(c) 2023 am|dev

(A) :: Portugal e a "periferia"

Portugal e a "periferia"

Qualquer pessoa percebe que a posição geográfica do país é, ao contrário do que se proclama, privilegiadíssima. Se estamos atrasados, não é por sermos "periféricos"

Miguel Morgado
text

Não houve lugar-comum mais resistente na academia portuguesa, e na política que a papagueava, do que dizer-se que o atraso económico português se devia à posição geográfica “periférica” do País. Livros, artigos, discursos recapitulavam incessantemente a mesma ladainha, combinando a resignação com confiança de quem tinha resolvido um mistério que a todos interessava. Não havia luminária que não desse um ar da sua graça com o enunciado de uma tese tão sofisticada, que reunia a alta esfera da meditação geopolítica com o conhecimento respeitável dos circuitos económicos.

A tese nunca teve pés nem cabeça. Se o atraso económico português era medido em relação à Europa Ocidental, talvez se pudesse dizer que a Inglaterra, a pátria consensual da “Revolução Industrial”, era também “periférica”. Ou que a posição “periférica” de Portugal tinha sido indispensável para o seu fugaz domínio sobre os restantes países europeus no século XVI. Ou que países como a Nova Zelândia ou Taiwan a partir dos anos 70 pudessem com mais propriedade reivindicar o estatuto de “periféricos” sem que isso os tivesse “atrasado” economicamente.

O facto é que hoje a situação geopolítica e geoeconómica permite a qualquer inteligência mediana confirmar aquilo que toda a gente com responsabilidades no passado teria obrigação de reconhecer: que a situação geográfica do País é, pelo contrário, privilegiadíssima. Situado numa das margens do oceano Atlântico, no ponto mais próximo de grandes centros de prosperidade na costa oriental dos EUA, bastou a Portugal começar a anunciar o óbvio para colher instantaneamente os benefícios económicos dessa posição. Aliás, as poucas notícias positivas que o País recebeu nos últimos 20 anos em matéria de mudanças estruturais da sua economia e das suas possibilidades de desenvolvimento vieram directa ou indirectamente da exploração da sua situação geográfica. E esse privilégio geográfico refina-se com o passar dos anos e das crises geopolíticas que vão sobrecarregando a Europa – e aos poucos se vai criando um lugar-comum em directa contradição com o seu antecessor, espoliado da cátedra onde se sentou durante tantas décadas.

Este é apenas um exemplo entre vários de como a evolução política e a sorte económica do País tantas vezes andou ao sabor de lugares-comuns patrocinados e perpetuados por vezes com razões ideológicas, por outras por pura preguiça e inércia intelectual. Num caso ou noutro atestaram a rigidez do espaço de discussão e de debate em Portugal, do consolo que muitos encontraram em fatalidades inamovíveis para explicar o fracasso de opções e de instituições da sua autoria ou da dificuldade em diagnosticarmos a tempo e horas as transformações que ocorrem na nossa própria sociedade. A julgar pelo que tem acontecido nestes últimos 20 anos, em que o País oficial da academia, da política e dos media parece sempre chegar atrasado às mudanças que ocorreram, dir-se-ia que continuaremos a desperdiçar o que temos e a somar dificuldades às que já temos.