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Ana Abrunhosa: o preço de uma frase a mais

Não houve um ataque à liberdade de imprensa. Houve um erro de forma com implicações institucionais reais. Mas em política, os erros de forma pagam-se ao preço da substância.

Gustavo Veloso
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A política tem uma regra cruel, mas implacável: quando a forma falha, o conteúdo deixa de importar. É uma regra injusta, porque premeia frequentemente quem fala bem mesmo quando não tem razão, e castiga quem tem razão mas não a sabe explicar com a contenção devida. Mas é a regra do jogo democrático. E o que se passou na última reunião da Câmara Municipal de Coimbra é um caso de estudo perfeito sobre como ignorar esta regra pode transformar um erro de comunicação numa crise política de dimensão nacional.

O episódio é conhecido e já correu os ecrãs do país. Confrontada com uma notícia da agência Lusa sobre a Casa do Cinema de Coimbra — que dava conta do risco de o espaço perder a licença por falta de obras —, a presidente Ana Abrunhosa reagiu com inusitada dureza contra o jornalista que a assinou. O resultado foi imediato e previsível: os jornalistas presentes abandonaram a sala em bloco, a direcção da Lusa emitiu um comunicado de repúdio, o Sindicato dos Jornalistas falou em violação da liberdade de imprensa, e a oposição apressou-se a exigir retractações públicas. Em poucas horas, uma notícia local sobre um equipamento cultural transformou-se num debate nacional sobre intimidação, censura e os limites do poder.

Mas se quisermos ser intelectualmente honestos e separar o ruído da substância, precisamos de fazer o que quase ninguém fez nos últimos dias de indignação colectiva: ler exactamente o que foi dito. Não o que achamos que foi dito, não o que o calor do momento ampliou nas redes sociais, mas as palavras exactas proferidas na reunião. E quando o fazemos, a narrativa do “ataque à liberdade de imprensa” revela-se mais complexa do que o consenso mediático sugere — sem que essa complexidade elimine a gravidade do que foi dito.

Comecemos pelo conteúdo das críticas. A presidente acusou o jornalista de “faltar à verdade”, de “deturpar factos” e de “ter uma agenda política”. São acusações duras? Sem dúvida. São desconfortáveis de ouvir para quem exerce a profissão? Certamente. Mas configuram, em si mesmas, um ataque à liberdade de imprensa? A resposta fria é não. Questionar a precisão de uma notícia, apontar falhas de contexto ou criticar abertamente a linha editorial de um trabalho jornalístico é um direito que assiste a qualquer cidadão ou instituição. A liberdade de imprensa garante o direito fundamental de publicar e escrutinar; não garante imunidade à crítica sobre o que é publicado.

O problema da presidente da Câmara de Coimbra não esteve no seu direito à indignação ou à reposição da verdade. Esteve na forma como escolheu expressar essa indignação. E a forma, em política, é substância.

Quando Ana Abrunhosa declara publicamente que “retira a confiança” a um jornalista, está a usar uma categoria que simplesmente não existe no Estado de Direito. Os jornalistas não trabalham na base da confiança do poder político; trabalham na base do direito à informação e do dever de escrutínio. Um autarca não concede nem retira confiança a quem tem a obrigação profissional de o questionar. Usar esta expressão não é apenas infeliz: revela uma incompreensão da natureza da relação entre quem governa e quem relata.

Mas o verdadeiro erro — o erro que transformou uma reacção intempestiva num caso nacional que uniu sindicatos e oposição — foi a frase a mais. Ao sugerir que o jornalista “devia perder a carteira profissional”, a presidente cruzou uma linha que não devia ter cruzado. Sugerir que o poder político pode ou deve determinar quem exerce a profissão de jornalista não é uma crítica editorial. É uma afirmação incompatível com os princípios que estruturam o exercício livre dessa profissão. É o tipo de frase que não se diz nem no calor do momento, nem sob pressão, nem mesmo quando se tem toda a razão do mundo. Porque no momento exacto em que é dita, a razão perde-se irremediavelmente — e o centro do debate desloca-se.

E é aqui que reside a verdadeira fragilidade política deste episódio. Ana Abrunhosa tinha motivos para estar frustrada. A notícia da Lusa foi publicada sem o contraditório da câmara (embora a agência tenha demonstrado que o pediu insistentemente durante nove dias sem obter resposta). Havia espaço para um desmentido firme, para uma clarificação factual rigorosa, para uma reposição da verdade institucional que protegesse a autarquia. Havia espaço para a política pública.

Em vez disso, a presidente escolheu o confronto pessoal e a hipérbole. E ao fazê-lo, não desencadeou um mecanismo de censura formal, como a oposição agora a acusa com manifesto exagero. O que fez foi politicamente mais oneroso para si própria: emitiu uma mensagem incompatível com os limites institucionais que regulam a relação entre poder e imprensa, e com isso perdeu o controlo do enquadramento do debate.

O contraste não podia ser mais evidente nem mais revelador. Durante a tempestade Kristin, quando as cheias ameaçaram engolir a Baixa de Coimbra, o país viu uma líder capaz de decidir sob enorme pressão, de comunicar com clareza cristalina e de gerir uma crise complexa com eficácia. Mas foi também nesse contexto que se tornou visível, noutro plano, uma dificuldade de calibragem no confronto institucional — no episódio com o ministro da Agricultura. São planos distintos e não comparáveis no seu conteúdo, mas o ponto de contacto existe: a forma.

Agora, o mesmo país vê uma líder a gastar energia, tempo e capital político numa batalha inútil com um mensageiro, por causa de uma frase dita no momento errado e sem contenção adequada.

A liderança não se mede apenas pela forma como se gerem as águas do Mondego quando elas sobem. Mede-se também pela forma como se gere a frustração, a crítica e o escrutínio diário. A coragem de tomar decisões difíceis e estruturais — como a recente e necessária suspensão parcial do PDM — exige a maturidade de aceitar que essas decisões serão questionadas, por vezes de forma injusta, por vezes de forma incompleta.

O que Coimbra precisa de retirar deste episódio não é uma novela sobre censura, porque, em rigor, não houve censura. O que precisa de retirar é uma lição sobre contenção e foco. E essa lição não ocorre num vazio: ocorre no contexto de um percurso público longo, tecnicamente sólido e com provas dadas em momentos de elevada pressão. É precisamente por isso que se espera correcção — não como gesto retórico, mas como ajustamento efectivo de comportamento institucional. Não apenas por uma questão pessoal, mas porque o custo de não o fazer se mede em capital político desperdiçado e em capacidade de execução diminuída para a cidade.

Não houve um ataque à liberdade de imprensa. Houve um erro de forma com implicações institucionais reais. Mas em política, os erros de forma pagam-se ao preço da substância. E esse é um preço que Coimbra, neste momento crucial do seu desenvolvimento, não devia ter de pagar.