Aquilo que se revela inclina-se sempre para a luz, como se nela encontrasse a sua razão última de existir; mas aquilo que se recorda, fiel às suas raízes mais profundas, prefere a intimidade das sombras, onde o tempo se dilui e os contornos se tornam mais densos e verdadeiros. É nesse limiar – onde a claridade expõe e a penumbra resguarda – que se começa a pressentir um conflito silencioso, ainda latente, mas inevitável: uma tensão cresce, subtil e irreconciliável, entre o uno e o múltiplo, entre a pureza do singular e a dispersão do plural, como se cada dimensão da realidade disputasse o direito de definir o que é, afinal, o real.
Contudo, é nesse território intermédio que a distorção encontra o seu terreno mais fértil: a memória, longe de espelho fiel, curva-se sob o peso da emoção, da linguagem e do desejo. A mentira – não o engano deliberado, mas a inevitável reconfiguração do que nos acontece – infiltra-se nas fissuras do recordar, moldando narrativas que consolam, que justificam, que por vezes protegem. E é por isso que tanto o indivíduo como a comunidade constroem o seu passado não apenas com aquilo que foi, mas com aquilo que se torna suportável lembrar, erguendo sobre sombras e luzes uma verdade instável, onde o que falta pode ser tão decisivo quanto o que permanece.
Uma hora depois de Artemidoro, o guardião dos livros de sonhos e encantamentos, chegou ao umbral da grande biblioteca Amr ibn al-As, o general que seguia as ordens de Omar, um dos quatro califas justos. Como tudo na vida, aquele ano fora bom para uns e mau para outros. O sol ardia no deserto de mirra e incenso, e as chuvas debuxavam na areia velozes arabescos das suas idas e vindas. Alexandria retumbava sob os cascos de incontáveis cavalos.
Apeando-se do cavalo e limpando a testa com um lenço verde, o conquistador disse: “Quanto conhecimento e quantas letras e números se concentram aqui para nosso assombro. Aquilo que se revela procura a luz, mas o que se recorda ama as sombras. A vasta eloquência dos livros pode ser estímulo ou impedimento, insondável mudez ou resposta precisa.” Estava prestes a ser travada uma guerra surda, mas muito rapidamente ígnea, entre o uno e o múltiplo, o singular e o plural, o abstracto e o concreto, o invisível e o sensível. A memória desse acontecimento chegou ao século XIII pela mão de Bar Hebraeus, que relata os esforços desesperados de João Filópono, para quem Artemidoro trabalhava. Intercedendo junto do general, que hesitava se havia de queimar a biblioteca ou não, o teólogo conseguiu uma prorrogação. Amr solicitou por carta a opinião de Omar: “Se esses livros estão de acordo com o Alcorão”, respondeu o califa, “não precisamos deles, e se lhe são contrários, devem ser destruídos.”
O fogo começou pela ala oeste. Artemidoro e dois homens ao seu serviço conseguiram remover milhares de livros sem que os soldados os vissem, pois a noite realçava a voracidade das chamas e ocultava as fugas e a correria dos oficiais, que, tomados pela dor, se lembravam de que, pouco antes, Filópono tinha ordenado a destruição de livros sobre antigos rituais egípcios: um fogo chamou outro, e o desprezo de um homem ecoou décadas depois na atitude de um outro. Ardiam Platão e Aristóteles, as crónicas de Beroso e os juízos de Hermes Trismegisto sobre a viagem do sol pelo submundo. Tratados médicos e manuais de mumificação, pergaminhos com mapas do Nilo, desenhos dos seus animais e plantas, enumerações de dinastias e descrições de fronteiras. Nuvens e cinzas cobriam os terraços da cidade fundada por Alexandre.
Amr ibn al-As era um homem culto, mas implacável. Habituado a jejuns e a solidões, acreditava que, se múltiplos livros conduziam à dúvida, de um só, o inspirado, o eloquente, aquele que recolheu as palavras de Rasul Allah, poderia encher-se a terra de novas certezas. Artemidoro, por seu turno, pensava, com toda a dor do mundo, que a irremediável extinção da sabedoria e o carácter insubstituível das obras perdidas fomentariam ainda mais violência do que aquela que já o rodeava. Um homem, o general, terminaria os seus dias orgulhoso daquele incêndio. Outro, Artemidoro, gemera de dor ao descobrir, nos dias que se seguiram à destruição da biblioteca, como a soldadesca queimara os livros que tinham escapado às chamas para aquecer os banhos públicos: durante meses, para aquecer o caldarium e a sudatoria, as fornalhas queimaram Calímaco e diálogos de Antístenes, demonstrações de Euclides e Arquimedes, odes de Álcman e Baquilides.
Amr lia fragmentos do Corão, certo de que eram um reflexo do todo; Artemidoro, papiros soltos, corroídos pelo fogo, que falavam do poder da água. Para alguns, a história do Templo do Conhecimento e da sua destruição às mãos de Amr ibn al-As é uma patranha, uma mentira, uma invenção criada pelos subjugados para se vingarem daqueles que os subjugaram. Poucos, porém, sustentam que por volta de 640 a biblioteca era já um despojo vivo, do qual todos rapinavam um ou dois livros como se fossem peças de caça, que depois devoravam à luz ténue das suas lâmpadas. Já tinha acontecido, é certo, um outro incêndio durante os dias de César e Marco António, mas parte do que se perdera tinha sido recuperado através de doações e cópias de outras bibliotecas. Artemidoro, o guardião dos livros de sonhos e feitiços, morreu rodeado de pessoas que o admiravam; Amr ibn al-As, num minarete azul-cobalto que ele próprio ordenou erguer em honra dos quatro califas justos: Abu Bakr as-Siddiq, Ornar ibn al-Jattab, Uthmán ibn Affán y Ali ibn Abi Tálib.
E quando a tensão por fim se inflama, não há já lugar para a neutralidade: o que antes era apenas murmúrio transforma-se em chama viva, consumindo as fronteiras entre o abstracto e o concreto, entre o invisível que sustém e o sensível que se impõe. No entanto, talvez estas guerras não sejam feitas para serem vencidas, mas para serem habitadas – um espaço onde luz e sombra, memória e revelação, deixam de se anular e passam a coexistir, num equilíbrio instável que espelha a própria condição humana. Nesse campo incerto, a mentira revela a sua ambiguidade mais profunda: simultaneamente erosão e cimento, falha e fundamento. É ela que, ao distorcer, também organiza, permitindo que a memória – pessoal ou colectiva – adquira forma, continuidade e até sentido. Mas esse mesmo gesto contém o risco da fossilização, quando a narrativa se cristaliza e já não admite fissuras nem revisões. Assim, entre o que se inventa e o que se esquece, constrói-se uma identidade sempre provisória, sustentada por verdades parciais e silêncios eloquentes. E talvez seja precisamente nesse reconhecimento – de que recordar é também reinventar – que reside a possibilidade de um olhar mais lúcido: não o que pretende purificar a memória de toda a sombra, mas o que aprende a ler, nas suas distorções, os sinais mais íntimos daquilo que somos.