Era a conjugação mais improvável de ser feita. Por um lado, e depois do brilharete da época anterior num estilo completamente diferente ao kick and rush de Sean Dyche, Vincent Kompany nunca conseguiu juntar o bom futebol aos resultados, voltando a apanhar o elevador da descida com o Burnley. Por outro, e depois de todo o sucesso interno com Julian Nagelsmann na sequência do título europeu com Hansi Flick, o Bayern terminou a temporada sem um único título, algo a que ninguém no clube e na Alemanha estava “habituado”. No entanto, e na hora de substituir Thomas Tuchel, foi mesmo o nome do belga que ganhou a todos os outros entre alegados convites recusados de Xabi Alonso, Oliver Glasner ou de novo Julian Nagelsmann. Mais: os bávaros pagaram mais de dez milhões de euros por um técnico que acabara de ser despromovido.
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As críticas foram mais do que muitas. Desvario, loucura ou projeto falhado antes de começar eram ideias que iam circulando enquanto Kompany começava a trabalhar no primeiro de três anos de contrato (mais uma das críticas). Afinal, valeu a pena. E não só o Bayern recuperou a hegemonia interna como volta a desafiar todos os principais clubes da Europa em busca de uma Liga dos Campeões que no verão de 2024 era improvável.
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Há vários fatores que “ajudam” nisso. Os bávaros têm de longe o melhor plantel da Alemanha, continuam em busca dos melhores jovens talentos (Lennart Karl, Maycon Cardozo ou o médio português David Daiber são os melhores exemplos na atual temporada) e conseguiram finalmente reorientar o foco do individual em prol do coletivo. Para isso, Kompany foi um fator determinante. Se em campo tem muito daquilo que aprendeu com Pep Guardiola durante anos no Manchester City, numa forma de jogar que privilegia a posse dando mais largura ainda ao jogo na tentativa de “asfixiar” os adversários, fora dele tem-se mostrado o tipo de líder que o plantel dos germânicos necessitava: “liberal”, próxima do grupo, dando máxima liberdade com a máxima responsabilidade. Sempre a respeitar aquilo que é a vontade dos jogadores, como se viu no último mercado em que Mathys Tel e Kingsley Coman pediram para sair e Luis Díaz chegou depois do Liverpool.
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O técnico que no verão de 2024 era descrito pela imprensa inglesa como alguém inexperiente, teimoso e com táticas ingénuas (ou demasiado românticas) tornou-se numa espécie de treinador da moda, que não abdica do seu fato de treino e do seu chapéu no banco a orientar a equipa com melhor média de golos nas principais ligas, num total de 3,43 por jogo contabilizando os encontros de todas as competições da época.
Flho de pai congolês radicado na Bélgica e de mãe belga, Vincent Kompany sempre teve na política uma das paixões paralelas ao futebol. As influências, essas, vinham de vários lados: do pai, Pierre, que em 2018 se tornou o primeiro presidente de Câmara negro no país em Ganshoren; da mãe, Jocelyne, que descrevia como alguém “socialista, quase comunista”; do próprio, que teve problemas quando era mais novo pelas revoltas contra Mobutu Sese Seko. Nascido na periferia de Bruxelas, tinha tudo para se desviar pelos piores caminhos, chegou a ser expulso de uma escola por faltar muito (também por influência das chamadas às seleções jovens belgas), foi afastado da equipa pelos “choques” com o técnico e teve aos 20 um ano de pesadelo, quando a mãe e a irmã foram submetidas a tratamentos contra o cancro – e a mãe não resistiu, sendo que entretanto os pais já se tinham separado e Vincent foi obrigado a deixar a casa onde vivia.
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Seria nesse ano que chegaria a primeira proposta aceite para jogar fora de portas, neste caso pelos alemães do Hamburgo, depois de abordagens que começaram ainda em 2003, neste caso de Alex Ferguson que via no central um nome a médio/longo prazo para o Manchester United (algo que só não avançou porque a mãe do jogador quis que terminasse os estudos). Dois anos depois, aquele que ficaria como segundo clube de uma vida surgiu, com mais de uma década ao serviço do Manchester City no arranque da atual era de vitórias até sair em 2019 para última temporada pelo Anderlecht, onde começaria a carreira de treinador. Após ter sido bicampeão belga, o central conquistou quatro Campeonatos, duas Taças de Inglaterra, quatro Taça das Liga e duas Supertaças pelos citizens, em muitas delas já como capitão de uma equipa que começava a ser uma constelação de estrelas – algo que lhe valeria depois uma estátua à porta do Etihad Stadium.
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Em paralelo com uma vida dedicada ao futebol, Kompany teve sempre grande interesse na política e chegou mesmo a concluir um MBA na Manchester Business School em 2018, na antecâmara de deixar o City, ao mesmo tempo que foi alargando o número de línguas que falava. No entanto, nem tudo correu sempre da melhor forma ao agora treinador fora dos relvados, com o negócio de dois sports bars, o Good Kompany, a durar pouco mais de um ano em Bruxelas e em Antuérpia porque, apesar das receitas interessantes que eram faturadas, não cobriam as despesas. “Lição 1 nos negócios: os investimentos são sempre um risco. Às vezes tu ganhas, às vezes tu perdes”, contou na altura. Daí para cá, a vida ficou somente no futebol e nos estudos.
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É uma opção mais “segura”, é uma opção certa. Depois de conquistar a Bundesliga de 2024/25 com 13 pontos de avanço sobre o antigo campeão Bayer Leverkusen do técnico espanhol Xabi Alonso, naquele que foi também o primeiro troféu da carreira do “amaldiçoado” Harry Kane, o Bayern conquistou a Supertaça no início da temporada, está nas meias-finais da Liga dos Campeões (onde irá defrontar o PSG) e vai também jogar as meias da Taça da Alemanha, neste caso com o Bayer Leverkusen. Em relação ao Campeonato, mais um passeio para o segundo título consecutivo: se a derrota do B. Dortmund com o Hoffenheim tinha deixado os bávaros como campeões “virtuais” pela diferença entre os golos marcados e sofridos, a receção na Allianz Arena ao Estugarda carimbou de vez a festa, com o 25.º triunfo em 30 jogos (e apenas uma derrota).
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Com oito alterações na equipa inicial face ao conjunto que iniciou a partida com o Real, o que promoveu as apostas em nomes como Jonas Urbig, Kim Min-jae, Hiroki Ito, Alphonso Davies, Goretkza, Musiala, Raphael Guerreiro e Nicolas Jackson, até foi o Estugarda a inaugurar o marcador por Chris Führich (21′) mas acabou por ser um mero despertar do “rolo compressor” dos bávaros, que chegaram ao intervalo já com a vantagem de 3-1 com golos de Guerreiro, internacional português que vai sair da Baviera no final da temporada (31′), Jackson (33′) e Davies (37′). A reviravolta estava feita em meros sete minutos, a chegada da armada mais pesada também não iria demorar a chegar, com Olise e Harry Kane a irem a jogo e com o inglês a fazer o 4-1 (52′). Chema Andrés, com um golo já a dois minutos do final, ainda reduziu a desvantagem para 4-2.