O Grande Cisma do Ocidente não foi apenas uma querela eclesiástica. Foi uma luta pelo comando moral e político da Cristandade latina. A partir de 1378, com a contestação da eleição de Urbano VI e a instalação de Clemente VII em Avignon, a Igreja dividiu-se entre obediências rivais, alianças dinásticas e estratégias de poder. Por detrás da disputa teológica estava uma questão mais profunda: quem detém autoridade para falar em nome da ordem moral comum?
O que tem esta questão a ver com Donald Trump? Muito. O presidente norte-americano entrou, recentemente, em conflito com Leão XIV, o primeiro Papa americano, num confronto que ultrapassa a diplomacia e toca a própria disputa pela autoridade moral no espaço público americano. Circularam relatos, entretanto contestados, sobre pressões exercidas por responsáveis da administração americana junto de interlocutores do Vaticano, incluindo alusões históricas ao precedente de Avignon. Independentemente da literalidade desses relatos, o essencial é que a tensão entre a Casa Branca e a Santa Sé é real, pública e politicamente reveladora.
Esta tensão entre o Vaticano e a Casa Branca não é um simples episódio mediático. Pelo contrário, encontra-se no coração da identidade política do trumpismo, demonstrando a força gravitacional do fator religioso quer no movimento MAGA, quer na própria construção do arquétipo político de Donald Trump.
De Trump ao MAGA, e do MAGA a Trump
O movimento MAGA (Make America Great Again) tem raízes históricas profundas nos Estados Unidos, participando de uma tradição que cruza classe social, geografia sociológica e capital educacional. Trata-se de uma interseção entre os movimentos políticos populistas operários de finais do século XIX e começo do século XX, que uniam os trabalhadores rurais do Midwest e os operários fabris das grandes cidades num eixo de pertença de classe e ressentimento económico, e os movimentos conservadores de tradição evangélica que conduziram à formação da chamada Bible Belt, o cinturão de estados do interior americano onde ganhou força o conservadorismo evangélico que mais tarde encontraria expressão política na “Maioria Moral” (Moral Majority).
O movimento MAGA aparece, então, sob tais alicerces e aproveitando o retorno das guerras culturais no quadro do que chamo “imaterialismo histórico”, ou seja, a transformação das lutas sobre redistribuição e condições laborais em lutas sobre identidade cultural e pessoal.
Nesse sentido, o movimento MAGA precede e ultrapassa Donald Trump, uma vez que é um movimento de tomada do poder e de hegemonia cultural. No entanto, em torno de Donald Trump adquire uma dimensão personalística de poder, de messianismo político. Nesse campo, articula-se com o cristianismo evangélico carismático e profético, no qual o líder se reveste de uma dimensão espiritual e teleológica, isto é, de redentor final de uma sociedade.
Assim, se o movimento MAGA necessita da personalização messiânica em Donald Trump, torna-se cada vez mais evidente que o próprio culto messiânico produziu um efeito indesejado no presidente americano: levou-o a acreditar, piamente, que encarna essa dimensão espiritual de todo-poderoso, de messias para a América e para o mundo moderno.
A guerra justa, o messianismo belicista e o Papa como obstáculo
É aqui que surge o conflito com Leão XIV. Se Donald Trump se vê a si próprio como messias, não está sujeito a critérios oriundos de qualquer organização religiosa, pois a sua palavra tem o mesmo valor que a dos sacerdotes. Mais: a sua palavra atualiza a mensagem teológica.
É por isso que JD Vance se permitiu aconselhar o Papa a refletir sobre a definição de “guerra justa”, como se o Sumo Pontífice não conhecesse toda a tradição canónica sobre o assunto. Na tradição católica, a ideia de guerra justa nunca foi um elogio da guerra. Foi antes uma tentativa de submeter a guerra ao juízo moral e jurídico, para impedir que qualquer recurso à força fosse tido como legítimo só porque servia um interesse político ou religioso. Assim o conceberam, ao longo do tempo, de Santo Agostinho a Tomás de Aquino, e de Francisco de Vitoria a Francisco Suárez.
O ponto de inflexão é, precisamente, esse: impedir que uma guerra ditada por interesses se apresente como guerra justa. Nesse aspeto, percebe-se que o pensamento de Trump, Vance e Hegseth aproxima-se mais do neopentecostalismo, marcado pela ideia de “batalha espiritual” permanente e de messianismo belicista, em que a guerra é sempre justa se travada em nome de Deus e contra um inimigo religioso-espiritual.
Emerge, assim, o ponto de tensão entre o Papa e o trumpismo. Enquanto a Igreja Católica se tem pautado por uma visão da humanidade a longo prazo, procurando uma mensagem de paz e conciliação, o trumpismo apresenta-se como uma mensagem revolucionária de batalha contra os inimigos da nação e da sua maioria moral.
É por tal razão que o Papa Leão XIV é um estorvo ao trumpismo: na sua condição de cidadão americano deveria, no entendimento da administração Trump, articular-se com as diretrizes do trumpismo, fechando um círculo profético de um messias político para a América: um povo eleito (MAGA), um profeta/messias (Trump) e um Papa.
A disputa é, portanto, profunda: trata-se de saber quem detém a autoridade para enunciar a moral cristã no espaço público americano. É neste sentido que o espectro de Avignon regressa como metáfora política. Não porque estejamos perante uma repetição literal da história, mas porque reaparece a velha tentação de subordinar a autoridade espiritual a uma lógica de poder temporal e nacional. O que está em causa não é apenas uma divergência entre um Presidente e um Papa. É a tentativa de capturar a linguagem moral do cristianismo para a integrar num projeto de hegemonia política.