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Crise do jet fuel. Porque corre a Europa o risco de ficar sem combustível para a aviação antes do verão

Com o verão à porta e o Estreito de Ormuz fechado, a aviação está sob forte pressão porque depende do jet fuel do Médio Oriente. Portugal também importa, mas Galp afasta disrupção nos próximos meses.

Ana Suspiro
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Ana Sanlez
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Os alertas já tinham começado há uns dias, mas subiram de tom esta quinta-feira quando o diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE) avisou que a Europa talvez já só tenha abastecimento de jet fuel, o combustível usado na aviação, para seis semanas de operação. A dar força à declaração de Fatih Birol, duas das principais companhias aéreas europeias — a Lufthansa e a KLM — anunciaram a suspensão de voos por causa dos efeitos do conflito no Médio Oriente no mercado de combustíveis.

As duas empresas invocaram o aumento dos custo na compra de jet, cujo preço mais do que duplicou no último mês e meio, mas o maior problema pode ser mesmo a escassez de produto, já que a Europa importava entre 40% e 50% do jet do Médio Oriente.

Ao contrário da maioria dos países europeus, Portugal até tem algum equilíbrio entre a oferta e a procura deste produto, diz o secretário-geral da EPCOL (Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes), mas António Comprido reconhece que há necessidade de importações para cobrir os picos de procura no setor da aviação durante o período do verão que vem aí. A Galp confirma a necessidade de importar jet, mas não antecipa disrupções nos próximos meses e indica estar a reforçar a armazenagem. Portugal não tem reservas estratégicas de jet fuel, mas a ministra do Ambiente e Energia veio já esta sexta-feira afirmar que o fornecimento estava garantido pela Galp até ao pico do verão, ou seja princípio, meio de agosto.

O fornecimento de combustíveis para a aviação está garantido pela Galp “até ao pico do verão”, disse hoje a ministra da Energia e do Ambiente em Porto de Mós, no distrito de Leiria.

O que afirmou o diretor executivo da Agência Internacional de Energia?

A não reabertura de Ormuz nas próximas semanas terá repercussões globais no abastecimento mundial de energia. O aviso não é novo, mas vai ganhando força à medida que sobe o número de dias e semanas em que este estreito estratégico está fechado ao tráfego marítimo.

Em declarações à Associated Press, Fatih Berol invocou o nome do grupo de rock inglês Dire Straits para explicar que “estamos agora num dire strait (situação desesperada) e isso vai ter implicações de grande magnitude na economia global. E quanto mais tempo dura, pior será para o crescimento económico e para a inflação no mundo”.

O impacto será assimétrico, com os países em desenvolvimento a sofrerem mais, afirmou Fatih Birol, mas todos vão sofrer. Ninguém vai ficar imune”. Deu como exemplo: “Na Europa temos talvez só mais seis semanas de jet fuel. (…) Se não for possível abrir o Estreito de Ormuz posso afirmar que vamos começar a ouvir notícias de que alguns dos voos entre a cidade A e a cidade B podem ser cancelados por falta de jet fuel”.

O que anunciaram as companhias aéreas?

A Lufthansa deu ordem à sua subsidiária CityLine, que fornece voos em executiva para vários aeroportos europeus, para interromper a operação das suas 27 aeronaves. A empresa alemã que é uma das candidatas à compra da TAP também sinalizou que iria retirar seis aviões à sua frota internacional depois do verão. A KLM (do grupo Air France KLM que também está na corrida pela TAP) anunciou o cancelamento de 160 voos que tinha programado para o próximo mês, o que corresponde a menos de 1% da sua oferta para a Europa.

As duas empresas invocaram o aumento dos custos com o combustível para justificar estes cortes. O jet representa cerca de um quarto dos custos das companhias áreas e o preço já mais do que duplicou desde o início do conflito.

O Observador questionou a TAP sobre se planeia reduzir a oferta, mas não obteve resposta em tempo útil. A transportadora nacional já assumiu ter feito um reajustamento nos preços.

Já a Associação das Companhias Aéreas em Portugal (RENA) admite que a hipótese de haver voos cancelados existe. Em declarações à Lusa, António Moura Portugal, diretor executivo da RENA, admite ainda um aumento do preço dos voos — o que já aconteceu — se o Estreito de Ormuz continuar bloqueado. O responsável defende que as palavras do responsável da AIE devem ser lidas como “mais um aviso sério às consequências que esta guerra está a ter, e em particular para o setor da aviação”, e que a crise energética “pode levar à necessidade de reduzir a operação e, eventualmente, encarecer preços”. Nesta fase, ainda assim, a RENA diz que as companhias ainda não tomaram medidas definitivas e que “neste momento há uma certa expectativa”.

Porque é que o jet fuel está a ser mais afetado que outros combustíveis?

Antes do início da guerra contra o Irão, os países do Golfo abasteciam cerca de um quinto do petróleo e gás natural consumido a nível mundial. Mas o bloqueio do Estreito de Ormuz à navegação marítima e à saída de navios tanques tem outros efeitos colaterais na medida em que a região é igualmente um grande fornecedor de produtos derivados de petróleo. Segundo a consultora Kpler, passavam por este canal 20% do jet consumido a nível mundial e 10% do gasóleo, além de outros produtos críticos. Por outro lado, a dependência da Europa dos fornecimentos desta região é mais elevada no jet do que em outros produtos refinados. Ronda os 50%, mas chega a ser superior em alguns países.

Se o conflito começou há mais de um mês, porque surgem agora estes alertas?

António Comprido da EPCOL (Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes) admite que a resposta pode estar no tempo de viagem médio de um navio tanque. Desde a região do Golfo até os destinos europeus, o percurso será da ordem de um mês. Quando o Irão começou a bloquear a navegação no Estreito de Ormuz, muitos navios carregados com destino à Europa já tinham saído da zona de conflito e continuaram a navegar até aos seus portos de destino. O cenário de escassez coloca-se agora com mais ênfase porque o fluxo de novas cargas foi interrompido, o que está a dificultar a reposição de stocks.

Outra explicação tem a ver com o arranque das ofertas das companhias áreas para o verão, que é o período de maior procura. Perante a ausência de um horizonte temporal para um regresso à normalidade e custos mais altos, as empresas estão a ajustar a sua oferta voos à nova realidade.

Antes deste aviso da Agência Internacional de Energia, já a associação que representa os aeroportos europeus (ACI) tinha enviado uma carta à Comissão Europeia, datada de 9 de abril, a alertar para o risco de uma falta sistémica de jet dentro de três semanas, caso o Estreito de Ormuz se mantenha fechado. A ACI sublinhou que uma crise na aviação iria prejudicar de forma significativa a economia europeia e apelava para uma ação urgente por parte da União Europeia para garantir antecipadamente o fornecimento de combustível antes do arranque do verão, o período alto das viagens.

Qual é a situação de Portugal?

Ao contrário da generalidade da Europa que é mais deficitária, em Portugal existe um relativo equilíbrio entre a produção e as necessidades de consumo das companhias que voam para os nossos aeroportos, indica António Comprido. Mas há algum défice no verão, período em que a procura por voos é mais elevada o que faz subir a procura de jet, e que é compensado por importações. Este movimento de compras será mais complicado no atual contexto.

A Galp é a única produtora de jet em Portugal cuja produção está concentrada na refinaria de Sines. O norte do país é abastecido por barco que vai de Sines até ao parque logístico que sobrou da antiga refinaria de Matosinhos, encerrada em 2020.  Segundo a consultora Argus, que cita dados do Eurostat, Portugal é um dos países europeus em risco de ficar sem produto dentro de quatro meses. A refinaria de Sines esteve parada no final do ano passado para manutenção, o que pode ter afetado a quantidade de produto armazenado. Poderá recorrer a Espanha que também exporta algum jet.

Que garantias dá à Galp?

Numa reunião realizada com Governo há dois ou três dias, a Galp afirmou que ” aguenta perfeitamente até ao pico do verão”, ou seja “princípio, meio de agosto” o fornecimento do combustível ao mercado nacional. A informação foi avançada pela ministra do Ambiente e Energia esta sexta-feira. Citada pela Lusa, Maria da Graça Carvalho, refere que a empresa tem “uma grande produção, a matéria-prima que recebem vem essencialmente do Atlântico e, do ponto de vista da Galp, temos ainda para vários meses”. O Governo também reuniu com a Repsol, principal empresa espanhola, tendo ficado com a indicação de que “a situação da Península Ibérica é bem mais confortável do que no resto da Europa e que muitas zonas do mundo”.

Em resposta ao Observador, fonte oficial da Galp confirma que Portugal “tem uma dependência parcial do exterior para fazer face às suas necessidades deste combustível, sendo que uma parte importante das cargas têm origem na região do Golfo Pérsico”. No entanto, acrescenta que neste momento, “não se antecipam disrupções nos próximos meses, período em que o consumo está coberto pela produção própria da Galp, disponibilidades de stock e importações.” A petrolífera monitoriza a disponibilidade de inventários deste combustível e “está a adotar medidas operacionais que reforcem a segurança de abastecimento de Jet e a avaliar soluções que contribuam para aumento de armazenagem”.

O ministro da Presidência, Leitão Amaro, indicou que o Governo está a acompanhar o tema com outros países e a analisar as medidas que possam ser mais adequadas e eficazes. A informação sobre o abastecimento de jet é relevante para um país com muito turismo e grande conetividade internacional, o que o torna dependente da aviação. Indicou também que há um campo de discussão a nível europeu sobre este tema.

Há reservas estratégicas de jet?

As regras europeias exigem que sejam mantidas reservas estratégicas para 90 dias de consumo de produtos petrolíferos, mas não fixam um valor para cada um desses produtos. Em Portugal, o jet não é um dos combustíveis incluídos na obrigação de constituição de reservas estratégicas. As reservas que existem são comerciais e estão controladas pelas empresas fornecedoras e compradores. Essas reservas estão distribuídas pela refinaria de Sines e pelo parque de CLC (Companhia Logística de Combustíveis) em Aveiras, mas também pelos aeroportos, e pelo já referido parque da antiga refinaria de Matosinhos.

O que pode ser feito?

Quando um fornecedor de um produto essencial falha ou não pode fazer entregas, a solução é procurar fornecedores alternativos. Foi o que a Europa fez quando quis cortar com o gás russo em 2022. Mas esta é uma crise global e há muitos países e empresas à procura dessas alternativas. Mesmo países que são produtores, estão a limitar as exportações para terceiros de forma a assegurar a resposta às necessidades internas.

A Europa tem recorrido aos Estados Unidos e à Nigéria, mas a avaliar pela declaração do diretor da Agência de Energia, isso não é suficiente.

A União Europeia está a preparar um plano para lidar com a crise no abastecimento de jet e maximizar a produção nas refinarias. Segundo um esboço do plano consultado pela agência Reuters, a Comissão Europeia vai mapear a capacidade de refinação de produtos petrolíferos em toda a UE e lançar medidas para assegurar que toda a capacidade de refinação existente está a ser utilizada e alvo de manutenção. Estão também em preparação medidas dirigidas ao abastecimento de jet, mas ainda não se conhecem os detalhes.

As viagens já reservadas em agências podem ser canceladas?

Para já os cancelamentos são “pontuais”, e as agências de viagens estão, desde 28 de fevereiro, a “viver o dia a dia”, diz o presidente da Associação Nacional das Agências de Viagens (ANAV) ao Observador. Miguel Quintas rejeita “alarmismos” nesta fase mas admite que tudo pode acontecer, incluindo mais aumentos de preços.

“Neste momento não temos registo nem avisos de aumento de preços face a esta possível escassez dentro de um mês e meio. Temos noção de que, pontualmente, tem havido cancelamentos mas não têm expressão, muito menos no mercado português. Estamos a informar os clientes e as agências estão cá para precaver futuras disrupções ou acompanhar os clientes nas remarcações e nas devoluções de dinheiro caso seja necessário. Mas é prematuro entrar em alarmismos”, diz Miguel Quintas.

“É claro que pode haver aumento de preços”, ainda que nos pacotes não se esteja a sentir, garante. “Nos voos simples há um aumento generalizado de 6% a 7% na Europa e entre 12% e 20% nos voos de médio e longo curso. Até a situação estabilizar é normal que se mantenha”, constata.

O tema do jet fuel “já vinha a ser falado ‘à boca pequena’ e agora tornou-se oficial” com os avisos da AIE. “Tem-se assistido a muito poucos cancelamentos. Com a escassez de jet fuel, a necessidade de repor os stocks pode levar a uma crise, mas estamos a falar de uma distância de um mês ou mês e meio. Mas esta guerra tem tido tanta volatilidade que estas declarações têm de ser avaliadas com cautela”, pede o presidente da ANAV.

Nas agências de viagens as reservas não diminuíram, garante, mas tem havido “muitas dúvidas” no momento de fazer a reserva, nomeadamente a Este da zona do conflito. “Para a zona da guerra as reservas de turismo caíram para zero. Para lá do Médio Oriente, para a Ásia, tem-se assistido a uma deslocação das reservas para o final do ano”. O que se nota, acima de tudo, é uma substituição por destinos “com maior segurança” como República Dominicana, México ou Brasil.

Atualizado às 21h30 com resposta da Galp.

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