No dia em que José Luís Carneiro arrancou com o partido à sua imagem — com os órgãos de direção já escolhidos por si e não herdados da direção anterior —, teve logo a oficialização de um opositor interno. À hora a que o líder socialista falava à Comissão Nacional que elegeu em Congresso, Duarte Cordeiro fazia declarações ao Observador a explicar por que motivo não queria estar em nenhum órgão de direção de Carneiro. E avançou duas razões: não gostou de ver Carneiro fazer disso uma prova de unidade e quer ficar livre para “discordar”.
No final da reunião, quando foi confrontado com o posicionamento crítico de Cordeiro, Carlos César fez uma leitura benévola da posição do antigo ministro e atirou: “A única coisa a temer no PS são as votações a 100%.” Uma tentativa de normalizar a existência, no partido, de “pessoas que ainda não se associam por completo à forma de estar e de ser” da atual liderança. Mas a opção política de Cordeiro de ficar de fora e “livre para discordar” é um claro aviso a médio prazo a Carneiro — e até surge quando o líder socialista aparece com sondagens favoráveis.
https://observador.pt/2026/04/19/duarte-cordeiro-quer-ficar-menos-comprometido-com-lider-do-ps-e-ter-mais-liberdade-para-discordar/
Depois do Congresso, o líder teve finalmente os órgãos de direção (a comissão política e o secretariado) eleitos, com cerca de 90% dos votos, na votação que decorreu nas primeiras horas do encontro, por via eletrónica. E teve também a certeza de que conta com a presença de uma voz de peso, que não quis estar em nenhum dos órgãos para não ser tomada como a voz de Carneiro — quando era essa a vontade de Carneiro e também a ideia inicial de Duarte Cordeiro.
Ainda que Cordeiro tenha preferido ficar de fora da Comissão Política (o órgão intermédio de direção política), outros socialistas também tidos como menos alinhados com Carneiro acabaram por integrá-la, caso de Fernando Medina, Ana Catarina Mendes, Mariana Vieira da Silva ou Alexandra Leitão. Mas até aqui houve um passo atrás no comprometimento com a liderança. Por exemplo, Ana Catarina Mendes estava no secretariado de Carneiro e agora preferiu sair. Medina e Vieira da Silva sempre preferiram ficar fora da direção — já tinha sido assim em junho passado. E outros socialistas relevantes, como Francisco Assis ou Sérgio Sousa Pinto, também saíram da direção, preferindo ficar também na Comissão Política Nacional.
A tentativa inicial (depois de eleito pela primeira vez como líder do PS) de dar um sinal de unidade, integrando no seu núcleo-dirigente nomes de outras eras, começa a perder fòlego. Há um grupo como nomes influentes no partido que começa a preferir manter algum distanciamento em relação à atual liderança — o máximo que quiseram foi ficar na Comissão Política, que é o órgão que define a estratégia política do partido a cada momento, mas por deliberação — o que permite que eventuais discordâncias sejam assinaladas.
De acordo com fonte oficial do PS, Carneiro “pretende fazer deste órgão o principal espaço de discussão política do partido, com reuniões de carácter mensal, reforçando o seu papel estratégico na definição de orientações e debate interno.” Há 37 novos socialistas na Comissão Política, com uma taxa de renovação de 57%, de acordo com os números do partido.
https://observador.pt/especiais/carneiro-reorganiza-ps-a-sua-medida-no-congresso-de-viseu-e-integra-vozes-criticas-na-comissao-politica/
Quanto ao Secretariado, Carneiro viu-se forçado a ir buscar outros nomes, para tentar construir o mesmo efeito de unidade, mas o órgão restrito de direção ficou quase reduzido a socialistas que o apoiaram (à exceção de João Torres, que veio do pedronunismo e que se mantém). Aos ex-ministros de Costa ainda conseguiu ir pescar Ana Mendes Godinho, mas as novas entradas já não permitem proclamar a unidade entre as várias fases do PS.
Carneiro fez uma renovação de cerca de 30% dos dirigentes na direção. Entraram Ana Mendes Godinho, Moz Caldas, Luís Soares (que já era seu chefe de gabinete), Luísa Salgueiro, Sérgio Ávila, Fátima Fonseca, Luís Testa e José Manuel Ribeiro e saíram, além dos já citados, Luís Parreirão (que vai coordenar o gabinete de estudos), Ricardo Costa e Pedro Costa (que apresentou uma polémica moção setorial ao congresso).
Está, como disse Carlos César à saída da reunião, feita “a reinstalação de todos os órgãos do partido, na decorrência do último Congresso Nacional”. O relógio de Carneiro começa agora a contar, sabendo que tem dentro do partido quem queira que acerte o passo com um ritmo mais afirmativo na oposição — precisamente entre o tal grupo que opta pelo distanciamento.
Mas a linha de diálogo construtivo continua a ser a que o PS seguirá e isso mesmo foi reafirmado por César quando disse que o partido tem “de prosseguir com coragem aquilo que tem procurado manifestar junto dos portugueses: que é possível fazer oposição sem dizer sempre não e sem recorrer à gritaria“. “É possível ser uma boa oposição e ser reconhecido pelos portugueses como um partido capaz de fazer propostas, capaz de dizer como não deve ser feito, mas também como deve ser feito, um partido capaz de colocar em primeiro lugar aquilo que no seu entendimento é o melhor para o país e mais beneficia os portugueses.”
A voz pode estar a engrossar quanto à reforma laboral — a que Carneiro chama agora “contra reforma laboral”, avisando que a AD não conta com o PS se tudo se mantiver como está —, mas no geral o PS não parece interessado em começar a cavalgar números favoráveis das sondagens.
Os dirigentes consideram que ainda é cedo para acreditar que a viragem está aí. E, na reunião, o próprio José Luís Carneiro avisou que não se “pode viver na inquietação das sondagens”. “São indicadores”, notou, para logo a seguir também acrescentar que “elas dizem que os portugueses não confiam no Governo e que Luís Montenegro está errado quando diz que o país está melhor”. Mas mais do que isto, por agora, não.
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