Fui fazer as contas: desde que começou a escrever no Observador, em 13 de Junho de 2018, João Pedro Marques (JPM) já escreveu 160 crónicas neste jornal. À excepção de duas ou três (uma sobre Israel, outra sobre a F-1), todas elas são dedicadas à escravatura, ao colonialismo ou ao wokismo. Escrevendo há oito anos, todas as semanas, sobre o mesmo tema, é natural que de vez em quando tenha falta de assunto. E, quando não tem assunto, JPM inventa-o.
Esta semana fui eu o contemplado, em jeito de repto duelístico, com um “Desafio a António Araújo”.
O pretexto foi o obituário que escrevi no Público sobre Boubacar Ould Messaoud (1945-2026), filho de escravos e o principal rosto na luta contra escravatura na Mauritânia contemporânea.
O meu texto começa por assinalar a “singular coincidência” (sic) da morte de Boubacar ter ocorrido pouco antes de a ONU ter aprovado, por proposta do Gana, uma resolução que definiu o tráfico transatlântico de escravos o “crime mais grave contra a humanidade.”
Depois, mais adiante, afirmei que o Governo português se abstivera na votação da ONU, em linha com os restantes países europeus (incluindo a Hungria de Orbán, note-se), e que isso suscitou críticas quer no sentido de que deveríamos ter votado a favor (João Moreira da Silva) quer no sentido de que deveríamos ter votado contra (João Pedro Marques). Mais disse que os “extremos tocaram-se e convergiram numa mesma conclusão: abstenção é que não.” Caso João Pedro Marques não tenha percebido, eu explico-lhe: ao falar de “extremos”, não o estava a alinhar em qualquer quadrante ideológico, apenas a afirmar que, entre a posição intermédia da abstenção, a que ele chama “nim”, JPM se colocou num dos pólos da questão. Só isso, nada mais.
Logo a seguir, lamentei que a morte de Boubacar Ould Messaoud tenha passado despercebida à imprensa nacional, o que não deveria ter acontecido, pois, repito, Boubacar, fundador da SOS Esclavages, foi um corajoso combatente contra a escravatura na Mauritânia dos nossos dias, fazendo-o “em confronto aberto com os clérigos e as autoridades muçulmanas do país, que insistiam em encontrar nos textos legais islâmicos justificações para a escravatura dos mauritanos de pele mais escura.”
Dias depois de ter publicado esse texto, enviei uma SMS ao meu amigo Miguel Morgado, dizendo-lhe que fora inspirado por um texto seu, saído aqui no Observador. Nessa troca de mensagens – e o Miguel poderá confirmá-lo –, escrevi-lhe: “então um país que pratica escravatura hoje vai receber compensações por escravatura com 500 anos??? Está tudo maluco???”
Tenho dito, aliás, a pessoas amigas de vários quadrantes que acho obsceno que países que praticam a escravatura na actualidade recebam indemnizações pelas escravaturas do passado e que, a haver quaisquer indemnizações, elas sempre deverão ser condicionadas à erradicação das práticas esclavagistas nos respectivos territórios. Quanto a mim, enquanto não acabarem com a escravatura nos seus países, a Mauritânia e outros jamais deverão receber um cêntimo que seja de qualquer “reparação.”
De resto, ao ter escolhido, como personalidade do meu obituário, um combatente da escravatura dos nossos dias, e ao fazer a ligação à votação da ONU, penso ter sido claro na minha intenção. Talvez isso tenha sido demasiado subtil para o espírito de JPM, o que já não é problema meu, mas dele.
No texto do Público, fiz, aliás, questão de dizer, e cito, “à excepção do Afeganistão, que não esteve presente, os dez países mais esclavagistas do mundo, da Coreia do Norte à Arábia Saudita, passando pela Rússia ou pela Turquia, assinaram todos a recente resolução da ONU, o que demonstra bem a hipocrisia abjecta que grassa nos areópagos internacionais.”
E, mais adiante, escrevi que a mãe de Boubacar “era escrava na casa de uma família rica Haratin, ou seja, da mesma etnia que a sua, a prova provada de que a escravatura é uma realidade bem mais complexa do que muitos crêem ou pretendem fazer crer”.
JPM, pelos vistos, não leu nada disto – ou, se leu, não compreendeu. É pena que não tenha citado nenhum daqueles trechos, preferindo afirmar, num deplorável e abusivo juízo de intenções, que “parece (!) que tímida e subterraneamente” eu concordo com a posição abstencionista do Governo. Parece?!!! Daí parte para o insulto escusado e gratuito, escrevendo que “o articulista auto-atribuiu-se um lugar de moderação, razoabilidade, talvez, até, de serena superioridade analítica e política, e ficou como se fosse uma espécie de supremo árbitro ou de enigmático Salomão, a viajar no meio da estrada, sem pender para qualquer dos lados nem nos explicar a sua avaliação das coisas, o que é uma grande pena”.
Em lugar nenhum do meu texto – nenhum! – afirmo se concordo ou deixo de concordar com a posição do Governo. Onde me limitei a descrever factos, JPM descobre intenções, ainda que do reino do difuso (“parece que…”) e ademais expressas “tímida” e “subterraneamente.” Se isto é o rigor de um historiador, estamos mesmo conversados.
A dado passo do seu texto, JPM agradece-me por ser seu leitor. Já eu não posso dizer o mesmo. JPM, pelo que depreendo, ignora todo o meu percurso, como ignora as posições públicas que assumi contra a cultura do cancelamento (num texto do DN, sobre Gauguin) ou, em tese, contra a ideia de reparações históricas (no programa “É ou não é?”, da RTP, em 2/3/2021, com Francisco Bethencourt, Mamadou Ba e Helena Matos, como esta poderá confirmar e que está disponível aqui). Recordo, também, que, em 2014, na apresentação, na Feira do Livro de Lisboa, de um livro sobre o Pde. António Vieira e a escravatura, coordenado por José Eduardo Franco e Pedro Calafate, eu e a Helena Matos fomos pública e violentamente atacados por um professor da FCSH presente na assistência, somente por louvarmos a obra de Vieira contra os que queriam derrubar a sua estátua no Largo Trindade Coelho – a Helena poderá confirmá-lo. Num livro sobre Marcello Caetano, saído em 2024, escrevi também, e de forma veemente, contra a proposta de João Moreira da Silva para acabar com a sala-museu daquele professor na Faculdade de Direito. Mais ainda: num livro que acabei de publicar com o fotógrafo Duarte Belo, tive ensejo de escrever: “(…) devemos ao mar, e ao que nele fizemos, muita abertura ao mundo, e os motivos maiores do orgulho pátrio. Pretendem agora que tal orgulho ceda lugar ao opróbrio e que o mar se converta hoje em causa de culpa e vergonha. Mudar de sentimentos colectivos de forma tão radical e abrupta no espaço de uma geração ou duas, não parece prudente, nem sensato” (cf. Portugal Refractário. Um país entre o imobilismo e a mudança, 2026, p. 17). E, já que JPM anda tão obcecado com a cultura “woke”, vendo “wokes” em cada esquina ou debaixo da cama, informo-o que, ainda recentemente, convidei Patrícia Fernandes, sua colega no Observador, a escrever um ensaio sobre “wokismo” – como a Patrícia, de resto, o poderá esclarecer.
É pena, é deveras pena, que, mesmo nos assuntos da sua especialidade, aqueles sobre os quais escreve monocordicamente todas as semanas no Observador, JPM se mostre tão desinformado, para não dizer tão ignorante.
Quanto ao bem ou mal fundado da posição do Governo português na ONU, é matéria sobre a qual não me pronunciei nem me pronuncio. Porquê? Por uma simples razão, que talvez JPM não perceba, porque não cultiva: não estudei o assunto a fundo e, como tal, prefiro seguir a prudente máxima de Wittgenstein segundo a qual “sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar.”
Por isso, se JPM está tão indignado com a falta de explicações do nosso Governo, que escreva ou fale para as Necessidades, não venha embicar comigo, um pobre de Cristo que jamais se pronunciou sobre o assunto.
Ainda assim, esclareço-o que, a uma primeira vista, me parece compreensível, dadas a nossa pertença à UE e as nossas relações com os Estados lusófonos, que Portugal não tenha querido surgir isolado de todos os países europeus, colocando-se, na votação da ONU, a par dos três que votaram contra: os EUA de Trump, Israel de Netanyahu e a Argentina de Javier Milei. Seria sensato, de um ponto de vista diplomático e de defesa dos nossos interesses, que Portugal, com o passado que possui e as relações que tem ou quer manter com o Brasil e África, aparecer como o único país da Europa a votar contra a resolução da ONU?
Considero também que é totalmente abusivo que JPM infira, noutro dos seus saltos epistemológicos no escuro, que a abstenção europeia tem como “único propósito (…) ir preparando os espíritos de governantes, governados e legisladores para o futuro pagamento de reparações.” O que o autoriza a dizer isso? Em que factos concretos se baseia para tão grave acusação? Em palpites de café e achismos, em intuições ou em deduções de um Sherlock Holmes de opereta, impróprias de um historiador?
Por fim, mas não por último, se JPM entende que a abstenção é sempre um conveniente “nim”, umas meias-tintas salomónicas e oportunistas, que dirá dos muitos portugueses que, nas últimas presidenciais, se abstiveram de votar António José Seguro ou André Ventura? Pergunto-lhe, pois: votou no chegano Ventura, votou no socialista Seguro ou… absteve-se? Esperemos que não se refugie no secretismo do sufrágio, uma vez que, numa crónica recente, não teve problemas em revelar que votou na AD.
Na sua sanha ou cruzada anti-wokista, JPM assemelha-se à célebre personagem da literatura que corria atrás de moinhos de vento, o Cavaleiro da Triste Figura. Foi triste a figura que fez, de facto, ao eleger-me como alvo do seu desastrado texto. Concedo-lhe que o não tenha feito por má-fé. Restam, pois, as hipóteses de ignorância pura e dura, confrangedora limitação intelectual ou completa cegueira persecutória (a qual, pelo que vejo, incide agora e morde em pessoas que, em certos casos, têm posições próximas das suas…). Numa palavra, lamentável.