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(A) :: Caro Dan Jorgensen, como se diz hipócrita em dinamarquês?

Caro Dan Jorgensen, como se diz hipócrita em dinamarquês?

Apesar da retórica bélica e da pressão para desmantelar o “regime Putin”, cerca de 49% das exportações globais de GNL da Rússia têm como destino portos europeus.

Maria Vieira da Silva
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À medida que o relógio marca a contagem regressiva para a tão alardeada proibição de todas as importações de gás russo para a União Europeia, que entrará em vigor em 1 de Janeiro de 2027, os dados sobre fluxos comerciais, desde o início da guerra na Ucrânia, contam uma história diametralmente oposta.

Como se diz hipócrita em dinamarquês? Segundo a inteligência artificial que me auxilia na pesquisa, a tradução é “hikler”. Não, não estou a pensar em trocar Lisboa por Copenhaga. Podem ficar sossegados. Interessei-me pela tradução do termo depois ler as entrevistas concebidas pelo Comissário Europeu para a Energia e a Habitação ao Financial Times e ao La Stampa, o dinamarquês Dan Jorgensen.

Confesso que, ao ler as entrevistas, cheguei a sentir uma pontada de compaixão pelo Comissário Europeu. Não deve ser fácil viver a pregar uma coisa e a fazer o seu oposto. De facto, quando questionado se, à luz da guerra no Irão, não seria o momento certo para reconsiderar a proibição da compra de gás russo, Jorgensen respondeu com um peremptório “absolutamente não”. Já, em Dezembro, de 2025, o Comissário da Energia tinha dito que a UE não importará “nem mesmo uma molécula” de gás russo no futuro, em resposta ao primeiro-ministro belga, Bart de Wever, que tinha sugiro a retoma das importações de energia russa. E acrescentou: “não podemos, na UE, contribuir indirectamente para o financiamento da guerra brutal e ilegal da Rússia”. Então, ele reitera, nas entrevistas, que não devemos repetir o erro de colocar o nosso destino económico e o nosso bem-estar nas mãos de Putin. “É uma vergonha que, sem o gás do Catar e de Moscovo, com postos de gasolina a ficarem secos porque não há uma gota de petróleo fluindo do Golfo, o nosso destino económico e o nosso bem-estar estejam seriamente ameaçados, independentemente de Putin”. Jorgensen chega a descartar a possibilidade de regressar ao gás russo mesmo após a paz ser alcançada na Ucrânia. “A proibição está em nossa legislação; não se trata de sanções que podem ser suspensas quando a guerra terminar”.

Por outras palavras, mesmo com o fim do conflito, a UE continuará em guerra com Moscovo. Como definir semelhante atitude? Não tenho dúvidas: a UE está claramente a optar por um comportamento insano e autodestrutivo. Jorgensen afirma que o problema não é restabelecer as relações comerciais com Moscovo, mas reduzir o consumo de combustíveis fosseis acelerando a transição energética. É uma pena, como já referi no artigo anterior, que o Pacto Ecológico Europeu tenha crucificado o sistema industrial europeu, para além de servir para redistribuir a dependência energética, transferindo-a para outras áreas instáveis e cadeias de suprimentos mais vulneráveis a conflitos militares.

No entanto, o comportamento da UE também é extremamente hipócrita, pois, enquanto por um lado afirma não querer colocar o seu destino nas mãos de Putin, por outro, continua a financiar secretamente a guerra na Ucrânia. Hipocrisia ao quadrado. O próprio Don Jorgensen confirma isso mesmo na entrevista ao jornal italiano La Stampa. Leia para crer.  “Ainda há uma guerra terrível em curso na Ucrânia, e Putin está a lucrar muito com essa crise. Ajudá-lo a reabastecer os seus cofres é impensável para a União Europeia. Desde 2022, gastamos mais dinheiro em energia da Rússia do que aquele que destinamos ao apoio à Ucrânia.

Jorgensen fala em constrangimento, mas, para mim, a definição mais apropriada para o seu comportamento e da UE seja hipocrisia. Porque, apesar da retórica bélica e da pressão para desmantelar o “regime Putin”, das declarações de princípio e das dezenas de sanções aprovadas, a verdade é que, segundo um relatório recente do CREA, um centro independente de pesquisa energética, com sede em Helsínquia, cerca de 49% das exportações globais de GNL da Rússia têm como destino portos europeus – o dobro da percentagem que chega à China. Só em Março, destaca o relatório, chegaram aos portos europeus catorze carregamentos de produtos petrolíferos de refinarias que usam petróleo bruto russo, classificado pela UE como de alto risco.

E, novamente em Março, as receitas de exportações russas de combustíveis fosseis atingiram os níveis mais altos dos últimos anos, duplicando-os.  Mas quem são os maiores importadores europeus de produtos petrolíferos russos?  A Espanha, a campeã das energias renováveis e exemplo a seguir para a alcançar o nirvana verde europeu, com 355 milhões de euros, um aumento de 124% em relação ao mês anterior. Hungria, França, Bélgica e Bulgária vêm a seguir.

Então, caro Comissário Dan Jergensen, como definir o seu comportamento? Em dinamarquês, chama-se hykler.