A governação e a liderança em saúde foram, durante muito tempo, temas periféricos para os média e para o cidadão comum. Essa distância esbateu-se de forma abrupta com a pandemia de COVID-19. Em poucos meses, conceitos antes restritos à saúde pública passaram a integrar o vocabulário quotidiano. A saúde entrou nas conversas de café e nas reuniões familiares, não apenas na discussão de casos concretos, mas também nas opções de política: usar ou não máscara, como testar, quem vacinar primeiro.
Os mais atentos reconheceram que o pensamento racional, ancorado em evidência científica, fez a diferença. Também a capacidade de organização e de partilha de boas práticas, de forma integrada e multidisciplinar, se revelou decisiva. Em paralelo, movimentos populistas aproveitaram o contexto gerado pelo SARS-CoV-2 para amplificar discursos contra o “sistema”, muitas vezes sustentados por teorias da conspiração disseminadas nas redes sociais. Criticar é fácil; propor soluções exequíveis é exigente; governar e executar com impacto é ainda mais difícil.
Um exemplo particularmente elucidativo desta tensão é o percurso de Robert F. Kennedy Jr. enquanto figura central do movimento Make America Healthy Again (MAHA). Em pouco mais de um ano, a sua atuação ilustra como decisões políticas podem ter efeitos profundos — e potencialmente adversos — na saúde pública. Apesar da rapidez na execução de medidas, o balanço levanta reservas: a retórica crítica em relação às vacinas contribuiu para fragilizar a confiança da população nas recomendações institucionais; os cortes significativos em estruturas científicas e de saúde levaram à perda de capital humano qualificado; e várias decisões pareceram assentar mais em posicionamentos ideológicos do que em evidência consolidada.
Acresce a estas medidas a introdução de uma nova pirâmide alimentar, que rompe com décadas de consenso científico. A representação passou a valorizar de forma acrescida alimentos ricos em proteína animal e gorduras saturadas, como carne vermelha e lacticínios integrais, em detrimento do equilíbrio previamente recomendado. Embora inclua aspetos potencialmente positivos, como a redução de alimentos ultraprocessados, vários especialistas alertam que esta reconfiguração pode contrariar evidência robusta acumulada ao longo de décadas, particularmente no que respeita ao risco cardiovascular. Para além disso, ao influenciar políticas públicas — como programas alimentares institucionais — o impacto destas orientações pode ser significativo à escala populacional.
Simultaneamente, assistiu-se a tentativas de condicionar prioridades científicas com base em pressupostos não sustentados — como a insistência em causas não comprovadas para o espectro do autismo. Este ponto é central: a ciência não pode estar à mercê de convicções ideológicas. Requer liberdade, método e escrutínio rigoroso.
Importa, ainda, distinguir claramente liderança técnica de liderança política. Nem sempre os decisores políticos na área da saúde terão percursos técnicos diferenciados — e isso, por si só, não é problemático. O que se exige é o respeito pelos limites de cada função. Tal como um Ministro das Obras Públicas não define os cálculos estruturais de uma ponte, também um Ministro da Saúde não deve determinar quais os medicamentos eficazes ou quais as hipóteses científicas válidas. Essas decisões pertencem ao domínio técnico e científico.
O que podemos então aprender com o movimento MAHA? Em primeiro lugar, que a confiança pública é um ativo frágil e central em saúde — e que pode ser rapidamente comprometido. Em segundo, que políticas de saúde exigem base científica sólida, transparência e capacidade de comunicação clara. Por fim, que a instrumentalização da saúde para fins ideológicos compromete não apenas resultados imediatos, mas também a eficiência presente e futura dos sistemas de saúde.
A lição é clara: liderar em saúde implica mais do que visibilidade ou discurso — exige responsabilidade, compromisso com o pensamento racional e respeito pela autonomia da ciência.