(c) 2023 am|dev

(A) :: Tiago Antunes e um pin de Ruth Bader Ginsburg na lapela: quem foi a juíza que se tornou ícone da cultura pop dos EUA?

Tiago Antunes e um pin de Ruth Bader Ginsburg na lapela: quem foi a juíza que se tornou ícone da cultura pop dos EUA?

Ainda antes de saber que a eleição para provedor da Justiça ia falhar, usou um pin com o rosto de Ruth Bader Ginsburg. Juíza do Supremo é símbolo feminista e celebridade improvável nos EUA.

Carolina Sobral
text

Não há como não notar no pin utilizado por Tiago Antunes, antigo secretário de Estado de António Costa, durante a sua audição perante a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, na Assembleia da República, em Lisboa, na passada quinta-feira, 9 de abril. Ainda antes de saber que a eleição para provedor da Justiça ia falhar, apenas com 104 votos a favor, Tiago Antunes levou preso à lapela do casaco um alfinete com o rosto de Ruth Bader Ginsburg, a ex-juíza do Supremo Tribunal dos EUA e pioneira na defesa pela igualdade entre mulheres e homens.

Seja em t-shirts, pins ou souvenirs, a imagem de Ruth Bader Ginsburg está espalhada por lojas e sites online enquanto forma de merchandising para aquilo que defendia: os direitos das mulheres e das minorias. Apelidada de “Notorious RBG”, Ruth Bader Ginsburg foi uma das nove juízas do mais alto tribunal dos EUA e emergiu como uma das celebridades improváveis do país, tornando-se um ícone da cultura pop, ícone esse explorado no documentário biográfico RGB (2018), nomeado para o Óscar de Melhor Documentário e de Melhor Canção Original em 2019.

Entre as lutas de RGB estiveram a discriminalização de género, os direitos parentais, os direitos dos imigrantes, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a legalização do aborto, o alargamento ao voto ou os cuidados de saúde universais. Apesar dos 87 anos que tinha quando morreu, em 2020, Ruth Bader Ginsburg continua a ter uma geração a aclamá-la enquanto líder da chamada “Resistência”, e considerando-a um contraponto a Donald Trump e à Administração Trump. Ainda antes de morrer, revelou à neta que o seu desejo era que o seu lugar no Supremo Tribunal dos EUA não fosse preenchido até que um novo Presidente fosse eleito. No entanto, antes de Joe Biden chegar ao poder, Donald Trump nomeou Amy Coney Barrett, aumentando a maioria conservadora do tribunal para 6-3.

Ginsburg abraçou o seu estatuto na pop culture quando, em 2013, uma estudante de Direito da Universidade de Nova Iorque, Shana Knizhnik, lançou um blogue no Tumblr chamado “The Notorious R.B.G.”, onde retratava uma imagem feroz da pequena juíza ao estilo do famoso rapper The Notorious B.I.G, depois de Ginsburg ter apresentado um voto dissidente no caso Shelby County v. Holder, um processo que invalidou uma parte fundamental da Lei dos Direitos de Voto dos EUA.

Para além da página do Tumblr e do documentário, viu a sua vida retratada no filme On the Basis of Sex (2018), que acompanha a trajetória da sua carreira, desde os estudos na Faculdade de Direito de Harvard no final da década de 1950, passando pelo seu papel enquanto professora de Direito até à União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), onde cofundou o Projeto dos Direitos das Mulheres em 1972 e passou a contestar seis leis de discriminação de género perante o mesmo Supremo Tribunal no qual viria a exercer funções três décadas depois. Com os pins, que aprovava, inspirou ainda slogans como: “Não se pode escrever ‘verdade’ sem ‘Ruth'” — (em inglês “verdade” escreve-se “truth”).

Um dos processos mais emblemáticos da sua carreira foi o de Stephen Wiesenfeld que, quando ficou viúvo, percebeu que não tinha direito ao subsídio da segurança que prevê menos horas de trabalho para os pais cuidarem dos filho pequenos. No entanto, o caso teve lugar nos anos 70, quando nos EUA apenas as mulheres estavam elegíveis para o tal “subsídio da mãe”. Ginsburg levaria então o caso até ao Supremo Tribunal face à clara distinção que era feita entre pais e mães baseada em papéis de género estereotipados no seio familiar. O seu cliente viria a ganhar e a decisão unânime foi um marco na luta do movimento feminista para nivelar o campo de ação, no trabalho e em casa, nos EUA.

Foi em 1993 que viria a ser nomeada para o Supremo Tribunal dos EUA pelo então Presidente Bill Clinton, depois de 13 anos no Tribunal da Relação do distrito de Columbia, para o qual foi nomeada pelo Presidente James Carter. No Supremo Tribunal dos EUA, tornou-se na segunda mulher a ocupar o cargo: “Vi-me como uma educadora de infância, naquele tempo, porque aqueles juízes nem sequer sabiam que a discriminação de género existia”, admitiu na época. Ruth Bader Ginsburg permaneceu no cargo até à sua morte, em setembro de 2020, aos 87 anos, vítima de um cancro no pâncreas.