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(A) :: "Está tudo bem. Tem calma." Vereadora de Vagos ainda reagiu ao primeiro disparo, mas morreu depois de o filho atirar pela segunda vez

"Está tudo bem. Tem calma." Vereadora de Vagos ainda reagiu ao primeiro disparo, mas morreu depois de o filho atirar pela segunda vez

Tribunal decidiu que filho que matou mãe em Vagos vai passar próximos três anos num centro educativo. Antes de disparar pela segunda vez, menor ainda ouviu a mãe pedir-lhe "calma".

Miguel Pinheiro Correia
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Sem mostrar arrependimento e sempre com a mesma expressão facial, Vasco [nome fictício] detalhou à juíza o que aconteceu na tarde em que disparou um primeiro tiro na direção da cabeça da própria mãe. Contou como ainda a ouviu dizer “… está tudo bem. Tem calma”. E como voltou a disparar logo a seguir, matando Susana Gravato. À juíza, não explicou as motivações para ter matado a mãe, então vereadora na Câmara Municipal de Vagos.

A autoria do homicídio ficou provada durante o julgamento, mas o adolescente não foi condenado, por ter apenas 14 anos. Esta sexta-feira, foi-lhe aplicada uma medida tutelar educativa de internamento em centro educativo, em regime fechado, com a duração de três anos — a medida mais gravosa de internamento, como tinha pedido o Ministério Público (MP).

O Tribunal de Família e Menores de Aveiro teve em conta que os relatórios médico-legais não encontraram em Vasco qualquer patologia que pudesse ter estado na origem do ataque. Apesar disso, diz a nota que o tribunal tornou pública, o adolescente manifestou “traços psicopáticos significativos” e matou a mãe sem que existisse um contexto violento no seio da família que pudesse prever aquele desfecho.

https://observador.pt/especiais/como-e-que-o-menino-fez-tal-coisa-em-gafanha-da-vagueira-ninguem-compreende-como-tera-morrido-a-vereadora-as-maos-do-filho/

Para o tribunal, a confissão do menor ocorreu num depoimento “pouco emotivo e estanque” em que não foi “demonstrado arrependimento”, recordou esta terça-feira, durante a leitura da decisão, a juíza presidente. No dia da morte da vereadora, o filho agiu com frieza. E isso aconteceu em dois momentos distintos: quando fez o segundo disparo sobre a mãe, apesar das palavras dela após ser atingida pela primeira vez; e quando, mais tarde, disse ao pai que a casa tinha sido assaltada.

Durante o julgamento, o coletivo recorreu a um estudo da Universidade do Porto sobre casos de matricídio, que estabelece uma relação com a existência de episódios anteriores de violência no contexto familiar. “Parece haver uma associação entre a presença de abusos ou maus tratos por parte da vítima ou de outro familiar, isto é, da presença de violência no seio familiar, e o cometimento de parricídios [homicídio cometido contra pai ou mãe] na forma tentada”, lê-se na dissertação “Parricídio: Um estudo exploratório”, de 2017, assinada por Maria João Santos Lage.

Neste caso, e contrariando esse padrão, não foram encontradas evidências de episódios anteriores de violência.

Uma hora depois de ter iniciado a leitura da decisão, a juíza ordenou a saída de jornalistas e público da sala de audiência para que o menor entrasse e lhe fosse explicada a sentença. Ao Observador, depois da sessão, a advogada de Vasco* disse que a decisão foi “o expectável”. Agora, diz, começa o processo de reintegração do jovem na sociedade.

“Precisa de ser reeducado, mas também precisa de ser reintegrado na sociedade. E essa reintegração não se faz num centro educativo fechado. Tem que se ir fazendo aos poucos, ao ser integrado na sociedade e na própria família”, explicou Carla Delgado.

Despediu-se da mãe com um beijo e foi para casa preparar fuga

Com base nas “declarações” de Vasco, que foram verificadas com outras provas e diferentes testemunhos ouvidos no julgamento, a juíza construiu a fita do tempo de uma morte que chocou não só a comunidade, mas o país, atendendo ao forte “impacto social, repercussão pública” e “mediatismo” que o caso angariou, e que o próprio tribunal reconheceu.

Nessa terça-feira, 21 de outubro de 2025, Susana foi buscar o filho à escola, como era habitual, e seguiram em direção à Churrasqueira Morgado, onde almoçaram com o pai. Quando acabou a refeição, e antes de sair do restaurante e fazer o curto caminho até casa, Vasco deu um beijo na cabeça da mãe.

Assim que chegou a casa, na Gafanha da Vagueira, uma pequena localidade entre a Ria de Aveiro e um vasto pinhal, já teria uma fuga planeada. Abriu a porta de casa e foi ao quarto dos pais. De dentro de um roupeiro, tirou um pequeno revólver calibre 32 Smith & Wesson. Depois, abriu uma gaveta da mesa de cabeceira do pai e recolheu algumas munições da pistola.

Já de arma na mão, foi ao local onde sabia que os pais guardavam um cofre com milhares de euros. Com uma das chaves, abriu-o e recolheu todo o dinheiro que encontrou — cerca de 20 mil euros. Mas não se ficou por aí. Conhecia os sítios onde os pais tinham ainda mais dinheiro e juntou tudo o que foi apanhando num saco de plástico transparente. No total, angariou mais de trinta mil euros, além de cerca de 1.300 dólares americanos e 140 dólares canadianos.

Colocou todo esse dinheiro numa mochila vermelha da Federação Portuguesa de Futebol, junto às munições que estavam na mesa de cabeceira do pai, um punhal de 12 cm de lâmina, um rolo de fita adesiva preta e dois pacotes de pastilhas elásticas.

Enquanto Vasco percorria a casa em busca de dinheiro, os pais saíam, pelas 14h, do restaurante e seguiram também em direção a casa. Iam os dois trabalhar naquela tarde, mas Susana podia fazê-lo remotamente, enquanto o marido tinha que ir para a drogaria da qual é sócio, a apenas 200 metros da moradia.

Por isso, o pai despediu-se da família antes de seguir para a loja, deixando mãe e filho sozinhos em casa. Passavam 16 minutos das 14h quando, no sofá da sala, que fica no piso da entrada, Susana começou um telefonema com uma colega da Câmara Municipal de Vagos. Durante a chamada da mãe, o menor apercebeu-se de que o tambor (o cilindro no centro dos revólveres) tinha apenas três munições. Por isso, voltou ao quarto dos pais para recolher outras munições soltas.

Disparou, fugiu, escondeu a arma no jazigo dos avós e disse ao pai que a casa tinha sido assaltada

Já com o revólver carregado, Vasco regressou à sala. Encontrou a mãe sentada no sofá, ainda a falar ao telefone, de costas para ele, e disparou sobre a cabeça de Susana. Meia hora depois de ter começado o telefonema, a chamada caiu, apesar de colegas não terem desligado. Do outro lado da linha, segundo escreveu na altura o Jornal de Notícias, ouviu-se apenas um grito.

Segundo o relato verificado pelo tribunal, a mãe ainda reagiu e disse ao filho: “…está tudo bem. Tem calma”. Mas o menor voltou a disparar na direção da cabeça da mãe, acabando por matá-la. O coletivo de juízes não deu como provado que Vasco tivesse planeado a morte da progenitora.

A seguir aos dois disparos, Vasco tapou a cara e o tronco da mãe com uma manta e saiu da sala em direção ao portão da garagem, nas traseiras da casa. Às 14h48, apenas cinco minutos depois do primeiro disparo, deixou o telemóvel no chão, deu-lhe um tiro e pegou nele para atirá-lo à piscina de casa de um vizinho, onde viria a ser recuperado pela Polícia Judiciária.

Em fuga, encontrou-se com um amigo e percorreu quase três quilómetros até ao cemitério da Gafanha da Boa Hora — perto da Igreja onde a mãe que acabara de matar era catequista e onde o próprio Vasco e o irmão (mais velho) também frequentavam a catequese. Entre as campas, encontraram o sítio onde estavam enterrados os avós paternos do fugitivo e, afastando uma pedra tumular, esconderam a arma do crime dentro do jazigo, que voltaram a tapar.

Em casa da família, já o pai tinha encontrado a mulher ensaguentada no sofá, com ferimentos na cabeça, após ter sido alertado pela colega que falava ao telefone com Susana. Segundo avançou o Jornal de Notícias, as câmaras de videovigilância mostravam apenas a saída do filho de casa. Depois, foram desligadas ou tapadas.

Sem mencionar o momento em que o pai chegou a casa, o tribunal dá apenas como provado que, assim que o jovem regressou, depois de ter escondido a arma, explicou ao pai que a moradia tinha sido assaltada por “indivíduos encapuzados que teriam entrado na residência e sido perseguidos por ele”.

A PJ, que ficou responsável pela investigação do caso, percebeu as incoerências na versão que o filho contou ao pai. Confrontando pelos investigadores, Vasco confessou o crime, foi detido e internado no Centro Educativo de Santo António.

“O jovem agiu de forma livre e deliberada, sabedor da ilicitude da sua conduta, sabendo ainda que ao disparar balas contra a cabeça de sua mãe lhe causaria a morte. Agiu, pois, com o propósito concretizado de tirar a vida a sua mãe, Susana Maria Ferreira Gravato, o que conseguiu”, lê-se no resumo do acórdão a que o Observador teve acesso.

Se tivesse mais que 16 anos, menor seria punido com pena de prisão que poderia chegar à pena máxima

Além do relato comprovado dos factos descritos, o tribunal olhou para o resultado das perícias “forenses de pedopsiquiatria e de psicologia e do relatório e informação sociais da Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais” para aplicar a medida tutelar educativa. “O jovem praticou factos qualificados pela lei como crime, nomeadamente um crime de homicídio qualificado (…), punido com pena de prisão de 12 a 25 anos, se praticado por maior de 16 anos”.

No entanto, tendo Vasco menos de 16 anos, só lhe pode ser aplicada a medida tutelar educativa. Como se trata de um crime de extrema gravidade, recebeu a medida de internamento em regime fechado, “pelo período máximo de três anos”, que será revista a cada seis meses. “O jovem carece, atualmente, de ser educado para o direito, e nessa medida, [o tribunal] decidiu aplicar-lhe a medida de internamento em Centro Educativo em regime fechado — de preferência o Centro Educativo de Santo António, onde já se encontra, ou outro que venha a ser indicado pela Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, caso aquele não possua as condições [necessárias]”.

https://observador.pt/especiais/guarda-em-centro-educativo-tres-anos-de-pena-maxima-e-em-regime-fechado-o-que-pode-acontecer-ao-menor-suspeito-de-matar-a-mae-em-vagos/

Entre as medidas necessárias para Vasco ter uma “intervenção prolongada, multidisciplinar e estruturada”, a juíza exigiu um “acompanhamento pedopsiquiátrico regular, com periodicidade mensal; e o acompanhamento psicológico regular, com periodicidade semanal ou quinzenal; ambos a ocorrerem no centro educativo ou fora dele, caso o centro educativo não possua essas valências, o que deverá ser comunicado, de imediato, ao Tribunal”.

Também entende o tribunal que deve ser avaliado periodicamente o “risco de violência” do menor e a evolução dos traços de personalidade, para que “os traços de personalidade detetados na adolescência não se consolidem em perturbação de personalidade anti-social na idade adulta, com risco acrescido de criminalidade violenta”.

Por fim, a juíza frisou a necessidade de garantir “o apoio psicológico ao progenitor e ao irmão, independente do acompanhamento do jovem, a promover pela DGRSP, ou não sendo possível, a desenvolver pelo SNS, ou de forma particular, a custear pelo progenitor, caso este assim o pretenda, devendo o profissional que vier a promover o referido apoio articular a sua atuação com os demais profissionais, que intervenham junto do jovem”.

Advogada de menor destaca “bom comportamento” no Centro Educativo e defende abertura progressiva à sociedade

Carla Delgado ouviu a decisão da juíza e reagiu sem surpresa. Mas alertou para a necessidade de o regime fechado ser avaliado periodicamente para permitir uma abertura progressiva de Vasco à sociedade. “Da leitura da decisão, entendo que poderá haver hipótese de isso acontecer. Quando? Não fazemos a mínima ideia”, referiu ao Observador a advogada do menor, destacando que ainda não fez uma “análise pormenorizada” do acórdão.

“Esperamos que [a abertura do menor à sociedade] venha a acontecer, até para bem do futuro, porque é um jovem de 14 anos, ainda não tem uma consciência e uma maturidade consolidada, cristalizada. Esta reeducação para o direito, eu acho que vai fazer-lhe muito bem.”

Para já, acrescentou, ainda não “há informação nenhuma” sobre que Centro Educativo vai receber o menor, mas a advogada acompanha a intenção do tribunal de manter o menor no mesmo local onde esteve nos últimos tempos a aguardar o julgamento. “Conforme foi dito pela juíza, ele está integrado no Centro Educativo, as avaliações dele a nível de frequência de escola, bom comportamento, numa escala de 0 a 5, a avaliação dele é 4. Ele está com bom comportamento, com vontade de crescer e de melhorar”.

[Depois de assassinar Carlos Castro, Renato Seabra vai passar 95 dias numa ala psiquiátrica. É lá que diz ter agido como um instrumento de Deus e ser “Jesus Cristo”.