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A Armamentização da Informação 

A fabricação da realidade e a armamentização da informação perseguem o objetivo de desencadear uma reação emocional, instalar a dúvida, condicionar a consciência e a decisão.

Fernando Gomes de Amorim
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Vivemos hoje na vertigem do confronto com um ambiente incerto, turbulento, imprevisível, inconsistente, dinâmico, complexo, contraditório, não linear, divergente, pleno em paradoxos e polaridades. As sociedades, os sistemas sociais, e as organizações são crescente e intrinsecamente complexas demonstrando uma capacidade única de se adaptar e de manter dinâmicas imprevisíveis na sua relação com o ambiente. Sofrem o polimorfismo dos efeitos que advêm dos desenvolvimentos geopolíticos, tecnológicos, económicos, legais, ambientais e sociais, potenciando correlações e interseções que despertam nefastas realidades. Neste contexto, a ascensão acelerada da informação encerra um poder que, de forma dissimulada, confirma a proposição de Max Weber, conferindo-lhe a capacidade de obrigar, impor a vontade de alguém a outrem, ou de modificar o seu comportamento. A influência incontornável da informação no mundo moderno e a sua conexão com todas as estruturas da sociedade confere-lhe a possibilidade de ser usada como munição e a mente como campo de batalha.

Neste “teatro de operações”, todas as facetas da complexa e idiossincrática natureza humana são mensuráveis e alvejáveis. Porquanto, no dealbar de artefactos cognitivos e tecnológicos como a Inteligência Artificial, assiste-se à exploração dos preconceitos e erros cognitivos, à manipulação das perceções, à indução de tensões cognitivas e à prossecução do domínio ou direção da atenção.  Procura-se afetar a acuidade mental, as relações sociais, as motivações. Difunde-se o antagonismo, a confrontação das vontades, acicata-se o dilema do inimigo – a irreconciliável relação entre o Eu e o Outro.

A intenção de influenciar e produzir um efeito sem o exercício aparente da força atende à imperfeição, à vulnerabilidade e fragilidade humana, cerceando assim a liberdade cognitiva. Não é de estranhar, portanto, que o conceito de verdade esteja a ser diluído ao ponto de a falta desta, ser um elemento integrado na realidade social e, inexplicavelmente, encontrar sem repúdio, resignado acolhimento. O Mito da Caverna, alegoria de Platão, alude de forma sublime à importância da mensagem em contexto, cerceada pelo jogo de sombras, diluída da realidade em que, desprovidos de sentido crítico, de conhecimento, da razão, os indivíduos acorrentam-se a uma induzida e resignada perceção da realidade.

A fabricação da realidade e a armamentização da informação perseguem o objetivo de desencadear uma reação emocional, instalar a dúvida, condicionar a consciência e a decisão. As emoções integram este exercício de persuasão e manipulação pois afiguram-se essenciais na formação de laços sociais, na tomada de decisões e na senda pelo poder. São instrumentalizadas porque violam o livre arbítrio e desafiam a lógica, como acontece nas sociedades polarizadas em que a verdade está nos olhos de quem a vê. Ou, como referiu Aristóteles, “as emoções são todos aqueles sentimentos que mudam os homens de tal forma que afetam os seus julgamentos”. Sabendo que a racionalidade humana está intrinsecamente ligada às emoções, o instilar do medo, enquanto vincada emoção humana, é amplamente explorado. A sua manifestação inibe, desperta a incerteza e a aversão ao risco. Sobre este – o famigerado medo -, constrói-se a ameaça consumando-se no sequestro da reflexão, no controlo da autonomia. O pensamento e a comunicação que marcam a pulsão humana têm como objetivo a filiação, a afirmação e não a procura da verdade e, como bem referiu John Kennedy, demasiadas vezes desfrutamos o conforto da opinião sem o desconforto do pensamento.

O medo social generalizado, assim produzido, gerido e explorado por via de influências difusas e narrativas fabricadas, alimenta uma sensação permanente de insegurança. Define-se pela sua abstração, imprevisibilidade e ubiquidade, em que, ontologicamente, passa a ser vivido como estado permanente e difuso. Uma condição de vida moldada pela incerteza, pela precariedade das relações sociais e pela constante ameaça (real ou imaginada). Pois é no âmbito do significado que a capacidade de influência, munida de novos conhecimentos, se desenvolve sobre as vulnerabilidades humanas, utilizando a parafernália tecnológica para direcionar a atenção e induzir a dúvida, com controlo persuasivo probabilístico, capaz de toldar o raciocínio e moldar a preceito a opinião. A disputa narrativa é acompanhada pela propaganda computacional, potenciada pela Inteligência Artificial, empregando a persuasão e a captura da atenção, ofuscando a compreensão.

As campanhas de desinformação não são “novidades” absolutas, são tão antigas quanto a guerra e a política. Adotam a arquitetura tecnológica global, interdependente e interoperável, projetando uma capacidade ímpar na prossecução de objetivos antigos. São ameaças reais e não apenas discursivas cujos objetivos são destruir ou corroer a noção de verdade, de confiança nas instituições democráticas, e usar a sobrecarga informativa para propagar o nevoeiro informacional, perturbando escolhas humanas concretas, enviesando-as de modo a obstruir a reflexão ou a decisão.

Estas ações propagandistas, não são campanhas transparentes e óbvias. Revestem-se de um ruído de fundo quase impercetível que molda o que pensamos sem que percebamos que estamos a ser moldados. Foucault vê o controlo moderno como internalizado e difuso, invisível, contínuo e incorporado nos hábitos e discursos do quotidiano, pois a persuasão está presente em todas as circunstâncias da peregrinação humana. Varia em complexidade, pode ser aparente ou dissimulada, e é concebida para uso imediato ou, pacientemente, para o longo prazo, qual ameaça avançada persistente. Ondas sobrepostas de influência ocorrem em todas as escalas temporais, desde o momentâneo ao duradouro, e podem estar envoltas em pacotes díspares – verdade, engano, perfídia, ou serendipidade com eficaz discernimento da oportunidade.

A dúvida, embora condição desconfortável, deve prevalecer tratando a certeza, esta certeza, como absurda. A contramedida à narrativa do medo, capaz de mitigar os efeitos desta ameaça global – a influência pela desinformação -, é a segurança que, desde sempre, constituiu uma necessidade básica do indivíduo e dos grupos humanos, com vista à sua própria sobrevivência material e cultural, referindo-se às condições sociais e aos mecanismos institucionais que permitem aos indivíduos e grupos viverem livres do medo, da privação e da violência.  Em todas as circunstâncias, uma responsabilidade natural e inalienável do Estado que este assume pela adoção de medidas adequadas a assegurar essa garantia, em sintonia com a vontade coletiva dos cidadãos no sentido de prover o bem-estar, a justiça social, a coesão e a prosperidade. Contudo, na diegese do ambiente informacional, a dimensão da segurança assume um papel dual – herói e vilão -, consoante o taticismo e o efeito desejado da operação de influência que busca em cada atenção uma desatenção. O “presentismo” securitário é, também ele, tentativamente catalisador de um medo coletivo capaz de arregimentar e prostrar uma sociedade que, na ausência de um pensamento esclarecido, se verga e sucumbe. A segurança passa a ser a justificativa determinante no papel de um Estado que, num artificio de sobrevivência, impõe a ordem social alicerçando-a no temor e na obediência.

Em momentos de crise, é tentadora a aproximação ao modelo hobbesiano em que o medo é utilizado para suspender direitos em nome da segurança. A desumanização do Outro é uma forma de proteger o Eu coletivo (a nação, a identidade, a cultura dominante), servindo como um ritual simbólico de reforço de uma identidade coletiva que resulta de uma lógica simplificadora que recusa a complexidade humana. Esta inculcação social e ideológica permite definir fronteiras identitárias claras, entrincheirar o “nós” contra “eles” e promover um estado de exceção em que se legitima a normalização de medidas extraordinárias.

Não é desconhecido que o advento de um paradigma securitário descontrolado, assente em premissas seminais inexatas, faz erodir direitos fundamentais sob o pretexto do perigo, da emergência ou de um inflamado sentido de urgência. Alicerça-se num modelo que vinca e afirma a segurança como valor maior, alinhando a atuação do Estado e a regulação da vida dos cidadãos por intermédio de mecanismos técnicos em que impera a racionalidade e a previsibilidade na deteção e neutralização de ameaças. Encerra externalidades, nomeadamente a temporalidade da segurança pois, o presente que justifica a ação preemptiva e antecipada, é constantemente governado por futuros hipotéticos. Paradoxalmente, o próprio esforço constante por segurança leva à produção contínua de insegurança, pois novas ameaças são constantemente identificadas, muitas vezes criadas ou exageradas para justificar medidas de controlo e exceção. A instrumentalização de narrativas falsas ou distorcidas serve como mecanismo para ampliar a espiral de desconfiança e justificar medidas autoritárias sob a égide do dilema de segurança. Ao moldar perceções públicas a desinformação desestabiliza o debate racional, potencia a centralização do poder em aparatos de segurança e abre espaço ao autoritarismo encoberto, singelamente dissimulado sobre o apanágio da ordem e da proteção.

Aqui chegados, parece determinante edificar uma capacidade coletiva, intergeracional que promova e defenda o pensamento crítico embebido no ensino, na cultura, nos costumes, no ideário, no comportamento, no sistema de significado que molda a forma como as pessoas se expressam, compreendem e interpretam o mundo à sua volta. Sobretudo, porque o pensamento crítico é autodirigido, autodisciplinado, autocontrolado, autocorretivo e resulta de uma disposição intelectual que implica rigor, curiosidade epistemológica, abertura ao diálogo e resistência à aceitação acrítica de opiniões, dogmas ou preconceitos. No combate à desinformação, é a operação defensiva mais capaz de fortificar a soberania intelectual e a autonomia de decisão face à complexidade, ambiguidade e volumetria das ameaças. Centrada no empenhamento e capacitação humana, enquanto vetor crítico na provisão de segurança individual e coletiva, pode adicionar uma camada de segurança à modelação de uma defesa em profundidade, cujo estado final desejado deve almejar a resiliência cognitiva, atenta a complexidade e a vulnerabilidade da cognição humana em ambientes de elevada densidade informacional.

Cabe-nos, ao pensar criticamente, garantir que a premissa de Orwell que concebe a fórmula de que “o poder consiste em despedaçar as mentes humanas e voltar a juntá-las em novas formas à nossa escolha”, não se materializa. A partir da frente, devemos estimular e defender a existência de uma vontade consciente, diretora e coordenadora de esforços, que inquiete e proteste, que conteste e combata, que não se conforme silente na ausência de verdade garantindo que resiste ao tempo o que é verdadeiro. Sobretudo, que não descansemos nas palavras!