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(A) :: Holidays on ICE

Holidays on ICE

De tanta exposição ao grotesco da “actualidade” e ao grotesco comentário da “actualidade”, algumas cabeças cedem e desatam a produzir abundantes delírios acerca da América.

Alberto Gonçalves
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O voo entre Munique e São Francisco aterrou ao fim da tarde. Mal parou na pista, o avião quase vazio foi invadido por polícias com uniformes que não reconheci. Um deles gritava, a exigir exibição dos passaportes. Mostrei o meu, que um polícia com sobretudo de cabedal me arrancou das mãos e lançou ao chão. Sempre debaixo de gritos, todos os passageiros viram-se forçados a sair em fila, primeiro através da manga, depois para a enorme sala da alfândega, escura e decorada com um retrato do presidente de dimensões desproporcionadas. Aqui, o pandemónio redobrou: mais gente, mais polícias, mais gritos. Reparei numa mulher com cerca de 30 anos que, agarrada a um carrinho de bebé, soluçava e, sem se dirigir a ninguém em especial, perguntava em castelhano pelo filho. A seguir reparei na alcatifa, feia e imunda, e nas embalagens de “snacks” e roupas pisadas que parcialmente a cobriam. Uma voz distribuída pela péssima instalação sonora dava instruções: “É rigorosamente proibido o uso de telemóveis”; “Não falem excepto quando exigido”; “A desobediência às indicações das autoridades será punida adequadamente”; “Deus abençoe a América”. A iluminação da sala oscilava e ameaçava falhar. A fila de passageiros do meu voo juntou-se a uma fila maior, da qual algumas pessoas eram retiradas de modo aparentemente aleatório. Enquanto aguardava o escrutínio de rotina e remoía o arrependimento pela viagem, ouvi o meu nome mal pronunciado. Num instante, dei por mim a ser igualmente extraído do contingente geral e conduzido por dois guardas para uma sala diferente, pequena e fulminada por luz branca. Mandaram-me sentar numa de quatro cadeiras. Sentei-me na que tinha o estofo menos degradado. Esperei. Esperei, sem documentos, telefone ou bagagem, hora e meia, que ocupei a contar as linhas nas calças de bombazina: 184. Por fim, um sujeito vestido à civil entrou na salinha com os meus pertences e apontou-me uma porta no lado oposto àquele em que entrei. Disse, sem cordialidade ou fúria, duas palavras: “Por ali.” Acatei as ordens e as setas numa série de corredores desertos até alcançar o exterior do aeroporto. Anoitecera e havia indigentes em redor de uma fogueira improvisada. Não havia táxis e a aplicação da Uber não funcionava. Um homem, um negro alto, nu fora as sandálias e um anel no pénis, passou a uns metros de mim com os olhos fixos em coisa nenhuma. Outro homem, em que tropecei, jazia no asfalto a gemer. Pediu-me água. Eu não tinha água. Nem água nem razão para estar ali, à nora na solidão de um lugar devastado a que em tempos chamaram América.

Despachado o intróito, é o momento de esclarecer que apenas um facto desta narrativa é verdadeiro: o homem despido, que não vi no aeroporto, mas no bairro Castro, aliás propenso a excentricidades assim. De resto, a viagem à Califórnia correu muito bem, obrigado. As formalidades de entrada nos EUA são agora resolvidas em cinco minutos. Fazia sol. O Yosemite estava no sítio. As estradas, infelizmente mais pontuadas com filiais da Starbucks do que com cafés decrépitos, idem. Os motores V8 e os preços das refeições ostentam sem modéstia a pujança económica local, apesar do fisco estadual. As cidades pequenas, como Sonora e Mariposa, continuam humanas e afáveis. As californianas continuam bonitas. A “arquitectura” recente continua medonha. As livrarias de Haight-Ashbury continuam esquerdistas e radicais e, se devidamente esmiuçadas, interessantes. Os imigrantes que trabalham continuam a trabalhar. Em San Luis Obispo os bares abriram de madrugada para milhares de universitários e penduras celebrarem com álcool e chapéus Stetson uma festa de temática “western”. As sandes de lagosta, embora razoáveis, não concorrem com as do Maine. Se não ligarmos as televisões dos hotéis e motéis, imprudência que jamais cometi na vida, e não consultarmos as “redes sociais”, imprudência que nunca cometo em férias, a política não é assunto. Nos cafés tradicionais falaram-me de literatura; nos bares, dos lagos do Nordeste. Em doze dias, a solitária referência a Donald Trump foram os bonés MAGA vendidos às claras numa loja de Venice Beach. A propósito, Venice está calma de manhã e uma doçura ao serão. Mesmo em São Francisco, antro maior de democratas, passeia-se à meia-noite com um à-vontade inexistente nas minhas visitas anteriores. A América existe, e dentro do possível resiste, à revelia das notícias.

E no entanto há quem tenha da América a visão apocalíptica que inventei dois parágrafos acima, uma espécie de distopia situada entre a Coreia do Norte e o romance “The Road”, do Cormac McCarthy. Quando me perguntam onde vou ou informo onde fui, dois terços das reacções consistem em variações da frase “América? Ai, que horror!”, a preceder as perguntas: “E não tens medo?”, “E deixam-te entrar?”, “E o ICE não te persegue?” Não brinco. Os meus interlocutores também não: de tanta exposição ao grotesco da “actualidade” e ao grotesco comentário da “actualidade”, algumas cabeças cedem e desatam a produzir abundantes delírios acerca da América – do que receiam para a América ou, na maioria dos casos, delírios do que desejam para a América. Delírios, porém. A América ainda não é nada do que eles receiam ou desejam. E eu, que só receio iludir-me, desejo que não venha a ser.