O cenário mais provável continua a ser o cessar-fogo levar a um compromisso, mesmo que frágil e parcial, que permita aos beligerantes, Irão e EUA, declarar vitória. Teremos de ver se há margem para os compromissos que isso implicaria, e como se comportam os co-beligerantes Israel e Hizbullah. Esperemos que o estreito de Ormuz não se transforme efetivamente no estreito do Irão, apesar de Trump o ter designado assim. É um lapso ou uma ignorância que os iranianos não deixarão de usar. Isso seria o ruir do princípio da liberdade de navegação, um pilar da ordem global e da nossa prosperidade. Entretanto Trump abriu uma nova frente contra o papa Leão XIV.
Trump contra Leão XIV
Para quem tinha dúvidas ficou o desmentido do próprio Donald Trump, ele não acha que é Cristo. É possível que apesar disso alguns dos seus seguidores mais devotos continuem a idolatrar nele um novo Messias e a lançar todo o tipo de insultos e maldições sobre os descrentes dos seus poderes miraculosos. Mas Trump – é verdade que ao fim de muitas horas – fez algo raro, quase um milagre, recuou numa polémica e retirou uma posta digital. Não fez mea culpa, claro, isso seria demasiado cristão, alegou que foi o resto do Mundo que percebeu mal. A imagem em questão seria – acredite quem quiser – de um médico que faz curas milagrosas vestido com uma túnica da época de Jesus e por via da imposição das mãos e com recurso a uma luz miraculosa.
O que levou a tal recuo de Trump? As críticas foram muitas, inclusive de setores evangélicos que têm sido um pilar do trumpismo, mas que recordavam o suficiente da Bíblia para não ignorarem o pecado da idolatria, com um chefe político a pretender usurpar a devoção devida a Deus. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos desta novela de egocentrismo descontrolado. Aguardarei com especial curiosidade as justificações dos seguidores de Trump, não lhes tem faltado imaginação.
Contra o papa marchar, marchar?
Trump não gostou das críticas de Leão XIV à utilização abusiva da religião para defender ações políticas e militares. Trump estará, com isto, a tentar promover o apoio de setores evangélicos mais conservadores e antipapistas? Não me parece. Para Trump tudo é uma questão pessoal. O problema é que como Leão XIV deixou claro “eu não tenho medo da Administração Trump”.
A vantagem do microestado do Vaticano é ser suficientemente grande para deixar claro que o papa não está subordinado a nenhum Estado, mas é suficientemente pequeno para não precisar de se preocupar com a ameaça de tarifas ou o fim de garantias de segurança norte-americanas. Estaline terá perguntado quantas divisões tinha o papa durante a Segunda Guerra Mundial. O papa só tinha poucos Guardas Suíços, mas apesar disso Hitler nunca invadiu o Vaticano, nem a Itália o fez quando ocupou Roma em 1870. E, entretanto, a União Soviética desapareceu. A maior parte dos líderes percebe que é vital ter muito poder militar, mas ter legitimidade, ter o suporte de uma autoridade moral também conta muito.
Até um senhor da guerra huno do século V, Átila, conhecido na Europa pela alcunha reveladora de flagelo de deus, percebeu que atacar o papa – no caso, o primeiro papa Leão, o Magno, com quem se encontrou em 452 – não seria bom para a sua imagem. Sejamos caridosos e esperemos que Donald Trump acabe por chegar à mesma conclusão.
Os ignorantes voltam a atacar
Não podíamos terminar sem uma menção honrosa aos acólitos de Trump: J.D. Vance e Pete Hegseth. O vice-presidente Vance é católico, fruto de uma conversão recente. Apesar disso decidiu colocar em questão a solidez teológica do papa Prevost, que tem um doutoramento em teologia. Vance tem razão quando diz que o papa corre um risco se multiplicar as declarações com implicações mais políticas. Também é certo que nessa área não pode reclamar a autoridade da infalibilidade em questões de dogma da fé. Pode ser que o papa deixe ter de um saldo de popularidade nos EUA de mais 34% (face aos menos 12% de Trump). Mas Leão XIV deixou claro que considera que uma guerra que a Administração Trump tenta transformar numa cruzada religiosa é demasiado importante e perigosa para não tomar uma posição clara. E é uma grande hipocrisia que Trump ou Vance que estão sempre a trazer a religião para a política, depois se venham queixar que líderes religiosos, como o papa, queiram ter uma palavra a dizer sobre o assunto.
Vance sugeriu mesmo que o papa se deixasse de política, nomeadamente de política externa, como se fosse uma atividade extracurricular. O Santo Padre respondeu que não se dedica à política como um líder secular, mas na sua pregação não pode ignorar questões tão vitais para a fé como a paz ou a guerra. Leão XIV está aliás a meio da sua segunda grande viagem papal. Vai à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial. África é uma prioridade pois é o continente onde o catolicismo mais cresce – 3% ao ano. E a Argélia é a pátria de Santo Agostinho, o pai fundador da teologia católica sobre a guerra justa e patrono da ordem religiosa que Leão XIV dirigiu. Argel deu-lhe também uma oportunidade para reafirmar que para ele, na linha de São João Paulo II, o diálogo inter-religioso com o Islão continuará a ser uma prioridade.
A diplomacia não é uma atividade estranha ao papado ou uma inovação progressista recente como Vance parece pensar. Já falámos de Leão Magno e de Átila. Poderíamos falar da promoção da Paz de Deus na Idade Média. Claro que também houve as cruzadas ou a Santa Liga, mas o papado nunca deixou de apostar na diplomacia e a prioridade à negociação e à paz tem prevalecido cada vez mais, dos apelos de Bento XV à paz na Primeira Guerra, até múltiplos esforços de mediação mais recentes, por exemplo entre Cuba e os EUA.
O papado é mesmo dos atores globais que mais contribuíram para o desenvolvimento da diplomacia permanente e profissional; foi na Roma papal que surgiram, no século XV e XVI as primeiras embaixadas permanentes. Por isso, a diplomacia papal é uma veterana reconhecida, pelo que, em muitos países, inclusive Portugal, o embaixador papal, o núncio apostólico, é o decano do corpo diplomático.
Por fim, temos Pete Hegseth, o atual responsável ministerial das Forças Armadas mais poderosas do Mundo. Os evangélicos como ele reclamam dar total centralidade à Bíblia, o que torna bizarro que Hegseth não tenha reparado que não era propriamente canónica uma passagem bíblica – enviada por uns pilotos, como piada para ver se pegava? – que escolheu para uma oração pública no Pentágono. Na verdade, como notou o New York Post, Hegseth usou, sem notar, uma versão adulterada, aumentada e mais sanguinária, de Ezequiel 25:17. Uma revisão do Antigo Testamento cortesia de Quentin Tarantino, que o reviu para abrilhantar a fala de um assassino carismático, representado por Samuel L. Jackson, em Pulp Fiction. O que justifica um mea culpa da minha parte, na semana passada fui injusto quando escrevi que Hegseth confundia a guerra contra o Irão com um mau filme de Hollywood, pelos vistos ele também a confunde com um bom filme de Hollywood.