Quem julgue que está tudo dito e feito sobre a história do modernismo literário e artístico português, vista a exposição Modernismo e Regionalismo no Museu Municipal de Faro — centrada na figura de José Dias Sancho (1898-1929) e que se segue a uma outra, de 2019, sobre o pintor e cineasta Carlos Porfírio (1895-1970) —, terá de baixar o queixo em modo de constrição, embora se deva admitir que tal ignorância resulte, em larga medida, da desatenção da historiografia de arte, que não soube ou deliberadamente não quis perceber e valorizar o protagonismo do Algarve na cultura portuguesa nas décadas de 1920 e 1930.
Tão importante revisitação está em curso há anos num projeto coordenado por Fernando Rosa Dias, professor da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, pelo que esta “pequena grande exposição” — como a classificou Raquel Henriques da Silva, e eu devo dar-lhe razão — assume já um mais elevado patamar de conhecimento, a par da indispensável publicação dos seis volumes de escritos de José Dias Sancho levada a cabo por Sílvia Quinteiro e Maria José Marques (ed. Opera Omnia, 2021-23, c. 1450 pp.), a merecer atenção específica e comparada.
A passagem por Vila do Conde, Monção e Viana do casal Sonia e Robert Delaunay, em 1915-17, deu um extraordinário impulso à arte portuguesa, aliás mil vezes evidenciado e referido, todavia a “vila cubista” de Olhão — termo cunhado por Dias Sancho — também exerceu considerável fascínio sobre Eduardo Viana e Mário Eloy, que a foram pintar em 1922 e 1924, respetivamente. Anos antes, já o Heraldo de Faro divulgara em primeira mão o futurismo de Guiseppe Marinetti, o poema “Litoral” de José de Almada Negreiros e alguns versos de Mário de Sá-Carneiro. Até a impressão do manifesto Portugal Futurista, em 1917, foi paga pelo pai de Carlos Porfírio, um cenógrafo teatral ativo em Faro.

O triângulo São Brás de Alportel-Olhão-Faro, com a sua muito carismática elite cultural, reforçada por laços familiares — que chegavam ao pintor Henrique Pousão (1859-84) —, e professores liceais deslocados de Lisboa e fixados para sempre na província, como o escritor e pintor Carlos Lyster Franco (1878-1959), desempenharam um papel essencial nessa dinâmica moderna e modernista, cujo vértice haveria de ser a assim chamada Grande Exposição de Arte Moderna, em Olhão, um ano depois da decisiva I Exposição dos Independentes (Lisboa, 1923), porém aquela bastante esquecida pelos anais da história da arte. Homem do Mar, um enorme gouache de Bernardo Marques (1924, 35,1 x 29,8 cm), rompe de vez com o naturalismo ainda vigente.
Que um século depois seja ainda necessário reavaliar o que então se passou não deixa de ser uma forte bofetada na academia, crítica e “curadoria” de arte portuguesas, hoje muito mais apressadas em legitimar uma “arte contemporânea” de duvidosa substância. Ora, para se tomar o pulso do protagonismo dos algarvios naqueles anos, basta lembrar que o próprio Dias Sancho entrevistou Almada Negreiros para a Revista Portuguesa de Judith Teixeira, cujo polémico e sobrevalorizado livro Decadência beneficiou duma capa concebida por Carlos Porfírio, pintor que expôs quadros algarvios no salão da Ilustração Portuguesa em fevereiro de 1923, ou que o indisputável “maior amigo dos artistas avançados”, e grande colecionador dos seus quadros, foi — recorde-se — o industrial conserveiro da Mexilhoeira Grande Agostinho Fernandes, curiosamente figura tida como inspiração para O Banqueiro Anarquista de Fernando Pessoa, escrito em janeiro de 1921…
Sem esquecer jamais que foi Bernardo Marques (1898-1962) que, logo em 1923 (tinha, então, 25 anos…) pintou o friso etnográfico envolvendo toda a sala do apartamento do casal António Ferro e Fernanda de Castro no célebre edifício 6 da Calçada dos Caetanos, ao Bairro Alto, em Lisboa (hoje Rua João Pereira da Rosa, um dos homens fortes de O Século). De resto, em agosto do ano anterior, 1922, Marques levara António Soares a Silves, sua terra natal, para aí “pintar quadros” para uma próxima exposição em Lisboa, e no mesmo ano Carlos Porfírio atraíra Jorge Barradas ao Algarve, com idêntica finalidade de incorporar a região na produção artística modernista. Em março de 1923, Almada compareceu à vernissage duma exposição de Roberto Nobre no Salão Bobone, uma das salas dispostas a mostrar os trabalhos dos “artistas novos”, que espalhavam desenhos, ilustrações e pinturas por revistas e capas de livros ou discos.

Enquanto Bernardo Marques foi capista de livros de António Ferro, Roberto Nobre fez prodigiosas capas de livros dos seus patrícios Assis Esperança (v. Ressurgir, Dilúvio e Noite de Natal), Bernardo de Passos (A Árvore e o Ninho), Emiliano da Costa (Phlogistos) e do seu sobrinho, pouco mais novo que ele, José Dias Sancho (em especial Deus Pan, 1925). Esta forte sinergia entre valores literários e artísticos regionais tão-pouco tem sido notada, digo em comparação com outras longitudes nacionais, para já não referir o transbordo e trocas de vanguardas feitas com literatos andaluzes, como Fernando Rosa Dias inventariou numa revista da FBAUL, com o artigo “Relações ibéricas no primeiro modernismo algarvio” (Convocarte, n.º 8, setembro de 2019 pp. 342-69).
A exposição no Museu Municipal de Faro vem claramente recolocar tudo isto em evidência e debate, numa altura em que tanto se fala em periferias e ultraperiferias, sem contudo se topar no que ela possam ser ou possam ter sido como centralidades, ainda que fugazes e num tempo já distante.
Numa sala do piso superior, dando para o claustro (e será que o PRR chegará até ali e à necessária reabilitação dos telhados do convento de Nossa Senhora da Assunção?), “Modernismo e Regionalismo” está organizado em sete números temáticos —Caricaturas, Paisagem algarvia, Encontros modernistas, Cinema e teatro, Polémicas, O cartoonista e, finalmente, Entrevistas — que percorrem o espectro das intervenções de José Dias Sancho, tanto no Algarve como em Lisboa, e o ambiente de confrontos estéticos decorrentes à época, nos quais foi protagonista, desde logo antecipando-se a Almada Negreiros e ao seu celebérrimo Manifesto Anti-Dantas (1915) com uma ignorada A Ceia dos Cábulas de 1914, e confrontando, depois, o crítico literário Albino Forjaz de Sampaio (Os Ídolos de Barro, 1920).

Numa época em que a fotografia ainda não chegara à imprensa portuguesa, em especial à local e regional, de menores recursos técnicos, Sancho espalhou por jornais do Algarve mas também pela Illustração Portugueza de Lisboa uma extensa galeria de caricaturas de escritores e artistas próximos, mas também de deputados (assinou crónica política), além de cartoons, que foram um recurso a que talentos do lápis e do pincel para muito mais — casos de Bernardo Marques, Emmérico Nunes, Carlos Botelho, além de Francisco Valença e outros — tiveram de lançar mão. Se a vida de José Dias Sancho não tivesse sido drasticamente abreviada bem cedo, podemos considerar que se distinguiria de algum modo neste ramo do humor na imprensa, de que Stuart Carvalhais haveria de ser a grande figura dominante, mas o que deixou feito é suficiente para que veja a ser exibido proximamente no Museu Bordallo Pinheiro em Lisboa.
Graças a empréstimos de monta, que importa destacar, desde as Fundações Gulbenkian e Millenium BCP, aos museus nacional de Arte Contemporânea e Grão Vasco, a galeristas e ex-galeristas como São Mamede (o belo quadro Festa de Eloy, oferecido a António Ferro) e Zambeze Almeida, a pintura modernista está bem representada, como seria necessário que estivesse, embora seja de lamentar muito que o retrato de Roberto Nobre por Mário Eloy — visto na exposição O Retrato Português no Museu Nacional de Arte Antiga, em 2018, vendido em 2006 num leilão Cabral Moncada por 38.000 € e, do meu ponto de vista, peça central deste roteiro artístico — não conste desta exposição, nem o fac-símile do artigo que Nobre escreveu no jornal O Primeiro de Janeiro de 24 de Abril de 1967 sobre o seu encontro no Algarve com Eduardo Viana em 1922. Do mesmo modo, deve fazer-se notar que os desenhos algarvios de Bernardo Marques sejam muito posteriores a esses dourados anos 1920, ou que as capas de etnografia algarvia da revista Civilização, de 1929 e 1930, também ficaram de lado na gestão do (sempre) limitado espaço expositivo.
Um livro de ensaios, quase um catálogo, a publicar este ano pela Documenta dará seguramente à figura de José Dias Sancho e a este modernismo algarvio em processo de revisitação e valorização o enquadramento historiográfico que há tanto tempo merece.