Uma ‘esquadra’ chinesa detetada em Nova Iorque e com supostas ligações a Portugal trouxe uma equipa do FBI até Lisboa para alertar a Polícia Judiciária (PJ). A informação é revelada na edição desta sexta-feira do jornal Expresso, que dá conta de que os dois suspeitos que chegaram a ser detidos em solo norte-americano — por perseguição e intimidação de emigrantes chineses reportados como opositores de Xi Jinping e organização de manifestações pró-Pequim — estariam ligados a um plano para estabelecer uma ‘esquadra’ similar em Lisboa.
Estas ‘esquadras’ chinesas foram expostas num relatório da organização Safeguard Defenders, em 2022, quando indicou que haveria 53 países com estruturas ligadas às autoridades de Pequim, alegadamente para vigiar, coagir e forçar cidadãos de origem chinesa a voltar ao país.
Na estrutura identificada em Manhattan estariam, alegadamente, a ser efetuados julgamentos sumários, além do repatriamento forçado de dissidentes de Pequim. Os dois suspeitos estão a ser julgados em Nova Iorque e quando perceberam que estavam sob investigação do FBI, terão avançado com a destruição de documentos sobre os planos de expansão internacional.
PJ e MP investigaram dois suspeitos, mas arquivaram inquérito
Na reunião mantida na sede da PJ, há dois anos, o FBI mencionou a existência de indícios fortes de contactos com suspeitos desconhecidos em Lisboa. E, de acordo com documentos do inquérito que o Ministério Público chegou a instaurar sobre estas alegadas ‘esquadras’ chinesas, o DCIAP e a PJ investigaram dois cidadãos chineses com atividades similares às dos suspeitos detidos em Nova Iorque, com a organização de manifestações pró-China na capital portuguesa e ligações às autoridades policiais chinesas.
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Um desses suspeitos seria um “oficial de ligação do centro de atendimento de Lisboa da estação da polícia chinesa ultramarina da Qingtian”, apresentando igualmente um longo cadastro, preenchido com roubos, sequestros e tentativas de homicídio, sempre contra cidadãos de origem chinesa.
No entanto, a investigação da PJ e do MP não conseguiu obter indícios de crimes suficientemente fortes para formular uma acusação de usurpação de autoridade e entrega ilícita de pessoa a entidade estrangeira, nem sequer para sujeitá-los a interrogatório. Por isso, o inquérito redundou num arquivamento, embora o jornal refira que PJ e MP estão dispostas a regressar a esta investigação, caso surjam novos elementos.
Relativamente a estas ‘esquadras’ chinesas, Pequim veio assegurar que as estruturas não seriam mais do que locais de apoio às comunidades chinesas radicadas no estrangeiro, com enfoque em questões burocráticas.
Suspeitos detidos em Nova Iorque ainda sem decisão dos tribunais
Os dois elementos detidos em Nova Iorque continuam a aguardar por uma decisão do tribunal. Um dos suspeitos terá confessado as atividades associadas a estas ‘esquadras’, mas a comunicação de sentença está suspensa até à conclusão das acusações imputadas ao outro suspeito.
De acordo com as informações citadas da justiça norte-americana, em causa estará o apoio a “atividades repressivas do governo da República Popular da China em solo dos EUA”. Entre essas atividades estão esforços de localização de um ativista chinês pró-democracia que estaria no estado da California, bem como os esforços desencadeados para o repatriamento de um fugitivo chinês que teria sido alvo de ameaças e assédio.
https://observador.pt/2022/12/05/ong-identifica-outras-48-esquadras-ilegais-chinesas-na-europa-a-maioria-fica-em-italia/
As autoridades norte-americanas referiram também que esta estrutura teria sido aberta no início de 2022, ocupando um andar de um edifício no bairro de Chinatown, em Manhattan. A referida ‘esquadra’ encerrou no último trimestre desse mesmo ano, na sequência da instauração da investigação do FBI, que deteve os dois suspeitos em 2023.
Seria a primeira ‘esquadra’ chinesa a operar nos Estados Unidos e com ligações ao Ministério da Segurança Pública chinês.
Houve vários estados europeus a abrirem investigações à existência de supostas esquadras chinesas nas suas fronteiras. Algumas dessas estruturas cessaram o funcionamento, porém, em nenhum desses estados foram as investigações concluídas com acusações formais a suspeitos chineses ligados a estas estruturas.