolver. Nunca encontrou um equilíbrio adequado entre liberdade e igualdade. Provavelmente nunca o irá conseguir porque liberdade e igualdade são conceitos humanos e, sendo o homem imperfeito, só podemos esperar que dele resultem obras à sua medida.

A liberdade e a igualdade são conceitos que resultam da ética e da moral, são princípios não naturais, independentes, com significado próprio, mas com muitos pontos de interseção, e é nesta zona que muitos conflitos sociais se estabelecem. Platão e Aristóteles foram eventualmente dos primeiros a assinalar esta conflitualidade. Para Platão, a liberdade individual devia estar subordinada ao bem comum, resultando a igualdade de uma distribuição da justiça de forma proporcional, entenda-se, regulada pelo poder político. Para Aristóteles, a liberdade deveria depender do mérito de cada um, mas caberia sempre à República regular esse exercício. Prezava-se a liberdade, mas entendia-se que abusos seriam inevitáveis e que o seu controlo e desincentivo seria um papel do poder político.

Das sociedade primitivas não temos registos que garantam se o conflito existia e, a existir, de que forma influenciava essas sociedades. No seu livro Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (1755), Jean-Jacques Rousseau via a sociedade primitiva detentora de uma liberdade absoluta e igualitária. Para Rousseau a desigualdade surgiu com o conceito de propriedade privada, uma construção social que corrompeu o homem tanto na liberdade como na igualdade.

Mais recentemente, em O Começo de Tudo: Uma Nova História da Humanidade, (2021), de David Graeber e David Wengrow é sugerido que nas sociedade primitivas predominava uma vida em comunidade onde a liberdade e igualdade coexistiriam sem conflito entre si. Estes autores sugerem que várias comunidades da Eurásia e da América do Norte poderiam assim ter sido nos seus primórdios. E fundamentam a sua opinião nos relatos de Kondiaronk, chefe da nação Huron-Wendat ao Baron de Lahontan que os publicou em Nouveaux Voyages de Mr. le Baron de Lahontan dans l’Amérique septentrionale (1703). Neste registo, Kondiaronk critica a sociedade ocidental que acusa de limitadora da liberdade individual e favorecedora de desigualdades. Talvez esta seja a descrição mais aproximada das sociedades primitivas.

Tirando provavelmente estas sociedades primitivas, a humanidade não mais conseguiu resolver o conflito entre liberdade e igualdade. Há pensadores que se colocam do lado da liberdade e a defendem como um bem “quási” absoluto – John Locke (1632-1704); Adam Smith (1723-1790); Friedrich Hayek (1899-1992); Robert Nozick (1938-2002), enquanto outros veem-na como um conceito ficcionado e irreal numa sociedade sem justiça nem equidade – Thomas Hobbes (1588-1679); Jean-Jacques Rousseau (1712-1778); Carl Schmitt (1888-1985); Herbert Marcuse (1898-1979); Michel Foucault (1926-1984); Richard Delgado (1939-presente); Slavoj Žižek (1949-presente), David Graeber (1961-2020). Outros ainda, posicionam-se com nuances, numa valorização intermédia da igualdade e a necessidade de se limitar a liberdade – Platão (427-347 a.C.); Aristóteles (384-322 a.C.); Alexis de Tocqueville (1805-1859); Jürgen Habermas (1929-2026), etc. Homens profundamente inteligentes têm entendimentos diferentes e muitas vezes opostos quanto a estes conceitos, não sendo possível dizer que qualquer um deles esteja errado ao defender os seus pontos de vista. A resposta a esta questão está na sua essência. Depende da posição em que cada um se encontra quando analisa a realidade. Os conceitos de liberdade e igualdade têm aspectos inconciliáveis, sendo impossível interferir num sem que isso implique alterações no outro.

Ao contrário do que habitualmente é referido, o homem não é um animal racional. O homem é um animal, mas não é racional, é emocional, é dominado por sentimentos e motivações. Racionais são as máquinas, os computadores. O homem é antes de mais um animal emocional, um ser em que o uso da razão assenta nos seus sentimentos e na moralidade que deles decorre. E é dos sentimentos e moral de cada um que nascem os conceitos de liberdade e igualdade. É por isso que é impossível convencer alguém que está errado na forma como sente a liberdade, a igualdade ou a equidade.

Se a liberdade surge como um impulso primário de preservação, a igualdade expressa-se pela empatia, pelo amor ao próximo, por um instinto de cooperação, pelo entendimento da justiça e moralidade, por aquilo Edward O. Wilson descreveu como “altruísmo”, um comportamento que, segundo ele, colocava as sociedades onde predominava em vantagem sobre as restantes. Porém, os pensadores de esquerda, e em particular os de extrema-esquerda, sugerem que os factores externos, as influências socioculturais e os conceitos racionais que deles decorrem, podem ser manipulados em sentido descendente. Só que ao contrário da empatia e do amor pelo próximo, os factores externos colocados desta forma são estranhos à natureza humana e é por esse motivo que os passos tendem a ser maiores que a perna.

Não há sociedades perfeitas e eu, enquanto pretendente a basquetebolista profissional, assumo-me ao lado das franjas igualitárias que exigem que os resultados se sobreponham às oportunidades. Exijo equidade no tratamento das diferenças. Filósofos como Richard Delgado, um dos fundadores da Teoria Crítica da Raça, para quem o conceito tradicional de igualdade é insuficiente para combater as desigualdades raciais, pois a ênfase que dá à liberdade individual (igualdade de oportunidades) acaba, segundo ele, por perpetuar as práticas discriminatórias. Por isso, defende Delgado, a verdadeira igualdade requer uma reestruturação do sistema legal para que seja contrapeso dos factores estruturais de segregação na sociedade. É nas suas ideias que me revejo, assim como nas de Herbert Marcuse (1898-1979) que em várias obras condenou a sociedade de consumo acusando-a de ser castradora da liberdade e da emancipação do homem. Para ele, a libertação só será conseguida através de uma atitude revolucionária liderada por “intelectuais iluminados” que guiem as massas rumo ao derrube dos dogmas e aos novos conceitos desenhados para um mundo justo e igualitário. É neste conjunto de ideias e intelectos onde me inspiro e bebo os fundamentos com que me guio. Um grupo onde incluo Kimberlé Williams Crenshaw (1959-presente), jurista e professora de teórica crítica do direito, norte-americana, que em a Teoria Crítica da Raça defende o conceito da interseccionalidade, segundo o qual diferentes formas de discriminação e opressão se sobrepõem e interagem criando experiências de marginalização em que os vários factores se potenciam. Era o meu caso!

Ao identificar-me com estes pensadores e ao assumir-me como adepto de um mundo igualitário e radical, renunciei livremente à liberdade que via apenas possível se a sociedade for equitativa e justa. Claro que nego a liberdade e compreendo que o interseccionalismo levado ao extremo resulte numa sociedade fragmentada, estilhaçada composta de nichos sem conexão entre si. Sei ainda que os meus críticos são capazes de arengar páginas repletas de lógica como forma de desmontar o meu raciocínio, mas desde já os aviso que por cada argumento que tragam à discussão eu consigo encontrar dois que os contraponham. O homem não é um ser perfeito pelo que as suas construções também nunca o serão. E é por isso que exijo que numa sociedade dominada por negros, excelentes atletas e de excelsa aptidão para o desporto, que esse mérito não subjugue os resultados e não condicione pessoas como eu, impedindo-as de cumprir o seu sonho e o seu futuro. Foi por isso que terminado o período pandémico me envolvi activamente na política e aderi ao Bloco de Esquerda. Não fiquem por isso admirados se numa qualquer acção de rua me virem num écran de televisão, um pouco acima da linha de rodapé, entre as mamas Mortágua, ou qualquer um dos seus sucedâneos.

Ainda não consegui entrar numa equipa profissional de basquetebol. Mas já dei os primeiros passos. Frequentei uma licenciatura em sociologia e tive o Doutor Boaventura Sousa Santos como professor. Colaboro no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e ainda que não jogue na liga profissional, na Liga Betclic, participo na Proliga pela Associação Académica de Coimbra.

Aos fins-de-semana e nas férias, vou até ao Porto e aproveito para me passear pela cidade e ter um olhar sobre as pessoas. Sempre que posso vou até ao parque da cidade. É aí o meu lugar de reflexão de eleição por entre árvores e a vida animal que por ali abunda. É para muita gente um lugar de “peregrinação” e em particular fazem-no nos fins de tarde soalheiros. É uma fuga, um momento de descompressão para muitos. Há os que passeiam e se deixam inebriar por uma paisagem absolutamente envolvente, há os que praticam desporto, os que correm, os que fazem aulas de grupo e até já por lá vi quem praticasse “taichi”. Há de tudo um pouco e no meio de tanta variedade de pessoas e comportamentos, havia uma que me chamou particular atenção. Era alguém se sentava num muro, acocorado, com o “rabo” entre os pés e as mãos apoiadas um pouco mais à frente. Visto de longe aquela posição parecia-me algo acrobática e incómoda. Seria “pilatos”, “yoga”? Ao certo e ao longe não tinha a certeza, mas havia algo de estranho naquela personagem. Aproximei-me e já mais perto dava para ver, parecia confortável. Tinha um olhar meigo e sem exagero parecia muito atento a tudo quanto o rodeava. Por vezes levantava o rosto como se estivesse a “ler” algo no ar. Sempre que passavam animais por perto ficava agitado, mas quando os via com os donos o seu olhar entristecia como se aquela ternura lhe fizesse falta. Por momentos lembrei-me do que anos me tinha acontecido no cinema, achei que poderia ser a mesma pessoa ainda que mais velha e evidenciasse agora as cicatrizes dos maus-tratos da vida. Sentei-me ao seu lado e iniciei uma longa conversa e uma cumplicidade que se foi acentuando ao longo dos dias. A sua história era fantástica, melancólica, mas muitas vezes com aquelas notas de humor que tanto apreciava. Talvez um dia escreva sobre a sua vida e faça dessa história a minha tese de mestrado. Talvez, quem sabe! Ah, e já agora, o seu nome era Lucão.