Psicólogos, atores, políticos, entre outros. Cem personalidades assinam uma carta aberta, dirigida à comunicação social e à Ordem dos Psicólogos portugueses, em que transmitem o seu repúdio em relação às controversas declarações de Cristina Ferreira sobre um caso de violação. E, na mesma carta, deixam uma série de reivindicações sobre a forma como estes temas devem ser tratados no espaço mediático.
Na carta, intitulada “A violação não é matéria de opinião”, os signatários recuperam o episódio em que, durante uma pergunta “enviesada e preocupante”, Cristina Ferreira perguntava se com a “adrenalina” que os quatro rapazes que violaram uma rapariga de 16 anos estavam a sentir, “alguém entende aquele ‘não quero mais'” que a vítima teria dito. De seguida, a psicóloga Inês Balinha Carlos dizia que, “sem querer justificar nada”, “parar a meio” do ato exige “maturidade”.
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Os problemas não se “esgotam” neste diálogo, sublinha a carta, que frisa que “o tom ligeiro” e as declarações sobre as supostas “pontas soltas” do caso são “igualmente preocupantes”. Além disso, destaca que desde este episódio, que foi emitido dia 14 de abril no programa da TVI “Dois às 10”, as reações têm “espelhado o pior do ecossistema mediático”, com a CMTV a pedir aos espetadores para votarem, através de uma chamada paga, sobre se Cristina Ferreira “deveria redimir-se”, e com a TVI a lançar um comunicado em tom de ameaça e que desresponsabiliza a administradora e apresentadora. A própria partilhou um comunicado na sua conta de Instagram, em que dizia que a pergunta lançada no programa não era uma opinião pessoal sobre o tema.
“Esta cadeia de eventos e os seus protagonistas mostram como os media podem ser um instrumento de revitimização, contribuindo para uma cultura que culpabiliza as vítimas de violência sexual. O episódio merece resposta e uma posição firme: homens e rapazes sabem quando cometem violência. A violência é uma escolha – consciente – dos perpetradores. Para a vítima, toda a nossa solidariedade”, escrevem os signatários, manifestando o “mais absoluto repúdio” pelo teor e tom do debate.
Além disso, consideram que com isto se justifica lançar uma reflexão maior sobre a responsabilidade dos media, os espaços que passam a ser de “desinformação”, o “voyeurismo” em torno do crime e a maneira como se “trivializam” casos de violência como se fossem episódios de uma telenovela, “sem refletirem nos impactos que as palavras ditas na TV têm nas pessoas que sofreram a violência comentada”.
A carta inclui uma série de reivindicações, incluindo que a abordagem aos temas da violência sexual sejam pautados pelo “rigor e cuidado” e seguindo “orientações éticas”; que o tratamento destes “rejeite o voyeurismo, respeitando as vítimas-sobreviventes”; que a linguagem seja adequada, “sublinhando a violência e combatendo eufemismos como “sexo sem consentimento”; que os profissionais devidamente qualificados e especialistas sejam ouvidos no espaço mediático, “evitando lugares-comuns, generalidades e incorreções potencialmente danosas”; que estes programas “se façam acompanhar por contactos de associações especializadas em violência sexual”; e por fim que a Ordem dos Psicólogos emita diretrizes claras sobre o tema e “reforce a necessidade de especialização para todas/os as/os profissionais que atendem e acompanham vítimas de violência sexual”: “Esta não é uma competência genérica. A não-especialização compromete as vítimas-sobreviventes”.
A carta é assinada por muitas investigadoras, psicólogos (muitos com formações em igualdade de género) e ativistas, assim como pessoas ligadas ao PS e em maior número ao Bloco de Esquerda, incluindo nomes como Paula Cosme Pinto, António Garcia Pereira, Patrícia Reis, Isabel Moreira, Fabian Figueiredo, Francisco Louçã, Marta Crawford, Joana Seixas, Catarina Martins, Joana Mortágua, Leonor Rosas, Maria Clara Sottomayor (ex-juíza do Tribunal Constitucional) e o influencer Kiko is Hot.
[Depois de assassinar Carlos Castro, Renato Seabra vai passar 95 dias numa ala psiquiátrica. É lá que diz ter agido como um instrumento de Deus e ser “Jesus Cristo”.
