“Saúdo naturalmente o senhor doutor Miguel Abrantes pela candidatura que apresenta a Provedor de Justiça”. A provocação de Rui Rocha, da Iniciativa Liberal, durante a audição para o cargo no Parlamento tinha um objetivo: lembrar que Tiago Antunes, o nome indicado do PS para Provedor de justiça, tinha feito parte da poderosa máquina de propaganda de José Sócrates. Com particular referência à presença no blogue Câmara Corporativa, que era assinado pelo pseudónimo Miguel Abrantes e que seria municiado por gabinetes ministeriais, incluindo aqueles de que Tiago Antunes foi adjunto ou chefiou. O ex-secretário de Estado Adjunto de António Costa recusou-se a fazer a tal contrição: “Não tenho nada que entenda que me deva arrepender”. Mas a semente para o chumbo — consumado esta quinta-feira — já estava plantada.
Na quarta-feira, como o Observador noticiou, começou a ficar claro que o nome — além da esperada oposição de IL e Chega — tinha resistências dentro da própria bancada do PS e também no grupo parlamentar do PSD. Os dois partidos tiveram reuniões de bancada na quinta-feira com apelos dos líderes parlamentares a que o acordo fosse cumprido, o que claramente não aconteceu. Pelos corredores do Parlamento, tal como na audição, nunca foi colocada em causa a competência técnica e o valor académico de Tiago Antunes, mas as tais ligações que o ex-líder da IL recordara há uma semana. “Nunca mais vai escrever em blogues sob anonimato”, ironiza esta quinta-feira, e já depois do chumbo, uma fonte social-democrata.
As alegações de Rui Rocha têm como base depoimentos e notícias que foram sendo publicadas antes e depois da queda de José Sócrates. No núcleo central desta história está a personagem “Miguel Abrantes”, um influente blogger que defendia abertamente José Sócrates e atacava duramente os críticos do então primeiro-ministro. Durante anos, muito se especulou sobre a identidade ou identidades do autor, que não raras vezes usava informação privilegiada para defender o governo socialista. O mistério acabou por ser resolvido no âmbito da Operação Marquês: “Miguel Abrantes” era, na verdade, o pseudónimo de António Costa Peixoto, que viria mais tarde a ajudar José Sócrates a desenvolver a tese de mestrado que apresentou no Institut d’Études Politiques de Paris.
Ora, como revelou o próprio aos investigadores, António Costa Peixoto tinha relações de proximidade com muitos dos principais responsáveis do PS e elementos do núcleo mais duro de José Sócrates, como Pedro Silva Pereira, João Galamba (também muito ativo na blogosfera), Almeida Ribeiro e Filipe Batista. São estas ligações que sustentam, em grande medida, as acusações feitas por Rui Rocha a Tiago Antunes.
Não sendo formalmente militante do PS, Tiago Antunes é uma figura bem conhecida no universo socialista. Começou o seu percurso político como adjunto do então secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, Filipe Baptista, seu colega de faculdade. Depois, tornou-se chefe de gabinete de João Almeida Ribeiro, o homem das “secretas” internas que se tornaria um dos colaboradores mais próximos de José Sócrates e que o antigo primeiro-ministro escolheu como secretário de Estado Adjunto (2009-2011). Com a queda de Sócrates, mudou-se para Bruxelas para colaborar com Pedro Silva Pereira.
Como contava o Observador, num longo artigo sobre o modus operandi de “Miguel Abrantes”, no depoimento que prestou no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), António Costa Peixoto revelou que conheceu José Sócrates no Natal de 2012 por intermédio, precisamente, de Filipe Batista. Almeida Ribeiro, formado em Filosofia e Marketing Político, ex-funcionário do Serviço de Informações de Segurança (SIS), seria o grande estratega de toda a máquina de propaganda que funcionava a partir dos blogues — acusação que sempre refutou.
Tiago Antunes trabalhou com ambos e chegou a ser implicado diretamente nessa operação de combate político. Em 2010, o Correio da Manhã, que teve acesso a documentação trocada entre elementos do governo de José Sócrates e vários bloggers, escrevia três coisas: que o Câmara Corporativa era alimentado a partir do governo, que Almeida Ribeiro era gestor de grande parte da informação importante que circula na blogosfera e que Tiago Antunes e Hugo Mendes, o mesmo Hugo Mendes que se tornou o controverso secretário de Estado de Pedro Nuno Santos, eram os pivôs da circulação de informação governamental entre blogues, sobretudo o Simplex e o Câmara Corporativa. Tiago Antunes nunca confirmou ou desmentiu esta informação — nem mesmo depois de ter sido pressionado por Rui Rocha, no Parlamento.
O blogue Câmara Corporativa foi mesmo uma das principais armas de comunicação do período socrático: além de fazer um permanente levantamento dos artigos de opinião mais favoráveis a José Sócrates e ao seu Governo, os autores da página nunca se coibiram de criticar fortemente todos os adversários do ex-primeiro-ministro — e sempre sob a proteção do anonimato. A perda de influência da página coincidiu com a diminuição do fulgor da blogosfera.
No livro Na Sombra da Presidência — Relato de 10 anos em Belém, Fernando Lima, antigo assessor de imprensa e um dos elementos de maior confiança do ex-Presidente da República até setembro de 2009, sugere isso mesmo: “Impressionava-me a poderosa e invisível máquina dos socialistas para denegrir os seus adversários e todos aqueles que se atravessavam no seu caminho. (…) Em todo este processo, o mais significativo é que não havia nenhuma outra entidade ou força política capaz de competir com a imensa capacidade do poder socialista de atingir os outros”.
Fernando Lima explicou no seu livro como era vista esta estratégia dos socialistas no núcleo duro cavaquista: “Em Belém, e por uma questão de atitude, devíamos ignorar esse tipo de guerra psicológica, mas não podíamos deixar de lhe dar atenção como fonte de informação sobre quem estava na manobra. Admitia-se que fosse gente bem colocada na estrutura governativa, pelo acesso a informação de qualidade. De resto, à medida que aumentavam as críticas dos socialistas, pelo desagrado das suas políticas e comportamentos, endurecia o tom dos seus ataques, desferidos, normalmente, contra alvos precisos, com o claro intuito de intimidação dos visados, o que contribuía largamente para que se vivesse num insuportável clima de crispação”.
No já referido artigo em que escrutinava o modus operandi de “Miguel Abrantes”, membros do gabinete de José Sócrates recordavam esses tempos e garantiam que, pelo menos durante o período em que foi primeiro-ministro, o socialista não tinha qualquer influência pessoal sobre o que era escrito no Câmara Corporativa e noutros blogues pró-governo. Sócrates era apresentado como um homem pouco dado às tecnologias. Tinha um telemóvel sem ligação à Internet, não tinha computador no gabinete — as secretárias imprimiam tudo –, e José Sócrates fazia gala de não perceber nada do assunto. “Era um analfabeto digital”, asseguravam as mesmas fontes.
Mas um dos membros do gabinete de José Sócrates contava outra história que implicava gente próxima de Tiago Antunes: Sócrates terá mesmo ficado profundamente irritado quando o gabinete do secretário de Estado adjunto partilhou com o Câmara Corporativa informações sobre medidas que o governo estava a preparar. Essa fonte não se recordava quem exatamente ocupava o lugar de secretário de Estado, se Filipe Batista, se Almeida Ribeiro. Mas Tiago Antunes pertencia seguramente àquele gabinete porque trabalhou com ambos.
A 12 de novembro de 2017, o Observador publicou parte do interrogatório a António Costa Peixoto, em que o procurador Rosário Teixeira e o inspetor tributário Paulo Silva escrutinaram a origem dos pagamentos realizados ao blogger. Peixoto deu muitos detalhes sobre a sua relação com José Sócrates, mas deixou uma certeza: não era “papagaio de ninguém”.
[Depois de assassinar Carlos Castro, Renato Seabra vai passar 95 dias numa ala psiquiátrica. É lá que diz ter agido como um instrumento de Deus e ser “Jesus Cristo”.
