(c) 2023 am|dev

(A) :: António Ferro: espírito e letras

António Ferro: espírito e letras

É a primeira coletânea de estudos desde "António Ferro 120 anos", sobre a vida e a obra de um homem singular e complexo. É um passo em frente para uma necessária abordagem crítica.

Vasco Rosa
text

Apenas graças à Fundação António Quadros e a uns quantos carolas, uma das figuras mais marcantes da primeira metade do século passado, com reverberações sempre que se trata de pesar um novo ministro da Cultura e afins, porque nenhum houve como ele — refiro-me naturalmente a António Ferro (1895-1956) —, a vida e obra deste homem complexo ressurge para o júbilo de uns e o desconforto de outros, incapazes estes, e tantos anos depois, caramba, de reconhecer o ímpeto e a genialidade modernista dum escritor cuja obra editores persistem em manter ausente dos escaparates das livrarias (honra seja feita à E-Primatur, com Ficção, de 676 pp., em novembro de 2021), onde abundam mediocridades de todo o tipo, com desperdícios insanos de matérias-primas e ofícios editoriais desbaratados em vaidade, arrogância e inutilidade.

Quase 70 anos após a morte de Ferro, a dificuldade de olhar de frente para este homem tão singular quanto Fernando Pessoa e José de Almada Negreiros pondo de lado o preconceito político de ele ter sido um dos mais habilíssimos suportes do ditador António de Oliveira Salazar, vem demonstrar a imaturidade da intelectualidade portuguesa prevalecente, ocupada ontem, hoje e amanhã em fazer valer os seus arautos, nem que seja pela contínua repetição dos seus nomes, exatamente do mesmo modo que a Primeira República forçou a toponímia urbana a vergar-se à dominação dos seus chefes partidários de ocasião, num país que já então levava quase oito séculos de História…

Não se trata de sugerir ou alcançar o elogio reaccionário — bem fora de época — duma figura marcante do regime estado-novista, mas de interpretar, problematizar e debater o que António Ferro fez com a vida que lhe foi dado viver, no país em que lhe calhou nascer e num tempo histórico de clivagens de grande impacto, tanto quanto de avanços e progressos de que ele soube ler os sinais desde As Grandes Trágicas do Silêncio, escrito dos 22 anos sobre o cinema mudo. O livro agora publicado, com 35 ensaios, não muda definitivamente este cenário obsoleto, mas dá um passo em frente na abordagem crítica deste “espírito em movimento”. É a primeira coletânea de estudos desde António Ferro 120 anos (Lisboa: Texto, 2016, 277 pp.), que inclui “António Ferro e os artistas”, do autor desta nota e inicialmente publicado pelo Observador.

Quem estude ou conheça a época, seus protagonistas e factos, pode achar num primeiro instante, olhando para o índice, ter entre as mãos um disco riscado que se repete ad nauseam, no remexer de temas já devidamente historiados e fixados, mas a verdade é que contribuições de pesos-pesados da historiografia cultural como José Carlos Seabra Pereira não são “mais do mesmo”, e outras há de bom proveito. Refiro-me, em particular, ao estudo histórico-político que o brasileiro Lúcio Alcântara dedica à revista Atlântico, extraordinário instrumento de diplomacia cultural de largo espectro e intercâmbio como nunca depois tivemos um, e ao artigo de Luís Leal sobre a participação e a presença de Ferro na imprensa madrilena e na célebre tertúlia do café Pombo pela mão dos seus amigos Ramón Gómez de la Serna e Carmen de Burgos, “num momento de abertura cultural mútua entre Portugal e Espanha” (p. 277) — em especial através de La Gaceta Literaria, “projecto literário espanhol tão cosmopolita e actualizado”, “com colaborações redigidas em catalão, francês, italiano e português”, “desde um ponto de vista dilatado, a revista literária de todos” (p. 290), em que Ferro assinou uma página sobre Portugal.

O brasileiro Fernando de Moraes Gebra trata das “divergências e convergências” entre António Ferro e Alfredo Guisado (autor de que se ocupa academicamente na Universidade de Évora), recuando às primícias vanguardistas destes dois escritores. nascidos em 1895 e 1891, respetivamente. Parece-me dos contributos mais relevantes desta coletânea (com o de Ricardo Vieira Lisboa, sobre cinema de propaganda), não só porque elenca as opiniões divergentes de ambos sobre a relação entre o indivíduo e a multidão ou o grupo social, em correspondência de 1929, como sublinha a simpatia partilhada por “iniciativas que promovessem a fraternidade luso-galaica”, em cartas de 1913-18 e 1921 conservadas na Fundação António Quadros. Viajariam juntos até Vigo em março de 1929, para preparar uma Semana Portuguesa na Galiza e Galega em Portugal, por iniciativa do Diário de Notícias, que acabaria sabotada por influência da Seara Nova e maus fígados de José Osório de Oliveira.

Nesse mesmo ano 1929, o escritor e jornalista foi a Bucareste via Paris — com Artur Portela e Brito Aranha, entre outros — participar no III Congresso Internacional de Críticos Dramáticos e Musicais, acto de que nos dá conta o romeno Gelu Savonea, seguindo as crónicas de Ferro no Diário de Notícias, entre 31 de Agosto e 22 de novembro. Homem de acção e com “uma vontade de ferro” (brinca Savonea à p. 164), no seu discurso ao congresso defende com tal veemência a realização em Lisboa do evento seguinte, que assim virá a suceder em 1931 (é a famosa visita de Luigi Pirandello, “à cabeça de impressionante elenco europeu”, escreve Seabra Pereira, p. 207), depois de a candidatura para 1930 ter sido perdida por um voto apenas e de Viena renunciar para Portugal no ano seguinte. Paulo Ribeiro Baptista, a outro pretexto, considera que a organização em Lisboa do Congresso da Crítica foi “a contribuição mais importante de Ferro para a propaganda de Lisboa, no final dos anos 1920 e início dos 1930” (p. 393). A eloquência fantasiosa do escritor português vibra nos discursos que faz no congresso de Bucareste e num banquete — “Roménia e Portugal são as duas janelas opostas do velho palácio da Europa” —, mas também na crónica que reporta a audiência com o rei Mihai I, de apenas 8 anos de idade (a quem ousará pedir um autógrafo…), e a família real romena no castelo de Sinaia. A Rainha Maria conversa com o jornalista, lembrando-lhe que “a mãe do rei Fernando, meu marido, era a princesa Maria Antónia, infanta de Portugal” (cit. p. 172). Victor Cadere e Mircea Eliade terão sido decisivos para que António Ferro recebesse a Grã-Cruz da Coroa da Roménia em fevereiro de 1942.

Num breve contributo para este livro, José Guilherme Victorino refere-se ao inequívoco apoio pessoal e institucional que António Ferro deu a refugiados judeus de trânsito e estadia por Portugal — inclusive a Friderika Maria Zwieg, num pedido de “possíveis facilidades com a possível brevidade” dirigido a um capitão da polícia política (pp. 234-35) — e de ter acolhido exposições, conferência e concertos de alguns deles no Secretariado da Propaganda Nacional, que todavia não especifica nem comenta, ainda que isso ajudasse a avaliar (e de forma quase inédita, quanto julgo saber) este sector de atividades regulares do SPN, que Margarida Magalhães Ramalho, escrevendo sobre o tema, seu modernismo e tradição, aborda, todavia, de modo superficial, quase negligente ou apressado (v. pp. 343-57).

É bom saber que a peça Mar Alto (1923-24), várias vezes referida neste António Ferro, Espírito em Movimento, teve no jovem Agostinho da Silva, estudante de Letras na Universidade do Porto, e diretor do jornal da respetiva Associação Académica, um espectador que a viu “com bastante agrado” (p. 370) e escreveu uma crítica em sua defesa, contra moralistas que “são os mais imorais de todos os imorais”. No texto, que Maurícia Teles da Silva transcreve parcialmente, diz que a aplaudiram “os que se indignavam com o facto de peças francesas, em que adultério aparece sob todas as formas, passarem sem um reparo, e de uma obra portuguesa ser alvejada pelas críticas mais ferozes, pelos ataques mais violentos” (p. 371).

A figura de Francisco Homem-Cristo Filho, publicitário e jornalista, “uma das mais extraordinárias aventurosas figuras do primeiro quartel do século XX” e “antecessor e mentor de António Ferro” (p. 381), é o centro do ensaio de Paulo Ribeiro Baptista sobre a colaboração dele no jornal parisiense Comœdia e a sua precoce faceta de crítico teatral. Segundo Ribeiro Baptista, é o protagonismo e reconhecimento internacional de Ferro que dá créditos à sua investidura à frente do Secretariado, e dos debates havidos nos congressos virá a inspiração para a criação da companhia estatal Teatro do Povo, em 1936, cujo nome foi colhido de obra de Romain Rolland (p. 396) — e afinal resgata a sua tentativa de criação, em 1925, de um Teatro Novo…

Ainda que a ação de Ferro na radiodifusão não conste desta coletânea de estudos, o cinema está presente pela colaboração de Ricardo Vieira Lisboa, programador da Cinemateca Portuguesa que, considerando-o “provavelmente um dos pioneiros, em Portugal, a elevar o cinema ao estatuto de conferência, ao apresentar em Junho de 1917 a palestra ‘As grandes trágicas do silêncio'” — grande título, por sinal —,  avalia o filme A Revolução de Maio (1936-37), “um filme bastante mortiço” (p. 410) “pensado e escrito por António Ferro” (p. 404) para assinalar uma década de Estado Novo, e afinal uma tentativa de “alquimia das sínteses” entre a cinematografia soviética de propaganda da conversão, uma versão de “comédia de enganos” (p. 419), e o cinema fascista italiano, que se repercutiria sobre os seus próprios autores.

O livro tem, digamos, um lado B, com um valioso arquivo designado “Ensaios e outros textos (1926-2015)”, desde o prefácio do filho António Quadros a um livro de 1963 sobre “uma personalidade essencialmente criadora — que está ainda viva, porque as suas ideias e realizações são ainda poderosos activantes da nossa existência espiritual de portugueses” (p. 444), até ao poderoso “obituário” de António Ferro por Diogo de Macedo, para o Diário de Lisboa de 22 de novembro de 1956, que tem como título nada menos que “A arte moderna”… “Deve-lhe o País um grande quinhão de estímulo revolucionário no gosto pelo desenvolvimento e pela vitória da arte moderna em que ele cooperou tenazmente” (p. 460) é uma das frases a destacar. Resgatado foi também excerto dum texto do escritor, crítico e editor Fernando Guedes (1929-2016), que destaca o papel de António Ferro na modernização da Illustração Portugueza, a partir de 1921. “Dez meses passados, era uma revista diferente, mais moderna e mais civilizada” (p. 482), porém em declínio comercial de vendas. E diz que “no SNI foi substiutído por um honesto burocrata” (p. 498). É o que temos, quando ninguém quer ir mais além.

Por muito que me custe, tenho de admitir que Mafalda Ferro e a Fundação António Quadros, quiçá na impossibilidade de confiarem esta publicação a uma editora profissional, a fizeram de modo imprudente, desde a desengraçada e confusa paginação à ausência dum índice onomástico ou analítico que, por certo, tornaria António Ferro, Espírito em Movimento uma obra de referência. Ainda que sinal da indiferença do sistema editorial à figura do diretor do SPN, algo mais e melhor precisava e mereceria ter sido feito. Na resistência a um certo estado das coisas, um suplemento de esforço e cabeça fresca é a boa solução. É mesmo.