Ponto prévio: não ia escrever sobre nada disto (sim, ainda há muito para revelar sobre as sevícias e os assassinatos acontecidos entre 74 e 75) mas quando comecei a ler as reivindicações feitas pelas “mais de cem personalidades” que em carta aberta “repudiam palavras de Cristina Ferreira” achei (mais uma vez) que o passado pode esperar porque o presente coloca questões mais urgentes (provavelmente a opção é errada mas escrever sobre um assunto a pensar noutro é coisa que não costuma acabar bem).
Voltemos então às “mais de cem personalidades” que repudiam palavras de Cristina Ferreira e às outras muitas personalidades e instituições como a Ordem dos Psicólogos e a PSP que também sentem necessidade de criticar as palavras de Cristina Ferreira. De tanto ler “as palavras de Cristina Ferreira” acabei convicta que Cristina Ferreira tinha formulado uma opinião ou feito um comentário desculpabilizador dos agressores. Ora não é isso que se vê ou ouve: ia o programa já com duas horas e 18 minutos quando Cristina Ferreira faz uma pergunta à psicóloga que está em estúdio: “Tem-se hoje em dia noção dos riscos, Inês? Tanto da parte de quem combina um encontro com quatro… Porque nós temos de falar disto. Mesmo que ela tenha dito para parar. Quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve — claro que tem de ouvir — mas alguém entende aquele não quero mais?”
Repito é uma pergunta. Não se pode perguntar se a idade dos agressores é um factor a ter em conta? Se o facto de se tratar de uma violação em grupo influencia ou não o desfecho dos acontecimentos? Se existe ou não a noção do risco por parte de quem combina um encontro com estas características?… Parece-me que estas e outras perguntas podem e devem ser feitas e não é por serem feitas que se estão a desculpabilizar os agressores ou a desvalorizar o sofrimento da vítima.
Pode gostar-se ou não do tom, do estilo dos apresentadores, no caso Cristina Ferreira e Cláudio Ramos, podemos até especular que eles têm esta ou aquela opinião, mas as perguntas têm sentido. Aliás todas as perguntas têm sentido desde que os interrogados possam dizer que aquilo que lhes estão a perguntar não faz sentido algum, não tem fundamento ou é um disparate.
Mas esta indignação com o que é perguntado vai muito além do caso Cristina Ferreira. Não duvido que esta percepção das perguntas como algo que é em si mesmo um desrespeito, nos levará rapidamente a alargar às perguntas o padrão de auto-censura que já vigora nas respostas sobre os assuntos a que as “personalidades” estão atentas e que tanto pode ser uma violação grupal como as alterações climáticas. Depois de anos a vermos como pessoas inteligentes e informadas se foram auto-censurando na hora de responder para não se tornarem no alvo deste tipo de sinalização, eis que agora são as perguntas que estão sob observação. Curiosamente neste caso a indignação vem não da pessoa a quem se pergunta e que por vezes vêem as perguntas que lhes são feitas como uma agressão (Sócrates praticou e pratica esses exercício à exaustão) mas sim dum grupo de pessoas, as tais personalidades que na dita carta-aberta não se limitam a criticar Cristina Ferreira. Eles reivindicam. O quê? O poder de controlar: “A carta inclui uma série de reivindicações, nomeadamente que estes programas “se façam acompanhar por contactos de associações especializadas em violência sexual”; que a linguagem seja adequada, “sublinhando a violência e combatendo eufemismos como ‘sexo sem consentimento'”; que os profissionais devidamente qualificados e especialistas sejam ouvidos no espaço mediático, “evitando lugares-comuns, generalidades e incorreções potencialmente danosas”… O que realmente irrita as personalidades é não serem elas, as personalidades, a dizer o que se deve perguntar, como se deve perguntar, que palavras se devem usar e, claro infâmia suprema, não serem elas a responder. As personalidades querem ter uma palavra a dizer sobre o que se diz mas sobretudo sobre quem diz e como diz. Hoje sobre violações. Amanhã sobre o que calhar.
Por tudo isto acho urgente defender o direito a fazer perguntas estúpidas. Não me interessa se Cristina Ferreira fez uma pergunta estúpida (por acaso, até acho que não era) mas tenho a certeza que defender o direito a fazer perguntas estúpidas é a melhor garantia que temos de que continuaremos a ter o direito a fazer perguntas. Inteligentes, incluídas.