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(A) :: 21 anos depois, India Gate segue caminho do Caxemira e deixa a Baixa de Lisboa. Com mais espaço, casal Devani continua legado em Santos

21 anos depois, India Gate segue caminho do Caxemira e deixa a Baixa de Lisboa. Com mais espaço, casal Devani continua legado em Santos

Sem renovação de contrato, India Gate despede-se em julho da Baixa de Lisboa. É em Santos, agora com mais espaço e esplanada, que arranca a nova fase, para bater a fasquia das 300 chamuças por dia.

Carolina Sobral
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Foi uma porta para a gastronomia indiana em Lisboa — não fosse o nome remeter para aquela Porta da Índia, em Nova Deli — e, quase 21 anos depois, abandona a zona da capital que a viu nascer. Três anos depois de também o pioneiro Caxemira abandonar a Baixa lisboeta, o India Gate segue o mesmo caminho, despedindo-se da Rua da Padaria para se estabelecer definitivamente em Santos, onde Hermant e Anita Devani abriram um segundo espaço há exatamente um ano. A saída é motivada pela não renovação do contrato de arrendamento e pela perceção de que o cliente português está a “fugir daquela zona da cidade”. A despedida acontece em julho.

“Eu acho que de 10 em 10 anos nós temos esta coisa de trocar de sítio. Estivemos na Rua dos Sapateiros, foi o nosso primeiro, e estivemos lá 10 anos e depois aconteceu a mesma coisa. Não renovaram o contrato porque o prédio ia ser vendido e agora transformou-se num hotel”, começou por explicar Anita Devani em conversa com o Observador, esclarecendo que já há um ano decidiram abrir o India Gate de Santos por saberem que o contrato de 10 anos na Baixa estava a terminar e que “a renda ia disparar”.

A filha de Kishor Nemchand, o imigrante indiano que nos anos 80 veio para Portugal com a família, vindos de Moçambique, e abriu na Praça da Figueira o Caxemira — atualmente no Parque das Nações —, reconhece que assistiu nos últimos 20 anos a uma grande mudança na Baixa de Lisboa, que descreve agora, na sua opinião, como “muito degradada, muito escura e descaracterizada”. “Às vezes custa-me imenso sair daqui [de Santos] e ir para lá. É uma diferença muito grande entre esta zona e a outra. Mesmo nas pessoas”, explica, sustentada pelo marido, que afirma que “os portugueses não querem ir para a Baixa”. “Está sempre tanta gente a passar. Pessoas a andar de qualquer maneira. Tanto turismo que não dá para andar, então estão a fugir daquela zona da cidade”.

No entanto, também o casal Devani fugiu, “entre aspas”, afirma Anita, apesar de o negócio também se alimentar com quem chega de fora, neste caso sobretudo da Índia. Com o boom de turismo que se vê, e sente, naquela zona da cidade, a filha de Nemchand reconhece a necessidade que o India Gate tinha por um espaço maior que pudesse ter até uma esplanada que concorra contra aquelas que atraem os clientes para as ruas paralelas à Rua Augusta. “Eu acho que passando o tempo, quanto mais turismo vem, mais a cozinha está a ser diversificada lá na Baixa”, continua, afirmando saber que “o turismo agora também procura outras coisas. Procura esplanadas, que nós não temos, mas aqui em princípio já vamos ter”. O público tem-se dado bem com o novo espaço de Santos, que recebe até 80 pessoas — 100, com jeitinho — ao contrário das 40 na Baixa. De recordar que também o primeiro India Gate tinha espaço para 80 pessoas. Mas esse encurtou com a ida para a Rua da Padaria, apesar de durante alguns anos o casal ter conseguido recuperar os lugares ao alugar a sala ao lado do restaurante, onde recebiam grupos grandes. Tudo até à pandemia.

Com mais 20 lugares, em princípio a esplanada chegará no verão, com um menu de petiscos onde não faltarão as tão aclamadas chamuças — há de frango ou legumes (2 euros). “Vendemos muitas. Mais de 300 chamuças por dia. E isso porque fechamos das 15h00 às 18h00, porque se fosse aberto…”, comenta o casal, referindo ainda como têm uma elevada procura de serviço de catering, onde as chamuças estão incluídas. A esplanada deverá estar aberta nessas mesmas três horas em que o restaurante costuma fechar.

Com uma oferta de lugares mais alargada, o restaurante de Santos tem assim, no último ano, conseguido receber os grandes grupos que tinham vindo a perder. “Nós trabalhamos com o turismo da Índia e recebemos grupos de 60, 70 pessoas. Quando ficámos sem o espaço ao lado do restaurante, na Padaria, fomos obrigados a dizer que não. Ou tínhamos que dar a outro restaurante que tivesse a capacidade de pegar. Estávamos a perder muito”, recorda Hermant, exemplificando a dimensão da procura do turismo indiano com um grupo que receberam em Santos no final do ano passado: “Demos 200 almoços e 200 jantares. No mesmo dia foram 400 refeições. Agora já conseguimos fazer”.

“Eu acho que o português dos anos 80 era muito fácil, ou procurava outro tipo de comida, ou gostava muito de comida temperada. Então, foi muito fácil a adaptação [à comida indiana]. Acho que a geração a seguir é que já foi mais complicado”.
Anita Devani

Mas não é apenas do turismo indiano que o negócio vive. O cliente português tem um grande peso (70% para os 30% dos turistas indianos) no India Gate, fazendo da fuga da baixa algo valioso para a nova fase do India Gate de Santos. Ao longo do último ano estiveram preocupados em passar a palavra de que tinham um novo espaço aberto, e o esforço tem compensado, com clientes da casa a passar do número 18 da Rua da Padaria para o 22 da Calçada do Marquês de Abrantes pela facilidade de acessos e a “menor confusão” que oferece. Mas, apesar da clientela fidelizada há 20 anos, as dificuldades de se estrearem numa nova zona sentem-se, com o casal a reconhecer que há ainda quem esteja reticente em entrar e provar o menu autêntico indiano — que servem desde o início e que também pode ser provado no Caxemira do Parque das Nações. Habituados a um público que, durante o dia, procura almoços de trabalho, é esse mesmo que tentam agora cativar, vindos das empresas da zona: “Na Baixa tínhamos muitos clientes dos Ministérios, do Supremo Tribunal, do Tribunal da Relação, que tanto vinham aos Sapateiros como à Padaria. E agora é tentar que as pessoas que trabalham aqui também nos fiquem a conhecer”, explica Anita, acrescentando: “Temos muita coisa aqui com cliente português, que é o cliente que nós queremos cativar, enquanto lá [na Baixa] agora o cliente é muito estrangeiro”.

À noite, o ambiente muda, com o cliente português e o turista indiano a tomar conta do India Gate. Abertos desde setembro de 2005, Hermant e Anita Devani recebem já a terceira geração de famílias portuguesas que logo desde o início do negócio frequentavam o restaurante. Passados 20 anos, a tradição mantém-se, com os clientes a visitar, agora cada vez mais, o segundo espaço para jantares durante a semana, com Santos a ser o local de eleição para celebrações. “Temos meninas com 14 e 15 anos que nós vimos crescer e agora tudo o que é festa é feito aqui no nosso restaurante, porque é onde elas cresceram e é onde querem vir. Temos muita gente assim, que para nós e ótimo. É uma coisa familiar“, afirmam.

Quanto à decoração, não estranhe quem entre e se depare com aquela gaiola dourada do japonês Mattë, do chef brasileiro Habner Gomes, que fechou passado um ano de atividade para dar vida ao YŌSO, que alcançou uma estrela Michelin logo no ano seguinte, em 2025. Uma vez que o India Gate da Baixa feche, os donos vão trazer até Santos toda a decoração que o caracteriza. “Na Baixa o ambiente é muito indiano. Temos lá muitos quadros, peças de arte que valem bem e que trouxemos da Índia. Algumas custom-made. Às vezes as pessoas querem comprar”, descreve Anita, garantindo que uma vez que se despeçam da Rua da Padaria, vão dar “uns toques em Santos para dar um ambiente mais indiano”.

Já o menu, nunca muda. Quando em 2005 abriram o primeiro India Gate na Rua dos Sapateiros com a ajuda de Kishor Nemchand, o espaço surgiu quase que como uma versão 2.0 do Caxemira. Casados de fresco e a viver em Londres, o casal viu em Portugal o apoio que precisavam para cuidar da filha pequena, com uma proposta do pai de Anita de se aventurarem no mundo da restauração. Tendo crescido nesse meio, Anita concordou com Hermant — que nunca tinha trabalhado no meio, nem sabia falar português —, “fecharam os olhos” e deram vida ao India Gate: “O espaço era maior, então acabou por ajudar ali um bocadinho também as pessoas que iam ao Caxemira e não tinham lugar ou não conseguiam reservas. E fomos pouco a pouco ganhando os nossos clientes”.

“O meu pai foi uma grande influência. Ele fez literalmente tudo. Fez a casa, o menu, ensinou os nossos cozinheiros“, recorda Anita, reconhecendo que na época foi preciso adaptar ligeiramente os pratos ao paladar português, não sendo por isso “tão picante como deveria ser”. Já o mesmo tinha feito o pai de Anita quando abriu o Caxemira em 1986. Antes de ser totalmente indiano, o restaurante começou por servir nos primeiros anos uma fusão de comida portuguesa com comida goesa, atraindo logo clientes para o negócio, tornando-se depois, já nos anos 90, no restaurante que conhecemos nos dias de hoje. “Eu acho que o português dessa altura era muito fácil, ou procurava outro tipo de comida, ou gostava muito de comida temperada. Muitos clientes vinham de Moçambique, de África, da Angola, todos muito acostumados ao tempero, e existia muita comida indiana nesses sítios”, explica Anita, acrescentando: “Então, foi muito fácil a adaptação, muito fácil mesmo. Eu acho que a geração a seguir é que já foi mais complicado”.

Foram, no entanto, essas mesmas gerações que ajudaram o India Gate a andar para a frente numa altura em que o casal reconhece mais dificuldades do que as atuais em estabelecer um restaurante com gastronomia estrangeira em Lisboa. “Os nossos primeiros 5 anos foram muito duros, foi trabalhar para pagar aos outros. E tentar pagar os custos do restaurante aberto. Com muita ajuda dos meus pais na altura. Mas com a ajuda de muitos portugueses também, com o passa a palavra, muitos amigos que agora tornaram-se praticamente família, e que nos ajudaram imenso a trazer pessoas lá”, recorda Anita.

Segundo Hermant, o turista indiano procura sempre por restaurantes de gastronomia indiana durante as suas viagens. “Eles quando vêm cá não vão à comida portuguesa. Precisam do sabor e do tempero”, afirma o indiano natural do estado de Guzarate, que foi também fora de portas que fez a prova dos nove à qualidade da sua oferta. “Uma vez fomos à Suíça e experimentámos um restaurante que também se chamava India Gate. Não gostámos nada e ali percebemos de que éramos capazes de receber os grandes grupos do turismo da Índia. E que temos muito boa comida e bom atendimento”, recorda.

E qual o feedback de quem conhece aquilo que está a comer? “Ótimo! É indiano a comer comida indiana”. Com o mesmo menu há 20 anos, o India Gate oferece assim a Punjabi Food, mais típica do norte da Índia, ao contrário de outras cidades europeias, como em Londres, onde a oferta cobre todo o território do país asiático. “Em Portugal eu acho que a comida de outras regiões da Índia não funciona muito, porque este tipo de comida que nós temos é falada em todo o mundo. A pessoas querem comer isto“, explica Hermant, referindo-se ao pão naan e aos pratos de caril ou biryani.

Face ao sucesso que o India Gate tem com o público indiano, contam que não faltam propostas das agências de viagem com quem o casal colabora para abrirem um segundo, ou até terceiro, India Gate fora de Portugal. “Eles dão-nos o negócio todo e dizem que basta abrir o restaurante. Mas não. Já aqui é tão complicado”, afirma Anita, sustentada por Hermant que sugere que, se um dia mais tarde o filho mais novo herdar o negócio do pais, abrir um India Gate fora de Lisboa pode ser opção. “Neste momento, estamos bem assim”, garante, afirmando que o foco agora é continuar com o legado dos últimos 20 anos: a autêntica comida indiana.