Há leis que se avaliam pela finalidade. E há leis que se julgam pelo que provocam. A Lei da Separação do Estado das Igrejas, aprovadas em 1911, pertence claramente à segunda categoria. À distância de 115 anos, já não há desculpas históricas, paixões exacerbadas ou mitos republicanos que nos impeçam de realizar uma avaliação séria e frontal: a separação era claramente correta, mas o que se seguiu foi um erro político muito grave e até diria que foi antinacional.
Separar a Igreja do Estado é um princípio legítimo e fundacional de qualquer Estado moderno. Nenhuma democracia madura pode confundir poder político com autoridade religiosa. Até aqui, creio não haver grandes polémicas. O problema tem início no momento em que a separação deixa de ser nas instituições e passa a ser na civilização, quando a neutralidade do Estado se transforma em pura hostilidade, e quando a laicidade degenera para uma índole intolerante e agressiva.
Foi exatamente isso que aconteceu na Primeira República, sob a liderança de Afonso Costa. A sua política não se limitou a regular a relação entre o Estado português e a Igreja: procurou humilhar, enfraquecer e erradicar a influência social do catolicismo. O anticlericalismo não foi um efeito colateral, foi um objeto de arremesso político.
A perseguição aos clérigos, a expulsão de ordens religiosas, o encerramento de conventos, o confisco de bens e o ataque simbólico à Igreja Católica revelam uma visão jacobina, revolucionária e profundamente autoritária. Afonso Costa não governou contra uma instituição poderosa; governou contra a identidade histórica do país. E isso é sempre um erro fatal.
Convém lembrar um dado elementar que o radicalismo republicano ignorou deliberadamente: Portugal, em 1910, era um país rural, agrícola, conservador e comunitário. As aldeias, as freguesias, as redes de entreajuda e a moral coletiva organizavam-se em torno da Igreja. O pároco não era um conspirador político; era uma referência social, um mediador de conflitos, um pilar da comunidade. Atacá-lo foi atacar o quotidiano das populações.
A República acreditou que podia substituir séculos de tradição, fé e coesão social por decretos e comissões administrativas. Foi uma ilusão típica das ideologias revolucionárias: a crença de que o Estado pode moldar a cultura por imposição. O resultado foi previsível — afastamento popular, hostilidade social e uma rutura profunda entre o regime e o país real.
Não, a Igreja Católica não era um obstáculo estrutural ao progresso nacional. Com todos os seus erros — que existem e devem ser reconhecidos — foi uma das colunas da construção histórica portuguesa: na fundação da nacionalidade, na organização social, na educação informal, na assistência aos mais frágeis e na preservação da identidade coletiva. Atacá-la em nome do progresso foi, na verdade, um ato de arrogância ideológica.
A famosa afirmação de que o catolicismo desapareceria em duas gerações não revela visão política, mas desprezo pela realidade social. Nenhum regime sobrevive quando declara guerra à fé, à tradição e à memória do seu próprio povo. A República não caiu por causa da separação Igreja–Estado; caiu porque confundiu laicidade com perseguição.
Hoje, Portugal é — e bem — um Estado verdadeiramente laico. Mas é também um país de matriz cristã profunda, visível na sua história, na sua cultura, nas suas comunidades e em fenómenos religiosos que marcaram o século XX e continuam a mobilizar multidões. Negar isso não é neutralidade; é cegueira ideológica.
Assinalar os 115 anos da Lei da Separação não deve ser um exercício comemorativo vazio. Deve ser um momento de verdade histórica: reconhecer que a separação foi necessária, mas condenar sem reservas o radicalismo que perseguiu clérigos, atacou comunidades e tentou amputar a identidade nacional por via administrativa.
A lição permanece atual e incómoda: o Estado pode ser laico; a sociedade não é um laboratório ideológico. Quando o poder político se julga no direito de reeducar culturalmente o povo, perde legitimidade — e acaba sempre derrotado pela História.
Concorde-se ou não, uma coisa é certa: este debate continua por fazer. E talvez seja exatamente por isso que ainda incomoda tanto.