A chamada destinava-se a pessoas que gostassem de dançar, mesmo sem terem experiência na área, de diferentes idades, com diferentes corpos. Das que responderam, foram selecionadas 50, dos 19 aos 60 anos, a viver no Grande Porto, mas com origem em diversos países: Portugal, Espanha, Alemanha, Brasil, Irão, Rússia e Chile. O resultado pode ser apreciado neste sábado, às 21 horas, no Silo Auto do Porto (Rua Guedes de Azevedo, 180). É aí que acontece a estreia nacional de Tarab, espetáculo do coreógrafo francês Éric Minh Cuong Castaing que põe o foco no mundo árabe, encerrando mais uma edição do DDD – Festival Dias da Dança.
Tarab é uma palavra que remete para um estilo musical, mas também para a passagem a um estado quase transcendental através da música, como se se saísse do corpo e se entrasse em transe. Esta performance, que junta seis intérpretes do Líbano, da Palestina e do Egito à comunidade local, é “uma celebração reimaginada com o músico Rayess Bek”, inspirada em danças como a dabkeh e a taa’kib. Eric Minh Cuong Castaing, nascido em França, mas de ascendência vietnamita, chama-lhes danças “sociais” e não “tradicionais”, por entender que evoluem com o tempo, vão sendo atualizadas, integrando movimentos contemporâneos, enquanto a tradição remete para o passado.
Aqui, “coletivo” constitui a palavra-chave, a começar pelos ensaios, no Campus Paulo Cunha e Silva, metade do grupo de cada vez. Eis o que leva pessoas de diferentes contextos, em diferentes etapas da vida, a reunir-se na mesma sala, descalças e com roupas confortáveis, prontas a abandonar as posições habituais e a soltar sons, em vez de palavras. Mais do que seguir a música, acompanham as indicações do coreógrafo. Éric convida-as a sentir a tensão nos próprios músculos, à medida que parecem cair, em câmara lenta; a criar “uma ligação invisível entre todos”; a percecionar a temperatura do corpo do outro através do toque; a pôr em campo a imaginação. Ao Observador, no intervalo, fala numa “celebração da sobrevivência”.




Nadim Bahsoun, intérprete natural do Líbano, onde a família continua a enfrentar a guerra, vive em Marselha, no sul de França. “Ainda faz parte do Mediterrâneo, por isso, é uma maneira de estar ligado ao meu país, à distância; e é uma maneira de encontrar consolo quando o teu país está a ser destruído e ocupado”, comenta. Vai conseguindo contactar os mais próximos graças à internet, para saber “onde é que estão a dormir, quantas vezes se mudaram”. “Estão a salvo, fisicamente, mas muito traumatizados”, conclui. Para Nadim, esta performance permite estar com artistas de outros países árabes, partilhar dores e, ao mesmo tempo, celebrar a sua música, a sua dança, os seus corpos (“com o que eles carregam de legado, herança, tradição, cultura”). Isso significa pô-los no centro, dar-lhes espaço, prestar-lhes tributo.
Não é a primeira vez que Éric Minh Cuong Castaing, fundador da Compagnie Shōnen e artista visual, trabalha com elementos da comunidade. Por exemplo, no Japão, o coreógrafo francês abordou o fenómeno hikikomori, alusivo às pessoas que se trancam em casa durante longos períodos de tempo. Mas o seu primeiro projeto envolvendo a comunidade árabe, Phoenix, data de 2018, altura em que usou a tecnologia para se ligar, em tempo real, a bailarinos residentes em Gaza. Assim fez de uma sala de estar, naquela zona de guerra, uma extensão do teatro onde um público ocidental assistia à atuação, apesar dos drones e das armas.
O espetáculo Tarab tem entrada livre. Desengane-se, porém, quem espera encontrar lugares sentados, um espaço de contemplação: o objetivo é contagiar o público, envolvê-lo na dança, puxar pelos sentidos. A peça de encerramento do DDD vive, aliás, das cores emprestadas pelas luzes, cada uma delas representando uma qualidade de movimento. Duas pistas: azul é código para dança de contacto, vermelho para gritar em jeito de catarse, como num concerto. Para saber mais, é preciso ir — de corpo inteiro.
Donya Mossayebi, iraniana, 33 anos: “Não sei se os meus familiares estão vivos ou mortos”
Sorridente, nos seus longos cabelos negros, Donya Mossayebi apresenta-se: tem 32 anos e está há quase dois a viver sozinha em Portugal, para onde veio trabalhar como engenheira de software. Mal vê a hora de ter consigo a família, de trazê-la, pelo menos o marido, mas o processo tem sido vagaroso e difícil – aguarda há meses resposta da AIMA (Agência para a Integração Migrações e Asilo). Mostra-se feliz por estar no Porto, adora francesinhas e ainda mais pastéis de nata, come todos os dias um. A conversa fluida e o olhar vivo não denunciam o quanto chora por nada saber dos entes queridos que ficaram na capital do Irão, sujeitos à guerra. Não há comunicações, o blackout dura há semanas.

“A primeira palavra que aprendi em português foi saudade, porque me descreve. Não sei se os meus familiares estão vivos ou mortos, e estou aqui a dançar. Meu Deus, sou louca”, diz Donya, em jeito de brincadeira, mas transparecendo emoção. Na verdade, participar neste projeto é uma forma de se manter à tona, de interromper a tristeza, nem que seja por momentos. “Recebo muita energia positiva. Antes de vir para aqui, estive a chorar.” A dança é uma parte importante da sua cultura, “mas não como performance”. “Estou mesmo assustada”, comenta em relação à estreia. Ainda assim, “é como se estivesse em casa”.
Maria Torres, portuguesa, 32 anos: “Num mundo tão violento, dançar é um ato de resistência”
Maria Torres, atriz, de 32 anos, interrompe o seu segundo ensaio enquanto membro do elenco de Tarab para, afogueada, contar como chegou ali. “Já tinha uma conexão com o mundo árabe, porque, em 2023, fui um mês para a Palestina, com uma amiga, também atriz, que é inglesa e palestiniana, no contexto de um projeto que estamos a desenvolver”, começa por explicar, acrescentando que, durante aquele tempo, fez voluntariado e trabalhou com companhias locais, como a The Freedom Theatre, que opera no campo de refugiados de Jenin, com vista ao empoderamento através da arte. O projeto em curso é uma curta-metragem de ficção inspirada no que viveram, especifica, sem revelar muito.

A artista sentiu uma grande proximidade com a cultura palestiniana, que lhe recorda, em certos aspetos, a portuguesa: por exemplo, no que toca à hospitalidade, ao sentido de família, à importância de estar à mesa e até ao ouro ofertado, tradicionalmente, aos bebés (“Nascíamos e os nossos avós iam logo comprar a pulseirinha”). Mantém contacto com pessoas de lá e também conhece quem esteja no Líbano, outra zona sob ataque. Quis entrar neste espetáculo em torno do mundo árabe por vários motivos, sublinha: “Muito mais do que pôr no currículo, é um ato político, uma vontade de conhecer as danças sociais deles, preservá-las, dar-lhes continuidade. No mundo em que vivemos, tão sufocante, tão violento, dançar é um ato de resistência, é um ato de estar vivo. Enquanto europeia, privilegiada, branca, celebro o meu corpo, a minha existência, com corpos cuja existência está em iminente perigo”.
Rui Azevedo, português, 57 anos: “Deixar só o corpo falar, sem pensar no que está a dizer”
“Já fiz teatro musical, mas neste estilo é um desafio”, atira Rui Azevedo, de 57 anos. É de Vila Nova de Famalicão, dá aulas em Paços de Ferreira. Ser professor de ciências no ensino secundário é a sua ocupação principal, embora também vá fazendo algumas participações televisivas. Está satisfeito por ter sido selecionado para participar no espetáculo, cujos intervenientes, em parte, poderiam ser seus alunos, graceja, numa pausa do segundo ensaio.

“No aquecimento do Éric, comecei a perceber o que era aquela expressão corporal, deixar o corpo fluir; ele quer que o corpo fique como água.” Resultado: “Conseguem fazer-nos sair de nós próprios, deixar só o corpo falar, sem pensar no que está a dizer”.