O antigo presidente da Bulgária, Rumen Radev, venceu as eleições legislativas que se realizaram este domingo, com uma margem folgada. O partido de Radev, o Bulgária Progressista, conseguiu mesmo atingir a maior absoluta, numa altura em que estão contados mais de 90% dos votos.
A vitória expressiva de Radev, um político nacionalista e alinhado com a Rússia, pode representar um revés para a liderança da União Europeia, que, há apenas uma semana, celebrara a derrota do nacionalista Viktor Órban, que vai deixar a liderança do governo da Hungria ao fim de 16 anos. O Kremlin já veio elogiar as “palavras pragmáticas” de Radev sobre o diálogo europeu com a Rússia.
Nas oitavas eleições búlgaras dos últimos cinco anos, e numa altura em que estão contados cerca de 92% dos votos, o partido de Rumen Radev lidera a contagem, com 44,69% dos votos e mais de 1,3 milhões de votos. Com este resultado, Radev poderá formar uma maioria sem necessidade de um parceiro, pondo fim a anos de crises políticas no país. Segundo as projeções, o partido Bulgária Progressista deverá eleger 129 dos 240 deputados que vão compor o novo Parlamento. Os resultados finais ainda não são conhecidos, mas a imprensa búlgara já dá como certo que Radev terá maioria absoluta para governar.
É a vitória da esperança sobre o desespero, da liberdade sobre o medo. Uma vitória da moral porque as pessoas rejeitaram a arrogância dos velhos partidos e não se deixaram levar pelas suas mentiras e manipulações”, afirmou Rumen Radev, citado pelo New York Times.
A vitória expressiva de Radev (que supera até as sondagens pré-eleitorais) contrasta com a ‘derrocada’ da coligação pró-União Europeia, que segue com 13,39% dos votos. Esta coligação é liderada pelo GERB, partido que dominou o cenário político búlgaro nas últimas décadas e que é liderado pelo ex-primeiro-ministro Boyko Borissov.
Em terceiro lugar, surge o partido Bulgária Democrática” com 13,21%. No Parlamento, em Sófia, deverão ainda entrar outros dois partidos. Segundo as projeções, a afluência às urnas atingiu um recorde nestas eleições, com a participação eleitoral a ultrapassar a barreira dos 50%.
Estas são as oitavas eleições em cinco anos no país. Com 6,5 milhões de habitantes, a Bulgária é o país mais pobre da União Europeia que entrou no euro apenas no início deste ano.
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A vitória de Radev acontece uma semana depois da histórica derrota na Hungria do principal aliado do regime de Vladimir Putin na União Europeia, Viktor Orbán. E era esperada num país em que a população está frustrada com a falta de melhorias no nível de vida e que associa a classe política à corrupção.
No discurso de vitória, ainda na noite deste domingo, o novo primeiro-ministro da Bulgária deixou críticas à Europa. “A Europa foi vítima da sua própria ambição de ser uma líder moral num mundo com novas regras”, afirmou, citado pelo The Guardian, acrescentando que “uma Bulgária forte e uma Europa forte precisam de pensamento crítico e pragmatismo”.
Antigo militar, Rumen Radev é considerado próximo do regime russo e eurocéptico. Abandonou o cargo de Presidente mais cedo para concorrer ao de primeiro-ministro, tendo criado uma coligação que junta várias forças de esquerda. No entanto, tem um discurso nacionalista e defende para a Bulgária uma posição de equilíbrio entre a União Europeia e a Rússia, pretendendo renovar os laços com Moscovo. É ainda contrário ao apoio militar da Europa à Ucrânia e sua eleição pode introduzir mudanças relevantes na política externa da Bulgária.
Com 62 anos, o antigo comandante-chefe das Forças Aéreas, Radev iniciou a sua carreira militar em 1987, ainda sob o regime comunista, e consolidou-se como um dos militares mais destacados do país. O seu confronto com os políticos tradicionais granjeou-lhe apoio popular, especialmente ao apoiar vários protestos de cidadãos, entre os quais a mobilização contra a corrupção e o aumento dos preços que levou, em dezembro passado, à queda do Governo de coligação liderado pelo conservador Rosen Zhelyazkov.
Agora, com uma mensagem nacionalista centrada na regeneração do Estado, na segurança nacional e na prestação de contas, Radev conseguiu capitalizar o descontentamento dos cidadãos. O seu objetivo declarado é “transformar a Bulgária”, embora os seus críticos alertem que o seu estilo personalista e as suas abordagens possam deteriorar a democracia.
Depois de votar, assegurou que vai procurar relações “práticas e de respeito mútuo” com Moscovo e voltou a sublinhar que era necessária uma cooperação entre a UE e a Rússia. Em matéria de política externa, Radev defende que é possível combinar a adesão à União Europeia e à NATO com uma postura crítica em relação às sanções contra a Rússia.
A sua vitória era esperada e surge depois de anos de domínio da política búlgara pelo GERB, partido do centro-direita do atual primeiro-ministro que é favorável à Europa e que terá tido um resultado muito baixo, segundo a mesma sondagem.
Notícia atualizada às 9h20 do dia 20 de abril com informação sobre os resultados com 90% dos votos contados e com o número de lugares que o partido de Radev deverá conquistar no Parlamento