(c) 2023 am|dev

(A) :: Moedas desiste de criar "Fábrica dos Unicórnios do Mar" que tinha assegurados 30 milhões do PRR

Moedas desiste de criar "Fábrica dos Unicórnios do Mar" que tinha assegurados 30 milhões do PRR

Executivo garante que tomou a decisão "responsável" e culpa "especificidades técnicas do projeto e calendário apertado do PRR". Oposição critica Moedas por "máxima propaganda e pouca concretização".

Miguel Pereira Santos
text

Carlos Moedas desistiu do projeto de criação de um Hub do Mar em Lisboa, deixando cair a proposta de reconstruir a Doca de Pedrouços para dar espaço a um polo de desenvolvimento científico e empresarial ligado ao mar. O projeto tinha um financiamento de mais de 30 milhões de euros garantido pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), sendo que a autarquia viu-se obrigada a devolver à União Europeia as verbas recebidas desde que a candidatura ao financiamento europeu foi aceite.

Fonte oficial da Câmara de Lisboa explica ao Observador que a opção de não prosseguir com o projeto está precisamente relacionada com as exigências para a utilização destes fundos. “Dadas as especificidades técnicas do projeto e o calendário apertado do PRR, a decisão responsável da Câmara Municipal de Lisboa foi não dar sequência ao projeto do Hub do Mar, tendo obviamente devolvido os montantes entretanto recebidos do PRR. A Câmara Municipal de Lisboa seguramente poderá considerar outros projetos nestes domínios.”

Na campanha para as autárquicas de outubro, a execução do projeto já não figurava entre as quinze principais medidas de Carlos Moedas para a capital, depois de, em 2021, ter surgido destacada no programa eleitoral do social-democrata. Na verdade, o último evento público dedicado ao Hub do Mar foi a assinatura do contrato de concessão entre a CML e a Administração do Porto de Lisboa (APL) para a instalação do projeto na Doca de Pedrouços, junto à Fundação Champalimaud. Este protocolo firmado no verão de 2023 previa o pagamento de 26 milhões de euros ao longo dos próximos 75 anos, a somar aos 37,5 milhões de euros (dos quais 31 milhões do PRR) orçamentados para a construção do Hub do Mar.

Nesse evento, o presidente da CML apelidou o projeto de “Fábrica de Unicórnios do Mar” e assegurou ao então ministro das Infraestruturas, João Galamba, que a Câmara “não [ia] falhar” na sua execução. “É para nós um dia extremamente importante. Construímos a Fábrica de Unicórnios no Hub do Beato e agora vamos ter aqui uma Fábrica de Unicórnios do Mar, onde vamos ter todas estas empresas que se vão desenvolver e Lisboa tornar-se esse centro de inovação”, disse Moedas.

Oposição critica “incapacidade de execução” de Moedas

A devolução das verbas do PRR à UE foi discutida numa reunião privada de executivo municipal realizada esta semana e motivou críticas da oposição. Os vereadores eleitos pelo PS acreditam que o abandono do projeto “confirma a incapacidade de execução do executivo de Carlos Moedas”, vendo nesta decisão “mais um caso em que a gestão do presidente da Câmara sobrepôs o marketing vazio, a uma visão estratégica e consequente para a cidade resultando numa penalizadora perda de oportunidades para Lisboa”.

“Depois de muita propaganda em torno deste projeto, apelidado pelo Presidente da Câmara como Hub dos Futuros Unicórnios do Mar, a autarquia acaba por desistir, desperdiçando cerca de 33 milhões de euros do PRR e tendo ainda de devolver mais de 4 milhões de euros já adiantados pela União Europeia. A este prejuízo somam-se cerca de 2 milhões de euros em investimentos municipais já realizados, como resulta das contas da Câmara”, afirmam os vereadores do PS em declarações prestadas ao Observador.

Também o vereador João Ferreira considera que a desistência do projeto é “mais um exemplo definidor da atual gestão: máxima propaganda, pouca ou nenhuma concretização”. Além disso, o comunista reclama a criação de “condições que dignifiquem a atividade piscatória e potenciem a instalação de outras atividades complementares” no espaço onde estava planeado nascer o Hub do Mar. “O estado de abandono da Doca de Pedrouços, inseparável de decisões tomadas ainda durante as gestões PS, requer a adoção de medidas que recuperem a sua função de porto de pesca (o único de todo o estuário do Tejo).”

Objetivo era tornar Lisboa num “polo mundial de Inovação na Economia do Mar”

A Câmara de Lisboa não estava sozinha na promoção do Hub do Mar, aliás, liderava o consórcio responsável pelo seu desenvolvimento no qual participaram também a Universidade de Lisboa, a Docapesca, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e o Fórum Oceano. O investimento iria dotar a Doca de Pedrouços de “espaços destinados a empresas nacionais e internacionais e garantir capacidade de investigação, desenvolvimento e inovação nas áreas da bioeconomia e da biotecnologia azul”, segundo informação do município.

Para o vereador Diogo Moura, o lançamento do concurso público para o projeto, em março de 2023, era “o primeiro passo, de um caminho que pretende tornar Lisboa num polo mundial de Inovação na Economia do Mar”. Por outro lado, o objetivo da reabilitação também passava pela “regeneração de um espaço simbólico, preservando a memória do lugar associado à atividade piscatória e marinha da cidade, e salvaguardando o valor da zona ribeirinha de Pedrouços-Algés.”

Um ano antes, na cerimónia de oficialização da candidatura aos fundos da ‘bazuca’, Moedas assinalava a pertinência do investimento europeu. “Penso que é um dia muito importante para Lisboa, para Portugal e para a Europa, e é realmente a junção de esforços daquilo que é o dinheiro europeu do PRR.” Poucos meses depois de ter assumido funções, o presidente da Câmara de Lisboa era desafiado pelo então ministro do Mar, Ricardo Serrão Santos, a “agarrar [a] oportunidade”. Moedas respondeu à medida: “Se tivesse algo a escolher para concretizar durante o meu mandato, era isto”.

[Depois de assassinar Carlos Castro, Renato Seabra vai passar 95 dias numa ala psiquiátrica. É lá que diz ter agido como um instrumento de Deus e ser “Jesus Cristo”.