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Quando o poder não sabe pedir desculpa: o caso Cristina Ferreira

Não é tanto o erro que está em causa, mas a forma como se lida com ele. A questão não é o cancelamento, mas o saber pedir perdão.

P.e João Miguel da Silva Soares
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Há momentos em que o problema deixa de ser a polémica e passa a ser aquilo que ela revela. O episódio recente envolvendo Cristina Ferreira não é apenas mais uma tempestade mediática: é um retrato nítido de um vício contemporâneo — o de quem, estando em posição de poder, desaprende a pedir desculpa, mesmo quando o assunto é grave.

E aqui convém não suavizar: estamos a falar de declarações em torno de um tema profundamente sério, como a violação. Não é matéria de conversa ligeira, nem de comentários infelizes que se resolvem com um encolher de ombros. Quando se entra neste território, a responsabilidade é outra. O peso das palavras é outro. E o erro, quando acontece, exige uma resposta à altura.

Mas o que se vê, demasiadas vezes, é o contrário. Não se trata de defender o linchamento público, nem de alimentar a lógica do cancelamento. Essa deriva é tão perigosa quanto injusta. Uma pessoa não pode ser reduzida a uma frase mal dita. Mas também não se pode cair no extremo oposto: o da desresponsabilização total, como se o estatuto protegesse do dever de reconhecer o erro. E é precisamente aqui que o caso se torna exemplar.

O problema não é apenas o que foi dito — sendo já, por si, suficientemente delicado. O problema é o que vem depois. A dificuldade em assumir, de forma clara e limpa, que se falhou. Em vez disso, surgem os comunicados, as explicações, as intenções que “não foram percebidas”, os contextos que “não foram considerados”. E, no meio disto tudo, a palavra que destrói qualquer tentativa de reconciliação: “mas”.

“Peço desculpa, mas…” E a partir daqui já não há pedido de desculpa. Há defesa. Há uma diferença essencial entre explicar e justificar. Explicar pode ajudar a compreender; justificar serve, quase sempre, para fugir à responsabilidade. E quando se fala de temas sensíveis, como a violência sexual, essa fuga torna-se ainda mais evidente — e mais grave. Porque há um princípio básico que parece ter sido esquecido: não basta a intenção, conta o impacto.

Pode não ter havido vontade de ferir, pode não ter havido consciência do alcance das palavras, mas se o efeito foi esse — se houve dor, indignação, incompreensão — então há um dever mínimo de reconhecimento. E esse reconhecimento não se faz com textos longos nem com notas explicativas. Faz-se com uma frase simples, direta, sem adornos: “Peço desculpa. Não estive bem.” Tudo o resto é ruído.

O que este episódio expõe, no fundo, é um “síndrome” mais vasto — não exclusivo de figuras mediáticas, mas particularmente visível nelas: a ideia de que o poder dispensa a humildade. De que quem fala para muitos já não precisa de se corrigir perante ninguém. De que admitir o erro é perder autoridade. É um equívoco.

Na verdade, é exatamente o contrário. A autoridade reforça-se quando há capacidade de reconhecer falhas. E fragiliza-se quando se insiste em manter uma posição que já não se sustenta.

Há ainda uma outra confusão que importa desmontar: a de que este tipo de crítica é um ataque à liberdade de expressão. Não é. A liberdade de expressão não está em causa quando se pede responsabilidade. Ninguém está impedido de falar; o que se exige é que se saiba o que dizer — e, sobretudo, como reparar quando se diz mal.

Porque há coisas que podemos pensar e não devemos dizer. E isto não é censura, é civilização.

Talvez o mais desconcertante de tudo isto seja a simplicidade da solução. Num tempo de discursos elaborados e estratégias de comunicação afinadas ao milímetro, aquilo que resolveria a situação continua a ser o mais básico dos gestos humanos. Um gesto que não precisa de assessores nem de notas de imprensa. Um gesto que exige apenas consciência e humildade. Mas talvez seja precisamente isso que o poder mais facilmente perde: a memória de que não está acima de ninguém.

E é por isso que, nestes momentos, mais do que discutir o caso concreto, vale a pena reter a lição geral: quando o poder não sabe pedir desculpa, deixa de ser autoridade — passa a ser apenas ruído com microfone. E isso, ao contrário de uma frase infeliz, não se resolve com facilidade.