O ambiente era tenso: não era segredo para ninguém naquele estúdio que o vencedor das eleições húngaras, Peter Magyar, era muito crítico do papel feito pelos órgãos de comunicação social públicos do país na era Orbán. Aliás, até já tinha ido a uma entrevista na rádio pública, também depois de ganhar as eleições, e essa também não tinha acabado bem. Agora, Magyar sentava-se no estúdio da televisão do Estado, a MTVA, para uma entrevista tão tensa que acabaria com o futuro primeiro-ministro do país a prometer fechar um órgão que faria “Goebbels e Kim Jong-un salivarem”.
A cena aconteceu numa rara aparição de Magyar na MTVA, esta quarta-feira — rara porque, como notou, não costuma aparecer na televisão pública que vários estudos apontam ser claramente favorável ao até agora primeiro-ministro, Viktor Orbán, e mostrar o opositor que o derrotou numa perspetiva negativa em 95% dos casos.
Foi à raridade da aparição que o próprio Magyar começou por se referir nesta entrevista, que pode ser vista com legendas aqui. “Olho à minha volta por um momento e sabe bem estar aqui, um ano e meio depois do dia 26 de setembro de 2024, a última vez que me foi permitido a mim — líder do maior partido da oposição — estar aqui”, disparou, com a apresentadora a garantir que foi convidado para ali estar “várias vezes” (“Há emails sobre isto, e obviamente os dois departamentos de comunicação vão trocar correspondência sobre isto, porque os emails existem”, respondeu o político conservador).
“Já falámos disto. Até janeiro de 2026 não me convidavam, nem me deixavam entrar. Caso não se lembre até houve uma manifestação aqui, nesta rua. Mas eu não guardo ressentimento, nem pelo facto de me terem insultado pessoalmente a mim, à minha família, os meus próximos de manhã, à tarde e à noite”, continuou Magyar, com a apresentadora a garantir que não disse, assim como os colegas, nada sobre a família do próximo primeiro-ministro húngaro.
E também isto foi contrariado por Magyar: “Já disseram varias vezes neste estúdio que os meus filhos menores não falam comigo, apesar de eles viverem comigo e ainda ontem ter estado com eles, e pela primeira vez em muitas semanas ter conseguido levá-los aos treinos”.
Apesar da chuva de críticas, o político húngaro disse não guardar “nenhum ressentimento” em relação ao canal de televisão, mas anunciou ter planos para acabar com ele. “A fábrica de mentiras vai acabar após a formação do governo do Tisza”, prometeu. “Vamos suspender imediatamente este serviço de notícias enganosas e criar condições objetivas, independentes e imparciais, com outros partidos com assento parlamentar e outras organizações, para que a propaganda que acontece aqui acabe”.
Depois continuou, com referências e comparações com o responsável pela propaganda do regime nazi e ao regime norte-coreano de Kim Jong-un. “Vamos criar as condições para um meio independente, objetivo e imparcial. Sabemos que não há órgãos perfeitos, mas o que acontece aqui e que desde 2010 teria deixado Goebbels ou o ditador norte-coreano a salivar, porque nem uma palavra verdadeira foi dita, não pode continuar”.
“Já que o povo húngaro mudou o regime com um mandato sem precedentes, porque nunca tantas pessoas votaram numa força política — perto de 3,3 milhões, e vamos ter cerca de 140 deputados, talvez 142. Sei que tem havido movimentações desde então, e pela primeira vez em ano e meio transmitiram uma das minhas conferências de imprensa em direto”, sublinhou, dois dias depois da vitória que entrega ao seu partido dois terços dos assentos parlamentares e lhe permite alterar a Constituição.
Magyar ainda ironizou com o argumento de que a decisão poderia ser ilegal: “Acusar-me aqui de ilegalidade é como se, após um roubo numa loja, o ladrão apontasse ao polícia”.
Como a Lusa recordava aqui, citando observadores internacionais da OSCE, após o regresso ao poder em 2010 do nacionalista Viktor Orbán, o panorama mediático húngaro foi profundamente remodelado e o audiovisual público tinha-se tornado o veículo da sua comunicação do ainda primeiro-ministro da Hungria.
Antes do escrutínio de domingo, o Instituto liberal Republikon tinha observado durante onze meses o telejornal da principal cadeia pública húngara e constatou que este Orbán era apresentado de forma positiva em 95% dos casos. Pelo contrário, o seu opositor Peter Magyar, então em campanha, era denegrido em 96% das vezes quando era referido no ecrã.
[Depois de assassinar Carlos Castro, Renato Seabra vai passar 95 dias numa ala psiquiátrica. É lá que diz ter agido como um instrumento de Deus e ser “Jesus Cristo”.
