Atualmente, em Portugal, o gasóleo está não só mais caro do que a gasolina, como apresenta uma diferença de preço histórica. Em 2022, durante a crise energética ditada pela invasão russa da Ucrânia, também se verificou o mesmo, mas o máximo da diferença foi de 12 cêntimos por litro, em outubro desse ano. Hoje, aproxima-se dos 20 cêntimos, valor atingido na semana de 6 de abril.
O acentuar desta diferença é consequência direta da guerra no Golfo Pérsico e do bloqueio do Estreito de Ormuz. A região concentra uma parte significativa da produção e várias refinarias essenciais para o fornecimento de gasóleo. Antes do início do conflito, atravessavam o estreito mais de 100 navios por dia, número que caiu para menos de
10 nas últimas seis semanas. Essa instabilidade tem ditado não só uma alta do preço do petróleo bruto (crude), mas também encarecido e dificultado a exportação de produtos refinados, como o gasóleo, para mercados como o europeu.
Ao mesmo tempo, há um aumento significativo dos custos de transporte e de seguros marítimos, agravando ainda mais o preço final. Como resultado, há uma redução da oferta e um aumento dos custos ao longo de toda a cadeia, desde a produção até à distribuição.
Apesar de a Europa ter adaptado parte da sua capacidade para aumentar a produção de gasóleo, continua a não ser autossuficiente, dependendo de importações para satisfazer a procura. Ao perder acesso a alguns dos seus principais fornecedores como a Rússia, a Europa teve de recorrer a mercados mais distantes, como o Golfo Pérsico, o que implica custos adicionais de transporte e aquisição, pressionando ainda mais os preços. Terá a Europa trocado a dependência da Rússia por outra igualmente instável, como o Médio Oriente?
O gasóleo é essencial para a economia, sendo o seu consumo pouco sensível a aumentos de preços, culminando numa subida acentuada das margens de refinação. Segundo a ACEA, em janeiro de 2026, 90,3% dos veículos comerciais ligeiros em circulação na União Europeia utilizavam gasóleo. Ao contrário da gasolina, cujo consumo pode diminuir mais facilmente, o gasóleo continua a ser necessário em grandes quantidades. Embora, em Portugal, o gasóleo continue a beneficiar de uma carga fiscal inferior à da gasolina, essa vantagem não é suficiente, atualmente, para compensar o aumento significativo do seu preço base. Como resultado, mesmo com impostos mais baixos, o gasóleo é hoje vendido a um preço superior ao da gasolina. A atual diferença de preços resulta de uma menor oferta, de uma procura elevada e pouco flexível, de limitações na produção, de fatores geopolíticos e do aumento do preço base, anulando a tradicional vantagem fiscal do gasóleo.
Quando o crude é refinado, não é possível escolher quanto se quer de cada produto, dado que os diferentes componentes do petróleo se separam de forma natural, consoante as suas características. Primeiro saem os produtos mais leves, como gasolina, depois o querosene e o combustível de aviação (jet fuel), a seguir o gasóleo e, no fim, os mais pesados, como betumes e alcatrão. Além disso, o crude serve de base à indústria petroquímica, do plástico ao poliéster. Por isso, a composição de cada barril é relativamente fixa e não permite ajustar facilmente a produção à procura. Assim, aumentar a produção de gasóleo não é um processo imediato nem simples, o que contribui para a sua menor disponibilidade relativa no mercado e grande aumento do crack spread (margem de refinação).
O crack spread do gasóleo e da gasolina é a diferença entre o preço destes produtos nos mercados internacionais e a cotação do barril de crude Brent. No caso da gasolina, baseia-se na referência europeia Eurobob FOB Rotterdam (EBOB), enquanto, no gasóleo, é calculado com base no Low Sulphur Gasoil negociado na bolsa Intercontinental Exchange (ICE).
Na semana anterior ao início do conflito no Médio Oriente, a 28 de fevereiro, a gasolina EBOB cotava nos 780 dólares por tonelada métrica, o gasóleo no ICE a 730 dólares e o barril de Brent a 70 dólares. Tendo em conta o fator de conversão de 7,45 barris por tonelada para o gasóleo e de 8,53 barris para a gasolina (menos densa), o crack spread era de 27,99 dólares para o gasóleo e 21,44 dólares para a gasolina, sendo o diferencial entre essas margens de refinação
de 6,55 dólares, ou seja, um preço do gasóleo mais elevado nos mercados internacionais.
Nessa mesma semana, de acordo com a DGEG, os preços médios por litro da gasolina e do gasóleo em Portugal eram de 1,69 € e 1,60 €, respetivamente, sendo a gasolina mais cara devido a uma carga fiscal superior em 12 cêntimos por litro (ISP, incluindo a contribuição rodoviária e a taxa de carbono).
Entretanto, nos mercados internacionais, o diferencial entre as margens de refinação de gasóleo e gasolina agravou-se significativamente desde o início do conflito. Na semana de 30 de março a 3 de abril, o gasóleo cotou a 1481,75 dólares por tonelada e a gasolina a 1089,87 dólares, correspondendo a margens de refinação de 89,86 e 18,74 dólares, respetivamente, uma diferença de 71,12 dólares, tendo por base o Brent de 109,03 dólares no final dessa semana.
Quando a diferença entre as margens de refinação do gasóleo e da gasolina se aproxima de valores acima de 30, 40 ou 50 dólares por barril, os preços em Portugal tendem a inverter-se, com o gasóleo a tornar-se mais caro do que a gasolina, como se verificou em setembro e outubro de 2022 e novamente agora em março e abril de 2026. Na semana de 6 de abril, o gasóleo registou a sexta subida consecutiva desde o início do conflito, atingindo uma média de 2,13 €/L, um aumento acumulado de quase 0,50 €/L, enquanto a gasolina subiu para 1,94 €/L.
