Um pedido formal de desculpas foi feito no sábado em França por Pierre Guillon de Prince, de 86 anos, que descende de uma família de armadores de navios que transportaram cerca de 4.500 africanos escravizados. Será a primeira vez em França em um descendente faz uma declaração pública a denunciar o envolvimento dos seus antepassado no negócio da escravatura, segundo o The Guardian, A 25 de março, a ONU declarou a escravatura o “crime mais grave contra a humanidade“, mas França e Portugal abstiveram-se.
A família de Pierre Guillon de Prince tinha plantações nas Caraíbas e geria navios no porto de Nantes, no Oeste de França, o principal porto francês no transporte de pessoas escravizadas da costa ocidental africana para o continente americano. O pedido de perdão do francês foi feito naquela mesma cidade, onde foi inaugurado o “mastro da fraternidade”, uma réplica de 18 metros que simboliza a memória do movimento migratório forçado.
“Perante a ascensão do racismo na nossa sociedade, senti a responsabilidade de não deixar que este passado fosse apagado“, afirmou Pierre Guillon de Prince na cerimónia onde acrescentou que o Estado francês deve promover ações de reparação histórica para além de gestos simbólicos. Mas defende que não deve ser apenas o Governo a fazê-lo. As famílias também devem confrontar-se com as ligações passadas à escravatura. Segundo o jornal Le Parisien, Guillon de Prince fez uma doação para a associação “Haiti Futuro”, reconhecendo “ainda assim não ser proporcional ao sofrimento infligido às populações que foram vítimas da exploração colonial no século XVIII”.
“Sinto-me em dívida com o sofrimento que os descendentes de escravos ainda possam sentir, mesmo duzentos anos após a abolição”, declarou à revista Télérama “Não posso deixar este mundo sem fazer algo para aliviar a dor destas pessoas”.
O monumento em Nantes teve o custo de 192 mil euros que foram angariados online. A iniciativa partiu de Guillon de Prince e de Dieudonné Boutrin, francês que é descendente de escravos que forma levados para a ilha de Martinica, nas Caraíbas, que ainda faz parte do território francês.
“Muitas famílias de descendentes de traficantes de escravos não vêm a público por medo de reabrir velhas feridas e provocar o ódio. O pedido de desculpas de Pierre é, portanto, um ato de coragem“, disse Boutrin na inauguração do monumento.