(c) 2023 am|dev

(A) :: Sexualidade e violência

Sexualidade e violência

Justificar a violência na sexualidade ou “normalizá-la” transforma a discussão num modo de nos conspurcarmos uns aos outros. E isso é perverso! Porque intoxica a sexualidade de malevolência e despudor

Eduardo Sá
text

A sexualidade não é nem uma necessidade básica nem é tão natural como a sede. A forma como se fala dela — por vezes, na escola — parece torná-la numa espécie de cio sem hora marcada. E, de equívoco em equívoco, cria-se uma onda de mal-entendidos que enviesa, prejudica e maltrata.

A sexualidade não é um débito conjugal como, dantes, se falava quando era vista como uma obrigação do casamento. É, antes, um crédito que se subscreve e aprofunda entre duas pessoas que se confiam uma à outra.

A sexualidade é corpo, cérebro e relação. Daí que seja tão difícil que dois mundos diferentes um do outro se toquem da superfície da pele  ao fundo da alma e os dois se alinhem e aprofundem num só voar.

A sexualidade não é um impulso. Mas o desejo é uma escolha! Que não é estranha à admiração, à beleza e à forma como duas pessoas têm a coragem e a humildade de se despirem por dentro uma para a outra.

Não há sexualidade sem compromisso. Porque todas as relações implicam lealdade, autonomia, transparência e liberdade. E verdade! Seja qual for o formato de compromisso que duas pessoas entendam assumir uma com a outra.

Ninguém nasce competente para a sexualidade. Nem a puberdade nem a adolescência capacitam para aquilo que só se aprende quando se vive. A sexualidade precisa de tempo e ganha se for protegida de experiências que a conspurquem de dor, de fealdade ou de violência.

Não é verdade que, na sexualidade, haja experiências descartáveis e experiências importantes. Todas elas, quando se juntam e dialogam entre si, criam as condições para sermos ou felizes ou para se tecerem, silenciosamente, os argumentos com que a sexualidade decepciona, agride ou mortifica.

É por tudo isto que vários acontecimentos recentes acerca de abusos sexuais sobre mulheres não são sexualidade. São violência e são maldade! Que não só abalroam a vida de cada uma delas como comprometem a forma como virão a viver no futuro a confiança, o amor e a sexualidade. Poque criam cicatrizes para sempre!

Justificar a violência na sexualidade ou “normalizá-la” transforma essa discussão numa forma de nos conspurcarmos uns aos outros. E isso é perverso! Porque intoxica a sexualidade de malevolência e despudor.