Caríssimo,
Nunca, como hoje, foi possível aceder, de modo tão imediato, ao conhecimento e à ciência. Porém, curiosamente, nunca, como hoje, se assistiu à proliferação de mitos de toda a espécie e natureza, disseminados com uma rapidez alucinante pelos canais de um mundo global. Este fenómeno comporta, do meu ponto de vista, duas dimensões que, estando interconectadas, poderão ser paradigmáticas de processos perfeitamente autónomos. A primeira dimensão, de raiz antropológica e filosófica, será a procura da Verdade. Vivemos numa época em que impera a especialização. Observa-se que, quer na investigação, quer no ensino, nos assumimos como especialistas de uma qualquer realidade infinitesimal do mundo que nos rodeia, o que atrofia o olhar e a capacidade de questionar profundamente a ciência. A dimensão transcendental do ser humano foi neutralizada pelo ruído de uma civilização pós-cristã, caracterizada pela crise do neoliberalismo, pela difusão do relativismo que questiona os valores que outrora alicerçaram o progresso científico (verdade, racionalidade, objetividade, validade, revisibilidade), pela gradual digitalização da comunicação, tornando-a cada vez mais rápida, mediada pelas mais variadas plataformas. Por sua vez, esta atrofia do olhar poderá levar a uma simplificação e a um enviesamento das questões que formulamos, instituindo, como que, uma preguiça mental e anestesiando a nossa curiosidade natural por conhecer-nos e por querermos conhecer o mundo em profundidade. Chegamos, assim, à segunda dimensão: o espírito crítico. O espírito crítico permite-nos sair de uma lógica de parcialidade, de balcanização do pensamento e de polarização dos saberes, para procurar uma visão mais ampla e mais profunda. Partindo de um pensamento fragmentado, poderemos alcançar um pensamento unificador, holístico, autónomo, capaz de entrar em diálogo com o outro, percorrendo juntos um caminho de busca da verdade.
A proliferação de mitos é um sintoma claro do processo que acabei de mencionar. É muito frequente ter de questionar os meus alunos sobre alguns mitos que se enraizaram no mundo da educação. Questioná-los através de um processo pensado e intencional que visa ativar um olhar pessoal, reflexivo e crítico em relação à sua futura prática docente. Falo, p.e., dos estilos de aprendizagem, um dos neuromitos mais enraizados no mundo da educação, que ainda hoje condiciona o modo como uma grande parte dos docentes pensa a sala de aula, apesar da inexistência de qualquer evidência científica. Kirschener et al. (2025), no livro Instructional Illusions, desconstroem um importante conjunto de mitos que proliferam na comunidade e na prática docente. Distinguir o envolvimento emocional do cognitivo; diferenciar uma sala de aula dinâmica e ativa do progresso real de cada aluno; ou ainda a armadilha da familiaridade com os conceitos versus o desejo de saber mais, de aprofundar as aprendizagens.
Não se tratará de deificar a ciência como entidade supra-humana, asséptica e intocável. A ciência é produzida por homens, como tal, não é neutra. Todos os investigadores transferem de um modo mais ou menos evidente o seu património pessoal para a investigação sob a forma de preocupações, interesses, crenças, entre outros. E, por essa mesma razão, a ciência possui um método e está munida de ferramentas que permitem reduzir ao máximo o viés subjetivo, como a padronização, a replicação e a revisão por pares. Atualmente, assisto a uma desvalorização intencional do conhecimento e da investigação sob a forma de cancelamento de pessoas e projetos, ou através de um fenómeno que se foi entranhando na comunidade científica, i.e., a substituição dos princípios e valores que ancoravam o progresso científico pela elevação da opinião e do posicionamento pessoal, cultural e social de cada indivíduo ao estatuto de verdade com validade científica.
Foi exatamente isto que se passou consigo, Dr. Francisco Goiana da Silva, ao afirmar que a petição “Pelo fim da ideologia de género nas instituições e pela revogação da Lei 15/2024”, cito: “está ferida de erros, falsidades e incorreções científicas”. Porém, antes desta afirmação, clarificou o seu posicionamento epistemológico. Pergunta à jornalista Ana de Freitas se o considera doente e, de seguida, assume a sua homossexualidade. Posto isto, outra coisa não seria de esperar que não a elevação do seu posicionamento pessoal a verdade com validade científica, ignorando, fazendo crer que desconhece, quaisquer estudos científicos que contrariem o seu entendimento. Não vou focar esta análise na cascata de falácias que preencheram este seu tempo de antena. Importa, talvez, integrar este episódio num quadro mais amplo para nos ajudar a alcançar uma compreensão profunda dos tempos em que vivemos. Ora senão vejamos, no passado mês de março, foi revogada a Lei n.º 38/2018, uma das portas que permitiu a entrada, nas escolas e no sistema nacional de saúde, das orientações transnacionais (ONU e OCDE) relativas ao género, à afirmação do género como uma realidade construída socialmente, à substituição do sexo biológico por géneros voláteis num espectro amplo (LGBTQI+) ancorados na autoafirmação, um conjunto de mitos que não encontram qualquer respaldo na investigação. A promulgação deste diploma, em 2018, resultou igualmente num convite à inclusão do transgenderismo na vida dos cidadãos, através de programas escolares, de uma rede de apoio multidisciplinar no Sistema Nacional de Saúde, de programas culturais, artísticos e editoriais, bem como de um apoio inequívoco a associações privadas que se propõem complementar os apoios estatais, acolhendo crianças, adolescentes, jovens, professores, educadores e pais envolvidos neste processo. De 2018 até aos dias de hoje, o Estado português, através de diferentes programas como Portugal 2020 e o POISE, e a União Europeia, através do Fundo Social Europeu – Iniciativa Emprego Jovem, patrocinaram um vasto conjunto de atividades que, aos olhos de uma análise sociológica, apresentam todas as características de um processo de doutrinação. Isto é, grosso modo, um processo de socialização política e de controlo simbólico em que um grupo (instituição, partido político ou qualquer outro agente social) procura inculcar um conjunto de crenças e de lealdades de forma assimétrica, na medida em que a sua capacidade de se mover, influenciar, impor e reformar é claramente superior à do seu público-alvo para contestar. Porquanto, poder-se-ia considerar que atua conscientemente, reduzindo deliberadamente a autonomia crítica dos destinatários. Arrisco-me a afirmar que o Dr. Francisco Gioana da Silva poderá ser uma das vítimas deste processo.
Paralelamente, talvez importe considerar que esta lei foi aprovada em Portugal, num momento em que já se recolhiam, há décadas, evidências científicas sobre os riscos dos programas de transição de género na infância e na adolescência, que, paulatinamente, contrariavam, com dados empíricos robustos, os mitos que se foram inscrevendo nestes programas. O trabalho de Zucker e Bradley (1995) “Gender Identity Disorder and Phsychosexual Problems in Children and Adolescents” poderá ser um ponto de partida para esta breve análise, demonstrando que a população clínica da disforia de género evidenciava um padrão estável em diversos países, sendo composta principalmente por rapazes. Em 2015, apenas 3 anos antes da aprovação da Lei n.º 38/2018, Aitken e al. realizaram uma investigação em duas clínicas especializadas em identidade de género, uma em Toronto, no Canadá, e outra em Amesterdão, na Holanda. Os resultados evidenciaram uma mudança significativa na proporção entre os sexos dos adolescentes encaminhados entre 2006 e 2013, em comparação com períodos anteriores — passando de uma proporção que favorecia os homens biológicos para outra que favorecia as mulheres biológicas. Os autores consideram que as possíveis causas poderão ser de ordem sociológica, eventualmente, de contágio social. Acresce que este fenómeno é observado em diversos países simultaneamente, e.g. Suécia, Finlândia, Canadá, Reino Unido e Holanda (Borges, N., 2025). Pergunto: não seria o bastante para refletir e tentar compreender por que razão estes dados foram silenciados por alguns setores da Academia? Por que razão é que, confrontados com estes dados, os defensores dos programas de transição de género se refugiam numa abordagem epidérmica dos resultados, sustentando que “a maior aceitação social” explicaria este fenómeno? Se estavam tão seguros deste argumento, por que não procuraram investigar e recolher evidências que o robustecessem?
No mesmo ano da aprovação da Lei portuguesa, em 2018, Lisa Littman, cunhou a expressão “rapid-onset gender dysphoria”, reforçando a dimensão de contágio social, uma vez que a disforia de género aparecia na adolescência, contrariando as evidências recolhidas até aqui, de que estes casos surgiam, predominantemente, na infância. No seu estudo “Parent Reports of adolescents and young adults perceived to show signs of a rapid onset of gender dysphoria”(2018), a investigadora descreve este fenómeno, «disforia de género de início rápido», em adolescentes e jovens adultos, que parece surgir de forma repentina, frequentemente no contexto da integração num grupo de pares em que vários amigos passaram a identificar-se como transgéneros. Muitos destes jovens apresentavam perturbações de saúde mental pré-existentes, deficiências do desenvolvimento neurológico, traumas e dificuldades em lidar com emoções intensas, antes do início da disforia de género. A investigadora aponta três motivos que poderão estar na origem deste fenómeno: influências sociais e contágio entre pares, conflito entre pais e filhos e mecanismos de coping (des)adaptativos. Lisa Littman foi perseguida e acusada de estigmatizar a juventude trans.
Entretanto, pergunto-me, será que os políticos, académicos, dirigentes sindicais, professores, médicos e em concreto, o Dr. Francisco Goiana da Silva, antes de tomar posições sobre a revogação de leis que institucionalizam uma ideologia, procuraram saber o que é que a investigação nos tem revelado entre 2018 e 2026?
Se não, repare, estudos mais recentes parecem evidenciar, novamente, uma mudança de padrão. A investigadora Nine Borges apresenta claramente este fenómeno, partindo de um primeiro trabalho de Eric Kauffman (embora apresente fragilidades metodológicas), do estudo de opinião da Foundation for Individual Rights and Expression (2016-2025), realizado em mais de 250 universidades norte-americanas, e da investigação de Jean Twenge. Os dados evidenciam um declínio acentuado na identificação de jovens (de 18 a 22 anos) como trans/não binários entre 2021 e 2024. O gráfico publicado em outubro de 2025 pelo Eric Kaufmann’s Centre for heterodox Social Science, poderá ajudar à compreensão deste novo padrão:

Os dados foram recolhidos em três fontes distintas: Foundation for Individual Rights in Education (FIRE), Andover Philips Academy e Brown Daily Herald (polls de primavera e de outono) Brown University e, como podemos verificar, comportam-se de modo semelhante.
Este comportamento poderá corroborar uma das conclusões do trabalho de Kaufmann, segundo a qual o declínio poderá ser comparável ao observado num processo de desaparecimento de uma moda ou tendência. Pergunto, mais uma vez: Não serão estes dados, no mínimo, inquietantes o suficiente para que questionemos alguns dos mitos propagados nas nossas escolas e no sistema de saúde? Dr. Francisco Goiana da Silva, que fenómenos estarão realmente na origem deste decréscimo? Considera que poderemos refugiar-nos no argumento fácil e epidérmico, sem sustentação científica, da maior aceitação social, proclamado para justificar o primeiro swift no padrão da disforia de género? Estaremos, portanto, agora, a viver tempos de perseguição e de condenação dos jovens trans/não-binários por parte de pares e adultos de referência, apesar de todos os esforços e investimentos em programas tendentes à naturalização da disforia de género e de programas de transição entre adolescentes e jovens? Se sim, em que se consubstancia esta perseguição? Quem são os seus autores morais? Que tipo de programas e ações desenvolvem? Que organizações patrocinam as suas ações e programas? Por fim, verificando-se esta nova tendência de declínio de identificação como trans/não binário nos próximos anos, não será imperativo investigar as causas de natureza varia que poderão justificar este fenómeno?
Para terminar esta análise será interessante mobilizar o estudo finlandês “Psychiatric Morbidity Among Adolescents and Young Adults Who Contacted Specialised Gender Identity Servicesin Finland in 1996–2019: A Register Study”, publicado a 24 de março de 2026, de natureza longitudinal, que conclui que as intervenções médicas chamadas de “afirmação de género” não melhoram a saúde mental, pelo contrário, pioram.
Em suma, existem evidências robustas de que poderemos estar perante um fenómeno de doutrinação da infância e adolescência, que fragiliza o seu desenvolvimento físico, psicológico, emocional e social, que converteu mais de duas gerações em cobaias da maior experiência laboratorial com seres humanos à escala global de que há notícia.
Estou convicta de que, se nada fizermos, não teremos respostas para as mais de duas gerações de crianças, adolescentes e jovens que sofreram na pele os efeitos desses programas e que, eventualmente, se possam sentir defraudados, mutilados, doentes em consequência desta ação de doutrinação. Ainda que o futuro se afigure diferente, nunca poderemos deixar para trás aqueles que foram vítimas de políticas e programas com os quais grande parte de nós conviveu amena e acriticamente.
Em suma, caro Dr. Francisco Goiana da Silva, este debate não tem a ver com a orientação sexual de crianças, adolescentes e jovens, e muito menos com a sua. Compreenderá agora que a petição que desqualificou, juntamente com os seus cerca de 17.000 signatários, não tem por objeto as práticas de conversão sexual. Estou segura de que também já não afirma, com a mesma veemência, que a dita petição “está ferida de erros, falsidades e incorreções científicas”.
Com elevada estima e consideração,
Isabel Faria Alexandre