Um jogo, dois cenários em equação, o dérbi que mais do que nunca podia pender para um lado ou para outro pelo contexto em que estava inserido – e com o FC Porto a seguir tudo à distância de forma atenta, tão atenta como o Sporting e o Benfica seguiram a recente deslocação dos dragões ao Estoril. A cinco jornadas do final, a margem de erro era nula na luta pelo título ou na corrida ao segundo lugar com consequente apuramento para as eliminatórias da Liga dos Campeões (a não ser que o Aston Villa ajude e qualifique de forma direta mais uma equipa nacional para a Liga milionária), com os encarnados ainda mais pressionados em caso de insucesso contra uns leões presos entre a esperança efémera de revalidarem o campeonato e a inevitabilidade de tentarem defender a entrada na Champions. No entanto, era era sobretudo o dérbi para “ajustar contas”. Ajustar contas com o que tem sido a carreira na presente temporada, ajustar contas com o que tem sido o passado recente, ajustar contas depois do que foi acontecendo ao longo das últimas semanas.
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Do lado do Sporting, com menos tempo de descanso depois de uma inglória eliminação da melhor presença de sempre na Liga dos Campeões com um nulo em Londres frente ao Arsenal, o encontro diante do Benfica surgia na semana mais complicada da época (segue-se a deslocação ao Dragão para defrontar o FC Porto nas meias da Taça de Portugal) mas com o propósito de quebrar duas “regras” que poucos ou nenhumas exceções têm encontrado: por um lado, a falta de vitórias em dérbis e clássicos para o Campeonato, que vinha ainda de 2024 quando Rui Borges bateu os encarnados na estreia no comando do conjunto verde e branco; por outro, aquilo que tem sido o calcanhar de Aquiles no presente Campeonato, com os 13 pontos perdidos na competição a surgirem todos nos encontros contra as cinco equipas que estão no top 5 da classificação.
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“Não faço comparações com o meu primeiro jogo, são momentos diferentes. É o mesmo adversário mas não faço comparação nesse sentido. Acredito que seja um Benfica forte. Precisa de ganhar, seja por que objetivo for. Tem feito um bom Campeonato, é uma equipa intensa, a que recupera mais bolas em zonas altas, o que define a capacidade de ganhar duelos. Tem muitas dinâmicas em termos de corredores, muitos golos de cabeça. Temos de ser frios e perceber de que forma empatámos alguns jogos. Com o Sp. Braga sofremos dois golos de penálti nos descontos. Estamos a fazer um grande Campeonato mas quem está em primeiro está a fazer melhor. Aquilo que fizemos na Liga dos Campeões tem de servir como motivação para estarmos neste nível, se conseguimos na Europa temos de conseguir no Campeonato. Na reta final tudo pesa mas faz parte. Desde que a energia esteja lá, está tudo certo”, apontara Rui Borges na antecâmara do dérbi.
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Da parte do Benfica, um sem número de diferenças. Quando em Alvalade a renovação de Rui Borges é quase um não assunto, na Luz o cenário não é bem assim – apesar da vontade manifestada por José Mourinho para ficar nos encarnados. Depois, as flutuações nos resultados e nas exibições que retiram muito daquilo que é a “previsibilidade” de um jogo – a parte da competitividade está sempre lá, o caminho para chegar ao triunfo tem momentos de “apagão”, como se viu com o Casa Pia. No final, sobrava uma distinção: apesar de não ter perdido ainda qualquer encontro no Campeonato diante do top 4, com empates frente a FC Porto, Sporting e Sp. Braga, o “não perder” não era suficiente no atual momento da temporada – era necessário ganhar.
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“Já disse que há empates que não fazem do Benfica maior do que é, há empates que pelo contrário foram sentidos como derrotas, aqueles em que desperdiçámos as vitórias nos últimos minutos, aqueles em que não fizemos um bom jogo. Depois, temos outros empates em que nos sentimos prejudicados. Há muita maneira de olhar. Uma equipa que não está nem nunca esteve à frente do Campeonato precisa de ser resiliente, séria, honesta, respeitadora dos valores do clube, dos adeptos. Esta equipa lutou sempre. As classificações dizem muito sobre o teu mérito e demérito, mas dizem muito do mérito e demérito dos adversários. Somos uma equipa super difícil, por isso é que não temos derrotas. Quero acreditar neste comportamento. Temos de ser pragmáticos, coerentes, humildes no sentido de reconhecer que vamos ter um jogo difícil. O Benfica há muito tempo não ganha o dérbi de Alvalade, mas vamos lá para ganhar”, frisara José Mourinho.
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Não foi isso que se viu em todos os momentos, foi isso que acabou por acontecer. Após Trubin defender o penálti de Luis Suárez e Schjelderup não ter falhado o castigo máximo, o Benfica entrou naquela que era a zona de conforto tático e de momentos de jogo que Mourinho mais podia desejar. Até determinado ponto, foi isso que imperou. Depois, quando os encarnados esqueceram a baliza, sofreram muitas vezes sem haver essa necessidade, arriscaram “oferecer” não só o empate mas algo mais a um Sporting que podia ter ficado apenas encostado às cordas e chegaram apenas ao triunfo nos descontos depois de um golo anulado a Rafael Nel na jogada anterior. No final, Mourinho apontou para a camisola, colocou o dedo na zona da cabeça como que a explicar que é preciso cabeça para ser melhor e colocou-se como uma espécie de herói do triunfo mas aquilo que se viu foi outra realidade entre o mérito de quem saiu do banco a 13 minutos do fim.
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Já o Sporting pode e deve refletir sobre aquilo que se passou durante 90 minutos e ao longo da época para perceber o porquê de não chegar ao tricampeonato. E não é preciso muito, até se torna simples: o mercado de verão ficou curto, o mercado de inverno foi quase inexistente. Com uma equipa sem jogos constantes com a maior intensidade como os recentes duelos com o Arsenal, com outro leque de opções no banco que desse a Rui Borges a possibilidade de fazer outra gestão e não ter de esgotar até à última gota sobretudo o capitão Hjulmand e os quatro jogadores da frente, tudo poderia ser diferente sobretudo nestes encontros com as equipas do top 5. A segunda derrota do Campeonato, de novo em Alvalade, hipotecou de vez o título mas não foi por aí que o insucesso começou e a falta de alternativas válidas a sair do banco foi gritante.
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Ficha de jogo
Sporting-Benfica, 1-2
30.ª jornada da Primeira Liga
Estádio José Alvalade, em Lisboa
Árbitro: João Pinheiro (AF Braga)
Sporting: Rui Silva; Eduardo Quaresma (Vagiannidis, 60′), Diomande (Debast, 60′), Gonçalo Inácio, Maxi Araújo; Hjulmand, Morita (Daniel Bragança, 88′); Geny Catamo (Rafael Nel, 88′), Francisco Trincão, Pedro Gonçalves (Geovany Quenda, 68′) e Luis Suárez
Suplentes não utilizados: João Virgínia, Kochorashvili, Salvador Blopa e Ricardo Mangas
Treinador: Rui Borges
Benfica: Trubin; Dedic, Tomás Araújo (António Silva, 77′), Otamendi, Samuel Dahl; Aursnes, Richard Ríos, Leandro Barreiro (Enzo Barrenechea, 90+4′); Prestianni (Lukebakio, 77′), Schjelderup (Rafa Silva, 77′) e Ivanovic (Pavlidis, 77′)
Suplentes não utilizados: Samu Soares, Bah, Sudakov e Sidny Lopes Cabral
Treinador: José Mourinho
Golos: Schjelderup (27′), Morita (72′) e Rafa (90+3′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Hjulmand (36′), Rui Silva (53′) e Trubin (75′)
Antes do início da história, já havia dérbi. Sem que se percebesse ao certo o que se passou, Hjulmand, capitão do Sporting, não ficou propriamente satisfeito na escolha de campo com Otamendi, capitão do Benfica, e fez ver isso mesmo a João Pinheiro. O árbitro sorriu, todos se cumprimentaram, haveria mesmo uma inversão na habitual orientação da primeira parte nos encontros em Alvalade, com os leões a atacarem para a baliza do topo sul de início. Não foi por isso que houve menos qualidade, longe disso. E bastaram dez minutos para se ver as oportunidades e os remates que os mais céticos não esperavam ver sequer até ao intervalo: Geny Catamo teve uma tentativa rasteira que sofreu ainda um desvio e levou Trubin a uma defesa pouco ortodoxa para a trave (5′), o mesmo Geny obrigou o ucraniano a nova defesa complicada antes da recarga de Pedro Gonçalves ao lado (6′), Richard Ríos teve uma meia distância com perigo que deu canto por sofrer ainda um desvio (8′), Rui Silva teve uma grande intervenção a um desvio de Otamendi depois do canto (9′).
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O início prometia, o que se seguiu não ficou atrás. Quando o Sporting conseguia fazer ligação entre setores e colocava no último terço para a criatividade de Francisco Trincão e Geny Catamo aparecer, os leões estavam por cima e conseguiam aproximações com perigo. Questão? Na maioria das ocasiões, esse cenário não estava a passar da teoria, com as zonas de pressão alta bem identificadas pelo Benfica a condicionarem a primeira fase de construção dos bicampeões, sendo que até a forma como os encarnados assumiam que não saíam a partir de trás com bola quando a pressão do adversário era mais alta não impedia a boa circulação até ao último terço com muita mobilidade à mistura na frente e os três elementos do meio-campo a ficarem mais vezes melhor na fotografia do que os dois médios leoninos. Depois, imperou a eficácia a partir da marca de grande penalidade: Luis Suárez, melhor marcador do Campeonato, permitiu a defesa a Trubin após uma falta de Aursnes sobre Trincão (19′), Schjelderup não perdoou depois de uma mão de Morita na área (27′).
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Só a partir daí o jogo acalmou, com o Benfica a entrar uma zona de conforto tático que foi estabelecendo a maior diferença em relação ao Sporting: espaços entre linhas reduzidos ou nulos, grande disponibilidade no aspeto físico de Prestianni e Schjelderup para fecharem nas alas muito perto dos laterais, blocos mais baixos para retirar capacidade de movimentos por dentro dos leões. Schjelderup ainda teve um cruzamento que foi desviado por Diomande de forma inadvertida para as mãos de Rui Silva, Trincão arriscou uma meia distância que saiu ao lado após escorregar no pé de apoio antes da tentativa mas o 1-0 não mais voltaria a mexer até ao intervalo, com a posse de bola do Sporting a crescer a olhos vistos mas sem que isso representasse uma maior projeção ofensiva em termos de oportunidades. Ainda houve outras tentativas de variação, com Diomande e Inácio a arriscarem passes na profundidade e Maxi Araújo a ter outra margem para subir pela esquerda com Pedro Gonçalves por dentro, mas os encarnados iam conseguindo controlar todas as investidas.
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A segunda parte recomeçou sem alterações, com um Benfica na mesma matriz com que acabara a primeira metade e com um Sporting em busca de movimentos que pudessem surpreender a organização defensiva dos encarnados. Apesar dessas tentativas, as oportunidades chegaram cedo mas em transições pouco habituais nos dois lados: Francisco Trincão fez bem a diagonal da direita para o meio antes de assistir Pedro Gonçalves para o remate rasteiro que bateu no poste (50′), Ivanovic teve um passe involuntário numa receção de bola deficiente que isolou Schjelderup para um remate forte desviado por Rui Silva para canto (52′), Hjulmand conseguiu uma boa recuperação para uma saída rápida que, após dois cruzamentos, acabou com uma meia distância de Geny Catamo ao lado (54′). Ainda houve mais tentativas por parte dos leões, de Hjulmand de muito longe e ao lado, e de Pedro Gonçalves, fraco e à figura de Trubin, mas aquilo que mais se notava era a falta de disponibilidade física para estancar transições, o que permitiu outra chance a Schjelderup (59′).
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Rui Borges, tantas vezes conservador nas substituições pelas características dos jogadores e pelo momento de mudar, foi o primeiro a mexer, percebendo cedo que em termos físicos havia quebras. Vagiannidis e Debast foram os primeiros a ser lançados, Quenda rendeu pouco depois Pedro Gonçalves e o jogo prosseguia com o Benfica a jogar no erro do adversário e o Sporting a tentar de todas as formas, como aconteceu num remate em arco de Morita de fora da área que saiu muito perto do poste (64′). Houve uma que funcionou: em mais uma tentativa conseguida de atrair de um lado para jogar depois no outro, Debast cruzou ao segundo poste e Morita desviou de cabeça para o 1-1 (72′). O dérbi voltava a mudar por completo de figurino, com Geny ainda a tentar aproveitar a explosão em Alvalade para arriscar a reviravolta num remate travado por Trubin (74′) antes de Mourinho lançar Lukebakio, Rafa Silva e Pavlidis em busca da vitória em Alvalade (77′).
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Esse sangue novo mexeu com o jogo e voltou a colocar o Benfica com um foco na baliza que já tinha perdido há algum tempo. As ações individuais de Lukebakio foram conseguindo causar o pânico nos leões, Leandro Barreiro teve uma chance flagrante na pequena área após cruzamento do belga que saiu por cima (84′), todas as segundas bolas iam parar de forma inevitável aos pés dos jogadores encarnados e o cansaço de elementos como Hjulmand, Trincão, Geny Catamo ou Luis Suárez era demasiado notório – sendo que, coincidência ou não, Daniel Bragança entrou e teve logo dois minutos depois um remate rasteiro que passou muito perto do poste da baliza de Trubin (90′) antes de um lance em que Rafael Nel ainda marcou depois de uma assistência de Trincão mas o golo foi anulado por fora de jogo (90+1′). O golpe de teatro estava por chegar, com o jogo ofensivo do Benfica a entrar finalmente por dentro antes da desmarcação de Rafa na área para fazer o 2-1 final (90+3′), apesar de outra tentativa de Trincão num remate em arco que rasou o poste (90+6′).
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