Tentar reconstruir a evolução e diferenciação das línguas pré-históricas – isto é, anteriores à aparição de sistemas de escrita – é um trabalho dedutivo que faz os mais complexos enigmas policiários parecerem brincadeiras de crianças; mais difícil, só tentar fazer a história da música no período que precedeu o aparecimento da notação musical.
Os estudiosos das línguas pré-históricas receberam, nos últimos anos, preciosa ajuda dos progressos realizados na área da paleogenética e, mais precisamente, da crescente capacidade para extrair e sequenciar DNA contido em restos humanos com milhares de anos. É certo que os avanços na investigação arqueológica também têm sido úteis aos linguistas, mas tem sido a paleogenética o principal agente na revolução ocorrida no campo da linguística, ao permitir apurar o grau de parentesco entre povos pré-históricos, reconstituir movimentos migratórios e até determinar as dietas de indivíduos que viveram há milhares de anos.
Em Proto: How one ancient language went global (2025), a jornalista britânica Laura Spinney (n.1971) propõe-se fornecer um panorama do conhecimento actual sobre o povo que originou o proto-indo-europeu e sobre os caminhos prováveis percorridos pelas línguas que se foram ramificando a partir dessa língua-mãe, numa história de sucesso que se estende por todos os continentes e conta, hoje, com 3.400 milhões de falantes.
A movimentação do conhecimento pela superfície do planeta faz-se hoje a uma velocidade muito superior à dos tempos pré-históricos, pelo que, apenas alguns meses depois da publicação original, o livro de Spinney chegou a Portugal, por iniciativa da Temas & Debates, com o título Proto: Uma história da linguagem; quem teve a tarefa de transpô-lo entre duas das mais faladas línguas indo-europeias da actualidade foi Artur Lopes Cardoso.

Buscando traços de família em estranhos
Aparentemente, nada liga o português, o islandês, o russo, o albanês, o persa e o hindi. O único vocabulário onde existem pontos de contacto óbvios entre elas está associado a produtos, artefactos, tecnologias, e fenómenos sociais e culturais surgidos nos séculos XX e XXI e cujas designações, geralmente com origem na língua inglesa, tiveram adopção praticamente universal – com uma ou outra excepção, como a língua francesa, que fez questão de afirmar a sua excepcionalidade e a sua resistência à hegemonia anglo-saxónica designando computador por “ordinateur”, software por “logiciel” e digital por “numérique” (embora, paradoxalmente, prefira “weekend” a “fin de semaine”).
Em contrapartida, há línguas como similitudes manifestas: é o caso do islandês, do inglês e do alemão (línguas germânicas), e, por outro lado, do português, do espanhol e do italiano (línguas itálicas). Com algum esforço adicional, mesmo um leigo é capaz de detectar afinidades entre línguas germânicas e línguas itálicas e intuir que teriam tido um antepassado comum. Já o persa e o hindi afigurar-se-ão tão inescrutáveis e “exóticos” aos falantes de línguas germânicas e itálicas quanto o árabe, o mandarim, o tupi, o kimbundu ou o maori. Assim, para os habitantes da Europa Ocidental, seria natural presumir que o persa e o hindi tivessem génese completamente independente da das suas línguas – nem outra coisa seria de esperar, afinal, dado que, no período histórico até ao século XVI, se desconhecia a existência de qualquer migração significativa ou sequer de contacto directo entre os povos da Europa Ocidental e os povos da Pérsia e da Índia.
Esta perspectiva sobre as línguas começou a abrir brechas no século XVI, quando viajantes e eruditos atentos e argutos, como o florentino Filippo Sassetti e o inglês Thomas Stephens, começaram a correr mundo e notaram que existiam semelhanças entre algumas línguas asiáticas e as línguas europeias. Esta ideia foi reforçada, em 1575, pelo erudito e poliglota flamengo Frans van Ravelingen (que assinava como Franciscus Raphelengius), que identificou pontos de contacto entre o holandês e o persa. Em meados do século XVII, o linguista holandês Marcus Zuerius van Boxhorn ousou postular que a maior parte das línguas da Europa e do Médio Oriente teriam uma antepassada comum, a que deu o nome de “cita” – implicando que os citas, um povo nómada que dominara as estepes em torno do Mar Negro e do Mar Cáspio, entre os séculos IX a.C. e III a.C., estariam na sua origem.

Um palpite na direcção certa
A “teoria cita” de Boxhorn não teve repercussão entre os filólogos do seu tempo e foi relegada ao olvido, mas, ao longo dos séculos XVII e XVIII, a identificação de semelhanças entre línguas supostamente sem relação entre si foi multiplicando-se, levando a que, em 1786, William Jones, um juiz, filólogo e poliglota inglês que se estabelecera em Calcutá, afirmasse que “o sânscrito, qualquer que seja a sua antiguidade, possui uma maravilhosa estrutura, mais perfeita do que a do o grego, mais variada do que a do o latim e mais sublimemente refinada do que qualquer destas duas, evidenciando, todavia, uma forte afinidade com ambas, quer na raiz dos verbos, quer nas formas da gramática, que dificilmente poderia ter surgido por acidente; essa afinidade é tão forte que filólogo algum poderá examinar estas três línguas sem concluir que brotaram de alguma fonte comum, que, quiçá, já se extinguiu; há razões análogas, ainda que não tão ponderosas, para supor que o gótico e o celta, se bem que mesclados com um idioma muito diferente, tiveram a mesma origem que o sânscrito; e o persa antigo poderia ser adicionado à mesma família” (discurso publicado em Asiatic Researches vol. 1, em 1788).

A teoria de Jones não teve o mesmo destino da de Boxhorn e ganhou aceitação e, no início do século XIX, filólogos como Friedrich Schlegel e Franz Bopp foram reunindo provas adicionais da origem comum do sânscrito, do persa e das línguas da Europa Ocidental. Entretanto, em 1813, o prodigioso polímato inglês Thomas Young (que, entre muitos outros contributos para o conhecimento, teve papel decisivo na decifração da Pedra da Roseta), cunhou o termo “línguas indo-europeias” para designar a família linguística postulada pelo esquecido Boxhorn. Apesar de outros filólogos terem, ao longo do século XIX, proposto designações alternativas, foi o termo de Young que vingou.
É inesperado que o livro de Spinney não mencione Boxhorn, pois este, mesmo possuindo uma noção muito parcelar, nebulosa e, pontualmente, errada, da origem e evolução das línguas indo-europeias (o que é compreensível, dado o incipiente conhecimento do seu tempo), ficou perto de acertar no alvo. É certo que se equivocou quando arrolou o turco nas línguas indo-europeias – pertence, na verdade, à família das línguas turcomanas, que inclui, por exemplo, o azeri, o uzbeque e o cazaque – e não se apercebeu de que o sânscrito também fazia parte da família “cita” – seria o seu amigo e correspondente Claude Saumaise (mais conhecido como Claudius Salmasius), homem de vastíssima erudição, a adicionar o sânscrito à lista de Boxhorn.

A aposta de Boxhorn nos citas não era deslocada: hoje sabe-se, sem margem para dúvida, que a língua cita (que, sabemo-lo hoje, entrara em declínio no século III a.C. e se extinguira definitivamente nos séculos IV-V d.C.) não era o proto-indo-europeu. Todavia, a língua cita pertence, efectivamente, à família indo-europeia e os citas prosperaram no mesmo território que hoje se crê ser o berço do proto-indo-europeu e descendiam, em termos étnicos e culturais, do povo que deu origem ao proto-indo-europeu.
Um espaço em branco no mapa-mundo mental
Durante a maior parte do século XX, a maior parte dos europeus ocidentais teve uma ideia extremamente vaga e equivocada sobre a Ucrânia: era vista como uma república da URSS e que, antes disso, sempre fizera parte da Rússia e como parte indissociável da civilização e cultura russas; além disso, também presumiam que a língua dos habitantes da Ucrânia fosse o russo e mesmo os que estivessem a par da existência da língua ucraniana assumiriam que esta não era mais do que um dialecto do russo.

Assim sendo, muitos terão ficado surpreendidos quando, a 24 de Agosto de 1991, a Ucrânia formalizou a sua separação da URSS; quando, a 1 de Dezembro desse ano, 92% dos ucranianos aprovaram essa separação em referendo; e quando, a 8 de Dezembro, a URSS deu pleno assentimento à independência da Ucrânia e da Bielo-Rússia, ao assinar, com estas, a constituição da Comunidade dos Estados Independentes – a própria URSS só duraria mais duas semanas, sendo formalmente extinta a 25 de Dezembro. Aos olhos da maioria dos europeus ocidentais, estes acontecimentos foram tão inesperados como se o Minho se tivesse tornado independente de Portugal, a Andaluzia independente de Espanha, ou a Normandia independente da França.
Quem perfilha esta mundividência terá interpretado a invasão e anexação formal da Crimeia pela Rússia, em 2014, como uma legítima reapropriação de um território historicamente russo; a despromoção da Bielo-Rússia de Aleksandr Lukashenko à condição de protectorado russo, como uma mera reposição das prerrogativas imperiais russas; a promoção pela Rússia dos grupos separatistas pró-russos no Donbass, como uma forma expedita de reparar um grave erro na delimitação de fronteiras; e a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, como a natural reintegração da Ucrânia na zona de influência russa, após um interregno de três décadas.

Porém, estas “percepções” são frontalmente desmentidas pela história dos territórios que hoje correspondem à Rússia e à Ucrânia (ver De Kharkiv a Mariupol: Como foram formadas as cidades que contam a história da Ucrânia, De Kaliningrad a Petropavlovsk: A geografia da Rússia, um país que se diz “cercado”, De Minsk a Pinsk: Como foram desenhadas a história e a geografia da “Rússia Branca” e Morrer de fome no “celeiro da Europa”: O plano de Stalin para aniquilar a identidade ucraniana). A visão da Ucrânia como província russa e dos ucranianos como povo sem língua, cultura ou identidade próprias e a presunção de que a história da Ucrânia anterior à sua incorporação na Rússia foi irrelevante é uma ficção que tem subjacente uma visão imperial e messiânica da Rússia, que ganhou força no século XIX, que Putin abraçou fervorosamente e que tem sido amplificada pela propaganda russa nos últimos anos (ver A Rússia e o sonho imperial pt. 1: Das origens às vésperas da Revolução de Outubro, A Rússia e o sonho imperial pt. 2: Da Revolução de Outubro ao presente, A Rússia e o sonho imperial pt. 3: Quem foram os professores de História de Putin?, A Rússia e o sonho imperial pt. 4: Liderar da Ásia até à Europa, A Rússia e o sonho imperial pt. 5: Inimigos, cúmplices, não-alinhados, sonsos e cínicos e A Rússia e o sonho imperial pt. 6: Afinal, onde estão os nazis?). Esta propaganda continua a desfrutar de razoável acolhimento na Europa Ocidental e nos EUA graças, nalguns casos, a sectarismos ideológicos (alguns assaz retorcidos) e, genericamente, a um profundo desconhecimento da enredada e movimentadíssima história da estepe eurasiática a norte do Mar Negro.

Vaivém de povos na estepe pôntico-cáspica
O topónimo Ukrajina – que surge pela primeira vez na Crónica de Kyiv, que faz a história do Rus’ de Kyiv entre 1118 e 1187, que é a data da sua provável redacção – remontará, provavelmente, ao vocábulo proto-indo-europeu “krajina”, com o significado de “corte” ou “limite”, e que na língua proto-eslava daria origem a “krai”, com o sentido de “fronteira”, “margem”, “borda”, “raia” ou “região”. Se esta etimologia é relativamente consensual, os linguistas ucranianos tendem a interpretar Ukrajina como provindo de “ukraina” = território, no sentido de parcela de terra separada, de território associado a um determinado povo, enquanto os linguistas russos tendem a defender que provém de “okraina” = fronteira (é legítimo suspeitar que esta divergência seja determinada menos por considerações etimológicas objectivas do que por convicções nacionalistas).

Enquanto a origem do topónimo Ucrânia continua a ser motivo para aceso debate, é um facto incontestável que, em boa parte, este país coincide, em termos bioclimáticos, com a estepe pôntica, nome por que é conhecido o vasto território plano a norte do Mar Negro (o Euxeinos Pontos ou Ponto Euxino dos gregos – daí o adjectivo “pôntico”), coberto por pradarias, pontuado por pequenos bosques e árvores dispersas e sulcado por caudalosos rios que correm de noroeste para sudeste. Este território assistiu, nos últimos milhares de anos, a um incessante afluxo de povos nómadas, vindos do Cáucaso ou das estepes da Ásia Central, primeiro a pé e, depois, montados a cavalo. A atracção pela estepe pôntica era (e é) compreensível: o solo espesso, escuro e rico em matéria orgânica (que a pedologia designa por chernozem, de “terra negra”, em russo) é fértil, o clima é moderado pela proximidade do Mar Negro e abundava a erva necessária ao sustento dos cavalos e do gado dos nómadas. A estepe prolonga-se para oriente por milhares de quilómetros, até à Manchúria, ainda que com solos progressivamente menos férteis e clima progressivamente menos húmido e com maiores amplitudes térmicas, por vezes dando lugar a zonas desérticas. Esta imensa extensão relativamente desprovida de obstáculos explica a relativa facilidade com que os povos da Ásia Central se movimentaram até às portas da Europa, supõe-se que impelidas por conflitos entre tribos, sobrepopulação e alterações no clima (note-se que as migrações em sentido oposto foram, todavia, raras).
Por vezes, emprega-se o termo “estepe pôntico-cáspica”, de forma a explicitar a inclusão da estepe que se desenvolve a norte e a oeste do Mar Cáspio, uma vez que as características biofísicas desta última são semelhantes (ainda que mais seca e com Inverno mais rigoroso) e tenha sido frequente que as civilizações da região a norte do Mar Negro se estendessem até à orla do Cáspio.

Ascensão e queda dos citas
Um dos mais famosos desses pastores nómadas montados a cavalo vindos de leste foram os citas (também conhecidos como “citas pônticos”), pelo que não é de estranhar que Marcus van Boxhorn tenha visto neles a génese do proto-indo-europeu.
Como outros povos da Ásia Central que migraram para a estepe pôntica, os citas terão sido impelidos por alterações climáticas que tornaram a sua região de origem mais seca e fria, ou por conflitos com outros povos de pastores nómadas. Quando os citas chegaram à região de estepes a norte do Mar Cáspio e do Mar Negro, nos séculos IX-VIII a.C., expulsaram da região outros pastores nómadas da Ásia Central que aí se tinham instalado – os cimérios na estepe do Mar Cáspio e os agathyrsi na estepe do Mar Negro. Face à pressão dos citas, os primeiros reinstalaram-se na Trácia (território hoje na Macedónia do Norte e na Bulgária), na Frígia (hoje na Turquia) e a sudoeste do Mar Cáucaso (hoje território iraniano); os segundos reinstalaram-se na Transilvânia (hoje Roménia e Hungria).


Os citas, que eram cavaleiros e arqueiros hábeis (o seu nome provém da palavra cita para “arqueiro”), atingiram o seu apogeu no início do século IV a.C. e as jóias em cobre, bronze e ouro que foram encontrados nos túmulos dos seus reis e nobres atestam um superior domínio da metalurgia e um requintado sentido estético. Porém, acabaram por ter destino análogo ao dos seus antecessores: foram derrotados por nova onda de pastores nómadas montados a cavalo provenientes da Ásia Central e com notáveis dotes para a guerra de movimento e para o manuseio do arco, que tinham sido expulsos do seu território ancestral: os sármatas. A prevalência dos sármatas, que chegaram à região no século IV a.C., foi facilitado pelas derrotas militares que os citas sofreram a ocidente, às mãos dos getai da Trácia, dos bastarni dos Cárpatos e dos macedónios comandados por Filipe II (pai de Alexandre O Grande). O colapso do reino cita foi muito rápido e, no século III a.C., o território antes conhecido como Cítia passou a ser designado por Sarmácia Europeia – para a distinguir da Sarmácia Asiática, situada no Cáucaso. A abrupta desaparição dos citas da história pouco tem de misterioso: não foram exterminados nem migraram para paragens remotas, simplesmente diluíram-se nos sármatas, uma vez que tinham com estes fortes afinidades étnicas e culturais.

Lugar certo, tempo errado
A “hipótese cita” de Marcus van Boxhorn enfermava de uma falha, perfeitamente compreensível face ao estado do conhecimento no seu tempo: é certo que o presente conhecimento científico indica que o proto-indo-europeu terá emergido na estepe pôntica e num povo de pastores nómadas originários da Ásia Central que montavam a cavalo, só que isso terá ocorrido por volta de 4500-2500 a.C., ou seja, muitos séculos antes do desenvolvimento da civilização cita, ou até dos seus antecessores cimérios e agathyrsi. Esta teoria foi inicialmente formulada pela arqueóloga lituana Marija Gimbutas, em 1956, e é conhecida como “hipótese kurgan”. Segundo ela, os primeiros falantes de proto-indo-europeu pertenceram, provavelmente, à cultura yamnaya (por vezes conhecida como “yamna”), designação que provém da palavra russa “yamna” (fossa, cova). A marca mais conspícua deixada pela cultura yamnaya foram milhares de kurgan, isto é, montes de terra – por vezes com a dimensão de pequenas colinas – erguidos sobre um túmulo, geralmente consistindo num pequeno espaço cavado, contendo um único sepultamento, acompanhado por armas, recipientes e outros utensílios e objectos pessoais e por sacrifícios animais. Dada a planura monótona da estepe pôntica, os maiores kurgan continuam a destacar-se na paisagem, mesmo depois de milhares de anos de erosão e de movimentação de solos para fins agrícolas. Os artefactos metálicos encontrados nos kurgan dos yamnaya são apenas em cobre e bronze, pois, ao contrário dos seus sucessores cimérios, agathyrsi e citas ainda desconheciam a metalurgia do ferro.

Vários outros povos da estepe eurasiática erguerem kurgan antes e depois dos yamnaya, mas estes seguiam um ritual de inumação distinto: “os membros dessa cultura apresentaram variações em termos de estilo de olaria e metalurgia, e da sua dieta, mas […] o tratamento que davam aos mortos nunca mudava. Foi tão consistente que que houve quem sugerisse que estavam sujeitos a um código ideológico ou religioso estrito. De início, também eram extremamente homogéneos em termos genéticos. […] Mais tarde, depois de a população ter crescido, outros cromossomas Y entraram para a mistura, mas os primeiros da sua espécie [sic] devem ter estado estreitamente relacionados pelo lado paterno. Uma maneira de interpretar os indícios genéticos é pensar os yamnaya como um único clã ou irmandade que se distinguia pelo seu ritual funerário” (Spinney, pg. 81).

Das teorias científicas às “reflexões extraordinárias”
Spinney entra a seguir em terreno extremamente escorregadio quando sugere que os yamnaya “podem ter abandonado um grupo maior, ou sido expulsos dele […] Se foi isso que aconteceu, este raciocínio leva-nos a uma reflexão extraordinária: menos de cem pessoas podem ter falado o dialecto que deu origem a todas as línguas indo-europeias existentes” (pg. 81).
Uma coisa é, através de elaborados raciocínios dedutivos e de “educated guesses”, reconstruir, hipoteticamente, o vocabulário e a sintaxe do proto-indo-europeu, sugerir uma região aproximada e um período aproximado para a sua génese e associar essa língua, lugar e período histórico a uma determinada cultura; outra bem diferente é ter a temeridade de, a partir daí, saltar para algo tão preciso como o provável número de falantes iniciais de proto-indo-europeu. A primeira é uma hábil articulação de elementos da história, da paleogenética, da arqueologia e da linguística; a segunda é uma especulação gratuita e arbitrária. Spinney não revela como se chegou ao número de “menos de cem pessoas”, nem se este número provém de uma publicação científica ou se é uma estimativa sua – porque não 500, 1000 ou 10.000 pessoas? Não será de considerar que a amostragem disponível de restos de yamnaya mais antigos poderá não ser representativa? Não será plausível que os yamnaya que foram sepultados nos túmulos maiores – e, logo, mais susceptíveis de resistirem ao desgaste dos agentes naturais e das acções humanas e de terem sido descobertos e estudados pelos arqueólogos – correspondam, não a uma amostra aleatória do povo yamnaya, mas à classe governante? Se o poder transita de pais para filhos e se os casamentos se fazem entre as elites, é natural que os governantes estejam “estreitamente relacionados pelo lado paterno”. A escassa diversidade genética entre a realeza – com casos extremos como os Habsburg e a dinastia Ptolemaica do Egipto – é um facto bem conhecido, quanto mais não seja por ter produzido um apreciável número de monarcas congenitamente enfermiços e/ou atoleimados.
À distância de mais de 5000 anos, é possível estimar aproximadamente o número de habitantes de um povoado bem preservado. Já calcular o número de habitantes de um reino, mesmo que possuindo limites bem definidos, comporta uma enorme margem de erro, mesmo quando já existem registo escritos. Se se tratar – como é o caso – de estimar a dimensão de um povo nómada pré-histórico que habitou um território de limites imprecisos e que se estende por quase um milhão de quilómetros quadrados (mais de dez vezes a área de Portugal) e o partilhou com outros povos nómadas com características similares, entramos no domínio da pura adivinhação.

Basta considerar que mesmo depois da invenção da escrita, da aparição de civilizações dotadas de burocracias estatais sofisticadas e da emergência da “profissão” de cronista e de historiador (ainda que este não se regesse pelos critérios historiográficos modernos), o nosso conhecimento quantitativo do passado é muito nebuloso. As diferentes estimativas para o número de combatentes envolvidos nas mais célebres e documentadas batalhas da Antiguidade Clássica chegam a variar na razão de 1:10, e no que respeita às baixas ocorridas as oscilações são ainda maiores; nalguns casos, a data e o local preciso da batalha continuam a ser acesamente debatidos. Também há dúvidas sobre o período de reinado de muitos monarcas que constam nas crónicas oficiais de antigos reinos e impérios, e até sobre a existência real de alguns deles. O que sabemos de factual sobre figuras tão fulcrais e célebres como Zoroastro, Homero, Licurgo, Siddhartha Gautama, Jesus, ou o Rei Artur é tão escasso, vago e pouco fidedigno que é possível que não passem de uma construção tardia e instrumental, que amalgama personagens distintas e episódios de diversas fontes, geografias e tempos.

Os avanços na extracção e sequenciação de DNA de tecidos biológico antigos têm permitido fazer descobertas notáveis e rever o nosso conhecimento da História, mas também têm fomentado a proliferação de conjecturas temerárias, generalizações abusivas, teorias mirabolantes e proclamações bombásticas, que tendem a ser reproduzidas acriticamente pelos media e conferem notoriedade aos seus autores, o que não só conforta o seu ego como facilita a captação de financiamento para projectos de investigação.
Mais um surto especulativo
Na pg. 86, Spinney brinda-nos com mais uma “reflexão extraordinária”: “os yamnaya não escreveram a sua língua, mas podem ter estado perto de o fazerem”. Spinney não invoca qualquer prova, indício ou argumento em favor desta conjectura, nem esclarece se ela brotou da sua mente, se é uma tese aceite na comunidade científica, ou se há sequer um investigador que a subscreva.
É uma afirmação que, além de ser extensível a todos os povos que desconheciam a escrita, abre um campo ilimitado para a “história alternativa”: os sumérios podem ter estado perto de inventar a caneta de tinta permanente; os acádios podem ter estado perto de inventar o autoclismo; os hititas podem ter estado perto de inventar o baseball e (não menos importante!) o boné de baseball; os assírios podem ter estado perto de inventar a gravata; os caldeus podem ter estado perto de inventar o relógio de cuco; os fenícios podem ter estado perto de fundar a primeira business school; os gregos podem ter estado perto de criar o primeiro Club Med; os incas podem ter estado perto de inventar o parapente; se os romanos tivessem tomates, poderiam ter inventado a pizza; se os mongóis vivessem perto do mar poderiam ter inventado o surf; e se os aztecas conhecessem o cavalo poderiam ter inventado, de uma penada, a dressage, as corridas de cavalos e as apostas sobre resultados das corridas de cavalos.

O excipiente jornalístico
Outra opção discutível de Proto é a adopção, em algumas partes do livro, de um registo que entremeia a apresentação de informação pertinente com “apontamentos de reportagem”, em que a autora visita sítios arqueológicos e fala com investigadores, o que dá origem a trechos com descrições e comentários espúrios sobre 1) circunstâncias efémeras e acções irrelevantes (por vezes narradas em tom folhetinesco) e 2) a aparência, postura, comportamento e história de vida das pessoas com quem se cruza.
Na primeira categoria temos, por exemplo: “Vladimir Slavchev avança com o carro por entre os edifícios indefiníveis de uma zona industrial e estaciona junto de um portão enferrujado. Para lá dele, uma extensão de terra deserta desce em direcção ao Lago Varna, a sul” (pg. 53); “Natalia Shishlina e eu erguemos os joelhos bem altos enquanto avançávamos pela erva. À nossa frente, Idris Irisov, geógrafo, está a fazer o mesmo. Estamos em Julho de 2023 e cerca das nove da manhã e a temperatura já ultrapassa os 30º C na estepe da Rússia meridional” (pg.76); “Fora da sala com lambrins de madeira, as pessoas aproveitavam ao máximo um Verão de São Martinho, nadando nos canais invejavelmente limpos da cidade holandesa [de Leiden] ou bebendo cervejas ao sol” (pg. 116); “‘São arqueólogos?’, perguntei a um casal de americanos sentado na mesa ao lado, no restaurante do hotel de Boğazkale [na Turquia], e que, tal como eu se estavam a deliciar com um meze [análogo levantino das tapas espanholas] ao meio-dia. […] ‘Sim’, responderam rindo, ‘nota-se assim tanto?’” (pg. 252); “A pulsação de Harald Ringbauer acelerou. Conferiu o diagrama de novo, mas não havia erros: os dois indivíduos eram parentes” (pg. 147).
Eis alguns exemplos da segunda categoria: “[Slavchev] é um homem atarracado, com um sorriso fácil e um rabo-de-cavalo castanho hirsuto eivado de cabelos grisalhos, que tem o ar imperturbável de alguém que opera em períodos de tempo milenares” (pg. 55); Slavchev identifica um osso “com um sorriso de orelha a orelha” (pg. 56); numa vala do campo arqueológico de Varna há um “homem alegre e de rosto corado” que manuseia uma pá (pg. 56); “Jane lembra o seu primeiro encontro com Marija Gimbutas, numa conferência […]: ‘Era muito elegante e tinha um maravilhoso cabelo ruivo. Envergava um belo vestido verde e estava a falar de indo-europeus’” (pg. 110); “Reich tem qualquer coisa de chaplinesco. Minúsculo, flexível (é frequente empoleirar-se de pernas cruzadas quando está a ouvir os outros), apresenta ao mundo uma máscara atenta até que, de quando em vez, uma emoção brota e a põe de lado” (pg. 115); “Gray, um neozelandês com olhos azuis brilhantes e um gosto por camisas coloridas, tem sentido de humor – intitula-se ‘amante de árvores’ – e não desanima facilmente” (pg. 120).
Estes trechos não são mais do que excipiente, material inerte, que não acrescenta um bit de informação ou de clareza à história que Spinney se propôs contar, mas que, no meio jornalístico anglo-saxónico, se crê ser indispensável para “humanizar” as histórias e prender a atenção do leitor, que é, supostamente, incapaz de concentrar-se em assuntos “sérios” durante mais do que alguns parágrafos, pelo que é recomendável que se polvilhe o texto com elementos anedóticos, episódios comezinhos, personagens pitorescas, “conversa de elevador” e até expedientes narrativos dignos de thriller de aeroporto (é o caso do trecho da pg. 147 acima referido). Estas frioleiras e distracções podem não fazer mossa em artigos sobre “lifestyle” e em livros sobre “desenvolvimento pessoal”, mindfulness e viagens de autodescoberta à Índia, mas quem se dispõe a ler um livro como Proto pretende realmente aprender alguma coisa sobre a origem e evolução das línguas indo-europeias, não sobre o cabelo de um arqueólogo especializado em culturas pré-históricas da Ucrânia ou sobre o tempo que fazia num dia particular de Julho de 2023, algures na estepe da Rússia meridional. Nalgumas ocasiões, o registo “apontamento de reportagem” serve para apresentar investigadores em cuja boca Spinney coloca informação relevante para a sua linha argumentativa; outras vezes, o “apontamento de reportagem” irrompe de forma abrupta e despropositada, dando a impressão de que a autora simplesmente entendeu que era altura de criar um momento de “descontracção”.
A grande quantidade de informação que Spinney coligiu sobre os mais recentes desenvolvimentos na elucidação da origem do proto-indo-europeu e dos prováveis processos e rotas da sua diferenciação noutras línguas faz de Proto uma leitura proveitosa, mas o livro seria bem mais sólido e congruente se um editor tivesse imposto à autora a supressão de excrescências e distracções – resta saber se, no estado actual das coisas, não são os editores a sugerir aos autores que adicionem excipiente, corantes e edulcorantes para tornar os livros mais “leves” e “acessíveis”.
A língua que se espalhou a galope
Deve notar-se que embora os dados mais recentes apoiem a “hipótese kurgan”, que coloca a origem do proto-indo-europeu na cultura yamnaya da estepe ucraniana c. 4500-2500 a.C., esta compete com outras hipóteses, sendo as mais correntes as assim sintetizadas por Andrew Dalby em Dictionary of languages (1998, ed. rev. 2004): “O arqueólogo Colin Renfrew identifica o proto-indo-europeu com os primeiros agricultores neolíticos do centro da Ásia Menor [mais precisamente nas terras altas da Arménia] entre 7000 e 6000 a.C. Tomas Gamkrelidze e Vyacheslav Ivanov argumentam, para uma origem igualmente precoce na Arménia, seguida de migração para a Ucrânia, que, depois, se tornou, num ‘berço’ secundário e num foco de dispersão para os falantes dos primeiros dialectos indo-europeus. Robert Drews também aponta a Arménia, mas numa data bem mais tardia, de 1700 a.C., quando uma elite conduzindo carros de guerra terá espalhado as línguas indo-europeias pelo sul da Europa e pelo sul da Ásia”. Estes pontos de vista alternativos, que já eram minoritários no final do século XX, têm, entretanto, vindo a perder ainda mais defensores, em favor da “hipótese kurgan”.
No que quase todas as teorias de origem e difusão do indo-europeu estão de acordo é na sua vinculação ao cavalo e, mais especificamente, a guerreiros montados a cavalo ou até conduzindo carros de guerra puxados por cavalos. Os sacrifícios de cavalos faziam parte dos ritos funerários dos yamnaya (ainda que sendo menos frequentes do que os sacrifícios de ovelhas e cabras) e tornaram-se ainda mais disseminados nos ritos dos povos da Idade do Bronze de língua indo-europeia.

Spinney dá o exemplo da cultura Sintashta, na parte meridional dos Montes Urais, e o ritual ashvamedha associado à religião védica da Índia (pg. 193-94) e menciona tradições sacrificiais similares entre celtas, germanos, arménios e persas e dá relevo (na pg. 218) ao Equus October (Cavalo de Outubro), um ritual romano executado a 15 de Outubro, em que se sacrificava ao deus Marte o cavalo do lado direito da parelha que puxava a biga vencedora de uma competição realizada nesse dia no Campo de Marte. Alguns historiadores defendem que o padrão de dispersão destes sacrifícios de cavalos sugere uma prática com origem na sociedade proto-indo-europeia.
O cavalo e o carro de guerra puxado por cavalos – cujos primeiros exemplares surgiram na cultura Sintashta – não só parecem ter sido centrais na sociedade proto-indo-europeia, como poderão explicar um enigma que há muito ocupa os filólogos: por que razão as línguas descendentes do proto-indo-europeu conseguiram prevalecer sobre todas as outras línguas e, em pouco tempo, dominar boa parte da Eurásia, da Península Ibérica e das Ilhas Britânicas e da Escandinávia até ao Cáucaso, à Pérsia e ao norte da Índia?

O antropólogo David W. Anthony defendeu, no livro de 2007 The horse, the wheel, and language: How Bronze Age riders from the Eurasian steppes shaped the modern world (“O cavalo, a roda e a língua: Como os cavaleiros da Idade do Bronze das estepes eurasiáticas moldaram o mundo moderno”), o que designa como “a teoria kurgan revista”, em que parte das ideias de Marija Gimbutas e postula que a domesticação do cavalo, a invenção da roda (e, subsequentemente, do carro de guerra) e o domínio da metalurgia do bronze deram às sociedades da estepe pôntica – a yamnaya e as que dela descenderam – uma vantagem competitiva que se tornou manifesta quando, por volta, de 3500-3000 a.C., alterações no clima da estepe pôntica as induziram à migração.
Os arqueiros a cavalo e os carros de guerra foram as forças decisivas nas batalhas da Idade do Bronze e só a partir de c.1000 a.C. começaram a surgir unidades de infantaria, equipadas com lanças longas, capazes de lhes fazer frente – um processo que se consolidaria a partir de c.500 a.C. e que teria o seu expoente nas falanges gregas e legiões romanas, unidades altamente treinadas e disciplinadas. Mas, por esta altura, já a maior parte da Eurásia falava línguas indo-europeias e a supremacia destas não viria a ser disputada até aos nossos dias – apenas quatro excepções a quebram: uma é a língua basca, que é, provavelmente, a única sobrevivente das línguas faladas na Europa antes da “invasão” indo-europeia; as outras são o húngaro, o finlandês e o estónio, da família linguística urálica, que resultaram de migrações vindas de leste posteriores à “invasão” indo-europeia.
Note-se que o domínio quase absoluto das línguas indo-europeias na Europa não implica necessariamente que tenha havido uma substituição populacional, pois a história tem mostrado que uma língua pode impor-se numa região sem que a matriz genética dos seus habitantes seja substancialmente alterada – por exemplo, o latim tornou-se na matriz das línguas faladas na Península Ibérica, na França e na Roménia, sem que os povos da Península Itálica tenham substituído os povos dessas paragens.
Bandos de predadores a monte
Spinney afirma que nos mitos de criação dos indo-europeus há dois importantes temas que poderão estar associados a instituições sociais dos yamnaya que terão sido forjadas no modo de vida nómada nas estepes asiáticas: “a justificação moral das incursões e a irmandade” (pg. 96). Estas instituições “ocupam um lugar central em todas as mitologias indo-europeias posteriores” e são manifestas, por exemplo, nas tradições germânica, irlandesa e romana – nesta última, “a irmandade tomou como símbolo o lobo migrante e predador […] e estava associada a nudez, promiscuidade e guerra”. Nestas tradições indo-europeias, “depois de deixarem o lar dos pais, esses jovens morriam aos olhos da sociedade e tornavam-se fora-da-lei. […] Após sete anos de caçadas e incursões nos ermos, regressavam para ocuparem os seus lugares na sociedade como homens casados e guerreiros. Tinham renascido. […] Os rapazes cresciam juntos, eram iniciados juntos como guerreiros, casavam e tornavam-se sábios grisalhos juntos. […] Nessas sociedades, eram esses filhos da mesma idade, esses gémeos simbólicos que, como adolescentes que aspiravam a ser guerreiros, [que] eram responsáveis pela maior parte das incursões. Eles alargavam as fronteiras territoriais” (pg. 96-97).

Na pg. 175, Spinney fornece mais detalhes sobre esta tradição, embora não seja claro se se refere aos yamnaya ou às culturas deles emanadas, nomeadamente a “cultura da cerâmica cordada”, que se difundiu entre os Montes Urais e a Escandinávia, a partir de 3000 a.C., e a “cultura do vaso campaniforme”, que se difundiu entre o Báltico e a Península Ibérica, a partir de 2800 a.C. Escreve Spinney: “Começavam na infância. A partir de cerca dos sete anos, os rapazes eram dados para adopção. […] Embora as mulheres se mudassem para casa dos maridos, os seus filhos costumavam ser mandados para os seus parentes, em geral um dos seus irmãos. Um rapaz podia receber treino militar proporcionado pelo seu pai/tio adoptivo, de quem por vezes era mais próximo do que do pai biológico. […] Quando chegavam perto dos 14 anos, os rapazes que haviam nascido na elite dirigiam-se para lugares ermos para provarem o seu valor, regressando aos 21 anos para ocuparem o seu lugar na sociedade”.

Desde o início do século XX que os especialistas em estudos indo-europeus têm especulado em torno da existência, entre os povos indo-europeus da Idade do Bronze, de uma instituição conhecida pelo termo alemão “Männerbunde”, em que os adolescentes abandonariam os seus núcleos familiares para constituírem bandos que demandariam outras paragens e viveriam da pilhagem e da caça e só regressariam às comunidades de origem quando atingiam a maioridade e tinham provado o seu valor como guerreiros. A designação “Männerbunde” é equívoca, uma vez que os seus membros eram, não homens (“Männer”), mas rapazes; têm sido propostas designações alternativas, como “Jugendbünde” (grupo de jovens) ou “Bruderschaft” (irmandade), mas, contra a lógica, “Männerbunde” tem prevalecido. Como sinónimo emprega-se também *kóryos, palavra proto-indo-europeia para “bando armado” (o asterisco denota uma reconstrução, necessariamente hipotética, do vocabulário proto-indo-europeu).
Os trechos de Spinney acima citados assumem um tom assertivo, que contrasta com o muito pouco que se sabe sobre os *kóryos: não há certezas quanto às idades dos membros; à duração do afastamento dos bandos em relação às comunidades originais (há quem sugira que não duraria anos, sendo antes sazonal); ao período histórico e às culturas em que teriam vigorado; às leis do bando (que seriam, provavelmente, muito diferentes das leis da tribo); aos seus ritos de passagem (que envolveriam, provavelmente, provações dolorosas e actos cruéis); à sua eventual identificação com lobos e cães (há vestígios pontuais de sacrifícios rituais de ambos, mas não há forma de provar que tenham estado associados aos *kóryos). Finalmente, também paira grande dúvida sobre o papel dos *kóryos na difusão dos povos indo-europeus a partir da estepe pôntica: há quem sugira que os *kóryos funcionariam como guarda avançada, explorando novos territórios e estabelecendo novos acampamentos que precederiam a migração de toda uma comunidade; outros defendem que os rapazes não regressavam às comunidades de origem, antes tomavam mulheres (a bem ou a mal) nos territórios distantes que tinham alcançado. É certo que na Idade do Ferro, com o desenvolvimento de entidades políticas estruturadas e hierarquizadas, a concentração da população em povoados e cidades fortificadas e a constituição de exércitos regulares às ordens de monarcas ou potentados locais, a margem de manobra para bandos de adolescentes fora-da-lei seria bem mais limitada, mas os *kóryos não são incongruentes com o povoamento esparso e a natureza incipiente das entidades políticas eurasiáticas da Idade do Bronze.
Não existem provas minimamente sólidas sobre a natureza e funcionamento dos *kóryos (como seria de esperar, dado que estes precedem a invenção e adopção generalizada da escrita), mas esta limitação, longe de desencorajar a comunidade dos estudos indo-europeus, tem propiciado a multiplicação das mais variadas, minuciosas e imaginativas especulações. A ideia de grupos de jovens rufias seminus, de longos cabelos desgrenhados, que vagueiam pela natureza, não reconhecem qualquer autoridade e levam uma vida aventurosa e desregrada, preenchida por escaramuças, pilhagens, vandalismo, embriaguez e sexo, parece excitar sobremaneira a imaginação de circunspectos académicos de meia-idade, cuja vida não conhece um pico de adrenalina desde que prestaram as provas de agregação.

“Boys will be boys”
Ao longo de Proto, Spinney dá particular atenção aos raciocínios envolvidos na reconstrução do proto-indo-europeu através de um astucioso processo de “retro-engenharia” (“reverse engineering”); às afinidades, mais evidentes ou mais retorcidas, que atestam a raiz comum de línguas indo-europeias; ao que o vocabulário do proto-indo-europeu e das línguas dele derivadas nos revela sobre o local e modos de vida dos seus falantes; e à profunda imbricação entre a língua, a cultura e a mundividência dos seus falantes.
Curiosamente, Spinney nada diz sobre uma pista linguística que estabelece um vínculo sólido entre adolescentes e bandos de salteadores sem lei: a palavra portuguesa e espanhola “rapaz” provém do latim “rapax” (rapace), que deriva do verbo latino “rapere” (roubar, levar com recurso a violência, tomar pela força, pilhar), que, por sua vez, está ligada ao proto-indo-europeu “*rep” (com o mesmo significado). Do latim “rapere” provêm também as palavras “rapace”, “rapto” e “rapina” em português e suas derivadas (e as suas análogas nas línguas itálicas) e “rape” (violação) em inglês. Em espanhol, “rapaz” tem o duplo significado de jovem do sexo masculino e de ave de rapina; em português, “rapaz” já teve também o significado de “rapinante” ou de “alguém com o hábito de roubar”, mas este uso é hoje muito pouco frequente. É tentador atribuir à palavra italiana “ragazzo” a mesma origem que “rapaz”, mas aquela parece provir do árabe magrebino “raqqās” (mensageiro, correio, rapaz que faz entregas ou transmite recados), pelo que a semelhança será meramente acidental. O latim “rapere” deu também origem a “rapidus” – a impetuosidade e brusquidão do acto de arrebatar tornaram-se no sentido dominante e perdeu-se o sentido de roubo pela força implícito nesse acto; “rapidus” está na origem do português “rápido” e das palavras análogas nas línguas itálicas e em inglês e alemão.
A aceitação tácita de que os rapazes se comportem de forma ruidosa, agressiva, desordeira, estouvada, insensata, irresponsável ou temerária e desprezem ou infrinjam as regras da sociedade é antiga e não é implausível que remonte aos *kóryos da Idade do Bronze. Essa atitude permissiva sobreviveu na expressão inglesa “boys will be boys”, que veicula a ideia de que “sempre foi assim, faz parte da natureza masculina e não vem daí grande mal ao mundo”.
A crescente burocratização e regulamentação das sociedades desenvolvidas foi diminuindo a tolerância para com comportamentos erráticos e arbitrários e, no século XXI, a disseminação do conceito de “masculinidade tóxica” e as invectivas contra o “cis-heteropatriarcado”, vindas dos sectores feministas e do movimento woke, não só fizeram desaparecer a benevolência implicada na expressão “boys will be boys”, como imputaram aos homens uma constelação de características negativas, inatas e não susceptíveis de correcção. Mas essa tendência, tal como a reacção em prol da reabilitação da masculinidade “tradicional” é outro assunto.

A força das armas impõe línguas?
A hipótese de a ampla difusão das línguas-europeias ter assentado na superioridade bélica dos yamnaya e seus descendentes, associada à tríade cavalo + carro de guerra + armas de do bronze, talvez nunca chegue a ser comprovada. A verdade é que a superioridade militar e a conquista do território não implicam que os habitantes deste irão adoptar a língua dos conquistadores. Em Empires of the word: A language history of the world (2005), Nicholas Ostler lembra que a conquista de todo o Império Romano do Ocidente por povos germânicos no século V d.C., “embora tenha alterado profundamente os governantes, deixou a França, a Espanha [entenda-se: a Península Ibérica] e a Itália setentrional a falar variantes de latim e continuam a fazê-lo até hoje” (pg. 12).
O Império Neo-Assírio (911-609 a.C.), que dominou o Levante, o Egipto e parte do Médio Oriente, não só não impôs aos povos conquistados a sua língua, o acádio – limitava-se a empregá-lo nos documentos oficiais da administração –, como permitiu que o aramaico, uma língua originária da Síria, se fosse difundindo por todo o império como língua vernácula e acabasse mesmo por suplantar o acádio no território natal dos assírios e por ser reconhecida como língua oficial do Estado, a par do acádio.

Os exemplos podem ser multiplicados: das numerosas colónias gregas nas costas e ilhas do Mediterrâneo e do Mar Negro e do vastíssimo império de Alexandre o Grande e dos seus sucessores, que ia do Egipto ao que é hoje o Afeganistão, resta hoje uma extraordinária profusão de ruínas e vestígios arqueológicos, mas o grego apenas é língua oficial na Grécia e em Chipre e possui pequenos núcleos residuais de falantes na Calábria e na Apúlia (sul de Itália), nalgumas aldeias em torno de Mariupol (sul da Ucrânia) e nalguns pontos do litoral turco do Mar Negro onde ainda vivem gregos étnicos.
O Império Otomano dominou o Levante, o Médio Oriente, o Norte de África, os Balcãs, o sul da Ucrânia e parte do Cáucaso durante séculos, mas hoje o turco só se fala na Turquia e em Chipre e, residualmente, nalgumas regiões dos Balcãs onde vivem minorias étnicas turcas (Kosovo e Macedónia do Norte). Há 110-115 milhões de falantes de línguas aparentadas com o turco – ditas turcomanas – na Ásia Central (Uzbequistão, Cazaquistão, Quirguistão e região autónoma de Xinjiang, na China) e no Cáucaso (Azerbaijão), mas essas regiões nunca estiveram sob domínio otomano (com a excepção, fugaz, de parte do Azerbaijão).

Por outro lado, nas Américas e na Austrália, onde existia uma enorme diversidade de línguas, a conquista europeia, apoiada na superioridade militar e secundada pela conversão religiosa forçada, cilindrou quase toda a riquíssima diversidade linguística existente e deixou os habitantes destes vastos território a falar apenas três línguas indo-europeias – inglês, espanhol e português.
Epílogo: a estepe pôntica em 2026
Na Eurásia, o Império Russo e o seu sucessor, o Império Soviético, conseguiram dilatar os domínios da língua russa até ao Extremo Oriente, tirando partido do facto de a Sibéria e outras partes da Ásia serem esparsamente povoadas e não terem desenvolvido entidades políticas fortes. Porém, nos territórios russos/soviéticos do Báltico, do Cáucaso e da Ásia Central, os respectivos povos não aceitaram de bom grado a imposição da língua russa e repeliram-na assim que readquiriram a independência, em 1990-91.

A Ucrânia começou a ficar sob a esfera de influência de Moscovo em 1654, quando, pelo Tratado de Pereiaslav, o Hetmanato Cossaco se submeteu ao Czarado de Moscovo; este foi alargando a seu domínio nas décadas seguintes e acabou por abocanhar outro naco substancial de território ucraniano em 1772, quando da “primeira partição” da declinante Comunidade Polaco-Lituana; a conquista da Ucrânia concluiu-se em 1783, com a anexação da Crimeia (ver De Kharkiv a Mariupol: Como foram formadas as cidades que contam a história da Ucrânia e A Rússia e o sonho imperial pt. 1: Das origens às vésperas da Revolução de Outubro).

O Império Russo empenhou-se na russificação da Ucrânia, proibindo o uso da língua ucraniana nas escolas e nas relações com o Estado, impondo o ensino da língua russa e promovendo a instalação de russos étnicos no território, políticas que foram prosseguidas pelo Império Soviético, ainda com maior assertividade e brutalidade, e que também foram aplicadas noutros territórios com línguas e culturas muito distintas da russa, como os Estados Bálticos. Os tártaros (cuja língua pertence à família turcomana) tinham representado parte apreciável da população do sul da Ucrânia e, em particular, da Crimeia, mas a Rússia/URSS foi promovendo a sua expulsão e diluição, processo que culminou da deportação dos tártaros da Crimeia para regiões inóspitas da Ásia Central, ordenada em 1944 por Stalin. Num colossal projecto estatal de engenharia demográfica, a Rússia/URSS foi preenchendo o território esvaziado pelos tártaros com russos étnicos, que também começaram a instalar-se no Donbas (Donetsk + Luhansk), no leste da Ucrânia, a partir do momento em que, no final do século XIX, se descobriu que esta região era riquíssima em carvão e minérios (ver capítulo “Pomos de discórdia: Crimeia e Donbas” em A Rússia e o sonho imperial pt. 2: Da Revolução de Outubro ao presente).
Quando a Ucrânia se tornou independente, em 1991, tomou, tal como os Estados Bálticos, medidas enérgicas para reverter a russificação: fez do ucraniano a língua oficial e restringiu ou interditou o uso do russo no ensino e nas relações com o Estado. Este movimento de reversão poderá, à data, não ter incomodado o apagado ex-oficial do KGB Vladimir Putin, que tentava singrar como assessor do presidente da câmara de São Petersburgo; mas inflamou o presidente Vladimir Putin de 2005, recém-seduzido pelas ideias grandiloquentes do nacionalismo russo, que começava a olhar a desagregação do URSS e a desrussificação dos estados “secessionistas” como uma afronta e uma ameaça existencial à ideia da Grande Rússia.
Em 2014, Putin já estava suficientemente impregnado pelo nacionalismo russo para ver no facto de mais de 80% dos habitantes da Crimeia falarem russo razão suficiente para a anexação da península. Quase em simultâneo, começava no Donbas uma guerra civil em que os separatistas, instigados, financiados, equipados, treinados e assessorados pela Rússia, lutavam para deixar a Ucrânia e integrarem-se na Rússia, aspiração legitimada, aos olhos dos nacionalistas russos, pelo facto de 75% dos habitantes de Donetsk e 69% dos habitantes de Luhansk falarem russo (embora a percentagem de russos étnicos no Donbas se fique por 38-39%). Após oito anos de impasse no Donbas, Putin ordenou, em Fevereiro de 2022, a invasão geral da Ucrânia. Um mês antes, afirmara, num discurso, que “a dissolução da URSS foi a maior catástrofe geopolítica do século XX. Para o povo russo, foi uma verdadeira tragédia. Dezenas de milhões dos nossos cidadãos viram-se relegados para o exterior das fronteiras da Rússia”.
Não pode dizer-se que Putin não tenha anunciado ao que vinha – na verdade, a sua ambição de “fazer a Rússia grande outra vez” tinha vindo a tornar-se evidente já há algum tempo; Spinney lembra, por exemplo, na pg. 273, que, “em 2012, [Putin] publicou um ensaio em que afirmava, de forma explícita, que o seu objectivo era reunir uma pretensa antiga esfera russófona” (ver A Rússia e o sonho imperial pt. 3: Quem foram os professores de História de Putin?).
Spinney denuncia os equívocos do nacionalismo de Putin e menciona a importância desproporcionada que os nacionalistas russos conferem a Arkaim, a principal estação arqueológica da cultura sintashta, que floresceu, por volta de 2200-1900 a.C., nos Montes Urais (a cordilheira que, usualmente, se considera separar a Europa da Ásia).

Os especialistas consideram provável que a cultura sintashta tenha sido a inventora do carro de guerra e o foco de difusão das línguas indo-iranianas, mas os nacionalistas russos vão bem mais longe: vêem nela a “pátria dos arianos”, o berço dos indo-europeus (que teriam supostamente migrado do Árctico) e fazem do modesto povoado fortificado de Arkaim um farol de cultura, um formidável centro civilizacional, ainda que a sua área total não ultrapasse 2000 m2. As mentes mais sobreaquecidas vêem em Arkaim a origem do conhecimento védico, a Asgard da mitologia nórdica e uma “Stonehenge russa” (ver capítulo “A descoberta de um passado glorioso” em (ver A Rússia e o sonho imperial pt. 3: Quem foram os professores de História de Putin?) e Spinney refere que, no início da década de 1990, “podia ver-se um cartaz à entrada da estação arqueológica onde se lia ‘Zaratustra nasceu aqui’” (pg. 273).
Estas elucubrações são refutadas pela maioria dos especialistas, que entendem que a cultura sintashta foi um foco secundário da difusão indo-europeia, resultante de uma remigração para leste de yamnaya da estepe pôntica, ou que foi um foco terciário, resultante de uma ramificação oriental da cultura da Cerâmica Cordada, ela mesma descendente da cultura yamnaya. Contudo, têm sido bem acolhidas pela academia russa e pelo Estado russo.

Spinney não refere, todavia, o elo provável entre as visões empoladas do nacionalismo russo sobre a cultura sintashta e a deriva de Putin em direcção à ideia da Rússia como nação crucial da história da humanidade, investida de uma missão messiânica. Em 2005, Putin, que, até então, tentara aproximar a Rússia ao Ocidente e que, suas intervenções públicas, raramente invocava a história para legitimar as suas decisões, visitou Arkaim e foi recebido e guiado pelo director da estação, o arqueólogo Gennady Zdanovich, um fervoroso crente das grandiloquentes teorias acima descritas. E foi a partir dessa visita que começaram a emergir nos discursos de Putin reiteradas referências à gloriosa história russa e à excepcionalidade da cultura e língua russas, num crescendo que, por volta de 2022, começou a assumir a forma de ensaios e de discursos/palestras.

No Ocidente, poucos levaram a sério estas perorações e continuaram a interpretar as palavras e actos de Putin apenas à luz de comezinhas considerações económicas e geopolíticas. A frouxa reacção da comunidade internacional à anexação da Crimeia incentivou Putin a assumir uma atitude cada vez mais imperial na condução da política externa, manifestando total desprezo pela ordem internacional baseada em regras. E, uma vez que os EUA, que, no pós-II Guerra Mundial, foram o principal obreiro dessa ordem, voltaram, em 2025, a ser governados por Donald Trump, que nutre indisfarçada admiração por autocratas e profundo desprezo por regras que interfiram com as suas venetas, não pode esperar-se que os EUA estejam empenhados em restaurar a ordem internacional.
Pelo contrário, a Administração Trump 2.0 adoptou, em termos de política externa, uma atitude de prepotência e arbitrariedade (ver Uma história da Gronelândia, de Erik o Vermelho a Donald o Laranja, em particular o capítulo “O tempo dos predadores”). Na mundividência rapace de Trump, os EUA têm direito a assumir o controlo de qualquer território que contenha recursos apetecíveis, permita cobrança de portagens ou se revista de algum tipo de importância geoestratégica. Em contrapartida, é provável que permita a Putin a prossecução do seu sonho de reintegrar na Rússia todos os territórios onde há falantes da língua russa – uma ambição análoga à de outro grande líder carismático, que entrou na vida política há cerca de 100 anos e cujo projecto de criar uma Grande Alemanha que abarcasse todos os territórios onde houvesse falantes de alemão e, já agora, todos os territórios com recursos vitais para a prossecução desse grandioso desígnio, foi a causa última da II Guerra Mundial.