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(A) :: O renouveau da Igreja em França

O renouveau da Igreja em França

A Igreja em França deixa transparecer a luz de Deus porque tem havido uma maior fidelidade às missões do batismo

Pedro Tovar e Frei Francisco Fraga, op
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Surgiram nestes dias dois artigos, o do Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada no Observador (“A Páscoa e a ressurreição da Igreja em França”) e o do João Miguel Tavares, no Público (“E se o cristianismo estiver de novo a ficar na moda?”), que abordavam o aumento significativo de batismos de adultos em França nesta Páscoa. Face ao interesse que este fenómeno suscitou em Portugal, dois portugueses nascidos e criados em Portugal e que em França se preparam para o sacerdócio – um numa ordem religiosa no sul de França e outro num seminário, no norte do país – ambos em contacto direto com este renouveau – puseram-se à conversa para escreverem este artigo, a fim de completar o que os dois artigos mencionados disseram.

Comecemos pela realidade do catolicismo francês, tão bem descrita por Guillaume Cuchet no seu artigo “Une vague de baptêmes qui réjouit l’Église” na Revue Études de Janeiro de 2026. Dos muitos dados interessantes que este professor de História da Sorbonne apresenta e analisa, há um que nos parece especialmente importante: entre 2008 e 2020 a percentagem de franceses entre 18 e 59 anos que se declaram como católicos passou de 43 a 15%, ou seja, em apenas 12 anos houve uma redução para cerca de um terço. Estamos, portanto, a falar de um país no qual a prática católica decresce de forma abrupta a cada dia que passa. Porém o aumento de batismos é bem real: em dez anos passou-se de mais de 4.000 a mais de 21.000 – aumento ainda mais impressionante se se tiver em conta que algumas das pessoas que estão a voltar à Igreja, ainda que não sejam a maioria, foram batizadas em criança, mas nunca mais lá voltaram. Trata-se, então, de uma Igreja em decrescimento numérico acentuado, fenómeno este que vai de mão dada com um verdadeiro renouveau (termo empregado pelos franceses para exprimir o “ressurgimento”) da fé nos jovens e nos adultos.

O que é que se está a passar em França? Quais são as causas deste renouveau? Como é óbvio, Deus é a causa do que está a acontecer. Todavia, esta luz age através dos Homens que, segundo a sua maior ou menor transparência, podem transmitir a luz divina com maior ou menor intensidade. Assim sendo, muito embora seja Deus que chama todas as pessoas à Igreja, os seus membros podem ajudá-l’O neste chamamento ou, pelo contrário, dificultá-lo. Já que as decisões de Deus são insondáveis (cf. Rm 11, 33), achamos importante destacar os fatores humanos do renouveau que pudemos constatar através da nossa experiência na linha da frente.

1. O renouveau só é possível porque em França o catolicismo deixou de ser uma referência cultural. Atualmente, há poucos bebés a serem batizados e, aqueles que o são em adultos, em circunstâncias normais deveriam ter sido batizados em criança. Este aspeto não é positivo, pois embora tenha havido alguns milhares de pessoas a pedir o batismo, ignora-se quantas não o fizeram, mas desconfiamos que este número é maior e que cresce a um ritmo mais acelerado do que aquele. Acrescente-se, ainda, que aqueles que pedem o batismo ou algum outro sacramento encontram-se algumas vezes em situações complicadas, marcadas por um grande vazio existencial, vazio esse que é preenchido quando visitam uma igreja. Além disso, a grande diversidade destes recém-chegados à Igreja (idades, realidades familiares, cultura, nível de formação, etc.) exigem um acompanhamento personalizado e não a mera inscrição no grupo de catequese que existe há várias dezenas de anos na paróquia. Essa personalização é muito desafiante para as paróquias cujos párocos já estão demasiado ocupados e cujos leigos ainda não estão suficientemente preparados. Ora nada disto é desejável, mas tudo isto mostra, como num negativo de uma fotografia, a ação misteriosa de Deus que escreve direito por linhas tortas. Contudo, o catolicismo não pode considerar esta situação como normal: a família deve continuar a ser o meio da transmissão da fé, nomeadamente administrando os sacramentos às crianças e ensinando-lhes quer a “razão da nossa esperança” (1 Pe 3, 15) quer a rezar, isto é, a falar com Deus no íntimo do coração.

2. O primeiro ponto era apenas uma condição de possibilidade. O segundo já é uma causa: tem havido na Igreja em França uma maior fidelidade à sua missão profética, ou seja, à sua missão de pregar a doutrina da Fé como ela é, sem medo, mais com muita caridade, mesmo no que toca aos assuntos mais sensíveis. Citamos como exemplo o frei Paul Adrien, youtuber dominicano, com mais de 130 milhões de visualizações, que recebe quatro pedidos de batismo por semana, mas pede à sua ordem que ela verifique se os seus vídeos são conformes à doutrina da Fé! Para pregar a fé como ela nos é dada por Deus, é preciso receber uma boa formação intelectual que consiste em estudar segundo a tradição da Igreja, sem desprezar a vida de oração e sacramental.

3. A segunda causa é que tem havido na Igreja em França uma maior fidelidade à sua missão sacerdotal. Um dos fatores que leva muitos convertidos, não tanto a voltar à Igreja mas, mais importante, a ficar nela, é a beleza das celebrações litúrgicas. Em França, desde há vários anos, tem havido novos cancioneiros, com canto polifónico muito bonito e solene, inspirados por vezes no canto gregoriano – que também está na moda – e outras vezes criados de raiz, sempre centrados na transmissão do sagrado. Vê-se ainda em muitas igrejas uma grande preocupação com a beleza das ações durante a celebração. Contudo, nada disto dá a graça de Deus e nada disto é necessário para que o pão e o vinho sejam convertidos no Corpo e Sangue de Nosso Senhor – isso não deixa de ser verdade e, no entanto, ajuda esses novos convertidos (e os velhos convertidos também) a participarem na ação sagrada de oferecer o santo sacrifício da missa e a receberem dela o corpo e o sangue do Salvador!

4. Por fim, uma terceira causa: a Igreja em França desenvolveu a sua missão de rainha. Para um católico, ser rei, no sentido religioso do termo, é governar o que lhe compete tendo por fim imediato o bem comum da comunidade e por fim último a Deus. Na verdade, a Igreja em França nunca abandonou a sua missão de rainha, porque sempre teve uma grande preocupação com os mais desprotegidos, preocupação que ela não pode abandonar nem deve, já que os pobres são também um “sacramento” de Cristo (cf. Mt 25). Um exemplo disso é o facto de a Igreja em França, nestes últimos anos, ter percebido que podia pôr alguns dos seus edifícios ao serviço dos estudantes universitários. Assim se desenvolveram as collocations (colocação em tradução literal), ou seja, pequenas residências de estudantes universitários que, apesar de serem dirigidas por um casal católico ou por um religioso, são abertas a não católicos e permitem aos estudantes de terem, num mundo individualista e muitas vezes hostil à fé, uma vida comunitária centrada na fé. Além disso, estas collocations são verdadeiras escolas de aprendizagem da procura em conjunto do bem comum, algo fundamental no governo de uma sociedade!

Profeta, sacerdote, rei – a Igreja em França deixa transparecer a luz de Deus porque tem havido uma maior fidelidade às missões do batismo que, ao nos incorporar n’Aquele que é o Profeta, o Sacerdote e o Rei, faz de nós profetas, sacerdotes e reis. É então uma Igreja mais conforme a Cristo, sua cabeça, que, apesar de estar reduzida em número, atrai todas estas conversões.