(c) 2023 am|dev

(A) :: Um novo Orbán? Bulgária vai a votos e deve eleger primeiro-ministro pró-russo que já acusou a Ucrânia de prolongar a guerra

Um novo Orbán? Bulgária vai a votos e deve eleger primeiro-ministro pró-russo que já acusou a Ucrânia de prolongar a guerra

Ex-piloto convertido em político, Rumen Radev é o grande favorito para vencer as eleições búlgaras. Já criticou Zelensky e vê a Bulgária como um canal para melhorar as relações entre a UE e a Rússia.

José Carlos Duarte
text

O encontro foi muito tenso. Em Sófia, em julho de 2023, o Presidente ucraniano encontrou-se com o homólogo búlgaro da altura, Rumen Radev. Conhecido por ser uma das vozes mais críticas do apoio militar à Ucrânia na política da Bulgária, o antigo chefe de Estado búlgaro não diminuiu o tom das críticas quando se reuniu com Volodymyr Zelensky perante as câmaras de televisão: “Continuo a achar que este conflito não tem solução militar e mais armas não o vão resolver. Nós não podemos apenas pensar na Ucrânia, mas também como a guerra afeta a Europa”. O líder ucraniano ripostou: “A Rússia quer destruir a NATO e a União Europeia [UE], esse é o seu objetivo”.

É este ex-Presidente que confrontou Volodymyr Zelensky que é o grande favorito para ser o próximo primeiro-ministro da Bulgária, que vai a votos no domingo. Desde 2021, estas são as oitavas legislativas no país de 6,5 milhões de habitantes, que enfrenta um ciclo crónico de instabilidade política. Antigo piloto de caças soviéticos e antigo chefe de Estado com posições pró-russas (que renunciou ao cargo para se candidatar a primeiro-ministro), Rumen Radev está a tentar transmitir a imagem de que é o homem que vai consertar o sistema.

Corrupção, instabilidade, oligarcas e vendettas políticas constantes: a Bulgária chega às oitavas eleições em cinco anos mergulhada numa profunda crise na confiança da sua democracia. Neste contexto, Rumen Radev assumiu o protagonismo na política búlgara apresentando-se como um messias que pode acabar com o caos ao enfrentar os políticos de centro-direita pró-europeus. O Bulgária Progressista — partido criado há um mês e meio pelo antigo Presidente —, aparece à frente nas sondagens com cerca de 35% dos votos.

É um resultado bastante positivo para um partido recente numa cena política tão polarizada. Ainda assim, não deverá ser suficiente para uma maioria absoluta, a que correspondem 121 (de 240) lugares na Assembleia Nacional búlgara. Independentemente da solução governativa, Rumen Radev deverá ser o próximo primeiro-ministro da Bulgária. Será um novo rosto no Conselho Europeu e nas instituições europeias; um líder que nunca escondeu as suas posições pró-russas e as críticas às sanções aplicadas por Bruxelas.

Após a derrota do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, a UE terá de lidar com um político que nunca escondeu que ambiciona normalizar as relações entre Bruxelas e Moscovo — e isso poderá revelar-se um novo problema para o bloco comunitário. Num país que ainda vê a Rússia com alguma nostalgia, a mensagem pró-russa de Rumen Radev não está a afastar o eleitorado búlgaro, mesmo estando o país geograficamente próximo da Ucrânia.

Rússia e Bulgária. A independência, o bom aluno do Pacto de Varsóvia e a entrada na UE

Quando foi eleito Presidente em 2017, Rumen Radev deu uma entrevista a órgãos de comunicação social europeus. Na altura, a Rússia já tinha anexado a Crimeia e tinha desencadeado uma guerra com o recurso a milícias pró-russas no leste da Ucrânia — o que levou a UE a aplicar sanções. O antigo chefe de Estado já proclamava há nove anos que temia que a União Europeia “ficasse refém das sanções” aplicadas contra Moscovo, avisando que os “dois lados” ficariam a perder.

A invasão em larga escala de 2022 não alterou substancialmente a posição de Rumen Radev. Embora tenha condenado a Rússia, o antigo chefe de Estado continuou a considerar que não deveriam ter sido impostas sanções, preferindo que o conflito terminasse o mais brevemente possível, mesmo que isso significasse que a Ucrânia teria de ceder partes significativas do seu território. O ex-Presidente alegava que a Bulgária sempre dependeu fortemente de energia russa barata e que mantinha laços económicos e históricos profundos com a Rússia.

Contrariamente a muitos países da Europa de Leste, a Rússia continua a gozar de uma reputação globalmente positiva na Bulgária, apesar da guerra na Ucrânia. O país usa o alfabeto cirílico, a população é maioritariamente ortodoxa e os búlgaros são culturalmente próximos de Moscovo. Na memória coletiva, permanece viva a guerra pela independência em 1878, na qual a Rússia desempenhou um papel fundamental ao libertar o que hoje corresponde à Bulgária das amarras do Império Otomano. Através deste enquadramento, a Rússia é vista como uma potência libertadora e um contrapeso histórico à influência turca no sul dos Balcãs.

Enquanto país independente no século XX, a Bulgária participou nas duas guerras mundiais ao lado da Alemanha. Nas duas, acabou derrotada. A aproximação às potências da Europa Central nunca correu propriamente bem. Assim, quando o Exército Vermelho entrou em território búlgaro, encontrou uma população exausta, que passou a ver na União Soviética uma potência capaz de derrubar a monarquia búlgara — que nunca tinha trazido nem prosperidade, nem paz ao país.

No Pacto de Varsóvia, a Bulgária converteu-se no bom aluno de Moscovo, cumprindo diligentemente as orientações do Kremlin: apoiou a repressão da Revolução Húngara de 1956 e até enviou tropas para ajudar a esmagar a Primavera de Praga em 1968. Tanto assim foi que, nos anos 60, a direção do Partido Comunista Búlgaro chegou a propor a integração do país na própria União Soviética — algo que os líderes soviéticos acabaram por rejeitar.

Enquanto em Budapeste, Berlim ou Varsóvia se celebrou o fim da União Soviética, em Sófia houve algum alívio, mas também algum ceticismo. Apesar disso, o país converteu-se numa democracia parlamentar no início dos anos 90. Todor Zhivkov, o antigo líder comunista durante mais de três décadas, foi afastado do cargo, mas o novo sistema integrou grande parte dos altos quadros do antigo regime. Muitos deles criaram o Partido Socialista Búlgaro, uma das forças políticas responsáveis pela transição.

O processo de transição esteve longe de ser um êxito na Bulgária. A privatização rápida e pouco transparente da economia permitiu que antigos quadros do regime comunista acumulassem fortunas; transformaram-se em verdadeiros oligarcas e passaram a dominar a vida económica e política do país. A corrupção grassava e a qualidade de vida de muitos búlgaros deteriorou‑se em comparação com o período final do comunismo. Tal como os vizinhos romenos, os dirigentes da Bulgária viram na adesão à NATO e à União Europeia uma forma de consolidar a democracia e a liberalização económica.

A Bulgária entrou na União Europeia em 2007 e três anos antes na NATO. O país entrou no bloco ocidental — e, com isso, chegou um fluxo significativo de fundos comunitários. A qualidade de vida da população é certo que melhorou; ainda assim, muitos búlgaros foram percebendo que o dinheiro de Bruxelas foi usado para enriquecer as mesmas elites responsáveis pela transição. A corrupção não diminuiu significativamente com a entrada na UE.

GERB. O partido que liderou a Bulgária após a entrada na União Europeia

Desde 2009, a cena política búlgara tem sido dominada pelo GERB — o partido de centro-direita pró-europeu cujo acrónimo significa Cidadãos pelo Desenvolvimento Europeu da Bulgária. Liderado desde 2010 por Boyko Borisov, este homem tornou‑se o rosto mais marcante da política búlgara no pós‑adesão à UE. Visto pelos críticos como a personificação de um sistema oligárquico, o antigo autarca de Sófia entrou ao longo dos anos em sucessivos confrontos com o Presidente Rumen Radev.

Em 2026, o GERB continua a ser liderado por Boyko Borisov, que encabeça as listas da coligação em vários círculos eleitorais e permanece a principal figura desta força política, que pertence ao Partido Popular Europeu (a mesma família política do PSD e do CDS-PP). Embora não tenha declarado explicitamente que quer voltar a chefiar o Governo, é visto como o principal rosto da candidatura do GERB.

Apesar de ser um dos partidos do sistema que contribuiu para a rede de clientelismo na Bulgária, o GERB venceu várias eleições desde 2021 (apenas perdeu uma, na verdade). Contudo, nunca obteve mandatos suficientes para governar sozinho na Assembleia Nacional, optando por pactos governamentais, que foram sempre frágeis e de curta duração. Como força política mais votada, o partido enfrentou repetidamente a influência presidencial de Rumen Radev, que chegou à presidência em 2017 apoiado pelo Partido Socialista, de centro-esquerda.

Para muitos búlgaros, o GERB é hoje o símbolo de um sistema político que se degradou com a corrupção e a incapacidade de assegurar estabilidade. As sondagens apontam que o partido de centro‑direita deverá ter cerca de 20% dos votos, o que deverá colocá‑lo, a partir de 19 de abril, no papel de principal força da oposição. Este resultado modesto também ajuda a explicar a popularidade meteórica de Rumen Radev: foi este homem que antagonizou Boyko Borisov e que, ao longo dos últimos anos, travou ou condicionou várias iniciativas de governos ligados ao GERB.

Rumen Radev. O antigo piloto que sempre se opôs ao centro-direita

Nascido em 1963, Rumen Radev destacou‑se desde cedo como um aluno brilhante e seguiu carreira militar na Força Aérea da Bulgária. Formado ainda no período comunista, integrou a elite da aviação militar e ganhou notoriedade como piloto de caças soviéticos MiG‑29, chegando mais tarde a comandante do ramo das Forças Armadas, cargo que manteve entre 2014 e 2017.

A política só entrou na sua vida relativamente tarde, mas, enquanto comandante da Força Aérea, Rumen Radev deixou claras várias das suas ideias políticas. Com a entrada da Bulgária na NATO e o debate sobre a modernização militar, entrou em rota de colisão com diversos governos, contestando planos de compra de caças ocidentais e defendendo a manutenção da frota de MiG‑29, mesmo que isso mantivesse uma certa dependência militar em relação à Rússia.

Numa altura em que o GERB já dominava a cena política búlgara, Rumen Radev opunha‑se abertamente a várias decisões do Governo de centro-direita. Partidos rivais começaram a explorar a ideia de o comandante da Força Aérea se lançar na política e concorrer à presidência em 2017. O piloto acabou por aceitar o convite do Partido Socialista, que o apresentou como candidato independente e o transformou no rosto da oposição para travar a candidata presidencial do GERB, Tsetska Tsacheva.

A candidatura foi bem‑sucedida: o ex‑comandante que abandonou a Força Aérea venceu a primeira e a segunda volta das presidenciais, sendo reeleito em 2021. Já na presidência, passou a ser um contrapeso ao domínio do GERB na política búlgara. Não raras vezes tornou a vida difícil a Boyko Borisov, com quem manteve sempre uma relação profissional e pessoal tensa e marcada por escândalos e confrontos públicos.

Nos últimos meses, após testar o terreno e ter chegado à conclusão de que não havia mais nenhuma “alternativa” na política búlgara, Rumen Radev anunciou que abandonaria a presidência da Bulgária para se candidatar às legislativas. Fundou o Bulgária Progressista, reuniu o apoio de outros partidos e tornou-se — desde que entrou na corrida — o preferido nas sondagens para ser primeiro-ministro.

Numa altura em que o domínio de Boyko Borisov é cada vez mais contestado dentro da Bulgária, a candidatura de Rumen Radev apresenta‑se como uma rutura com o passado recente de compadrio e desgaste associado ao GERB. O antigo Presidente tem, afinal, credenciais para isso: desde que entrou na vida política, posicionou-se como adversário do partido de centro‑direita, é tradicionalmente conotado com o campo socialista e traz consigo um historial de confrontos abertos com os governos do GERB.

As incógnitas do que defende Rumen Radev

Enquanto ex‑Presidente e antigo comandante da Força Aérea, Rumen Radev nunca definiu de forma clara a sua ideologia. Usa um discurso nacionalista e defende um equilíbrio entre os compromissos com Bruxelas e Moscovo. Está associado também ao campo socialista e à defesa de políticas de bem‑estar social, mas combina essa agenda com posições socialmente conservadoras e uma linha dura no controlo de fronteiras e da imigração.

[Depois de assassinar Carlos Castro, Renato Seabra vai passar 95 dias numa ala psiquiátrica. É lá que diz ter agido como um instrumento de Deus e ser “Jesus Cristo”. 

Essa será mesmo uma tática deliberada. Ao jornal Politico, Boriana Dimitrova, analista que trabalha para a empresa de sondagens Alpha Research, explica que “a sua estratégia é manter as suas declarações o mais vagas possíveis para permitir que os eleitores ouçam o que querem ouvir dele”. “Ele está a angariar uma rede política ampla e tentar ganhar o apoio de eleitores de esquerda e de direita no espectro político. Está a tentar jogar com toda a gente.”

Em todo o caso, o antigo comandante sempre defendeu uma aproximação a Moscovo, criticando as sanções do Ocidente e condenando o envio de armas para a guerra na Ucrânia, alimentando o papão de uma possível guerra entre a Rússia e a União Europeia. Entre todos os assuntos que podem fragilizar a candidatura de Rumen Radev, o seu discurso pró-russo é provavelmente o mais controverso e o ativo mais tóxico. Mas nem isso está a preocupar os búlgaros.

"A estratégia é manter as suas declarações o mais vagas possíveis para permitir que os eleitores ouçam o que querem ouvir dele. Ele está a angariar uma rede política ampla e tentar ganhar o apoio de eleitores de esquerda e de direita no espectro político. Está a tentar jogar com toda a gente."
Boriana Dimitrova, analista que trabalha para a empresa de sondagens Alpha Research

Cansados de anos de instabilidade política e das redes de clientelismo associadas ao GERB, muitos búlgaros estão a focar-se, nestas legislativas, em temas como a corrupção e o elevado custo de vida, relegando a política externa para um segundo plano. Ao mesmo tempo, o peso dos antecedentes históricos faz com que uma parte significativa da população não veja a Rússia como uma potência expansionista na Europa, mas antes como um país culturalmente próximo, que ajudou à libertação da Bulgária do domínio turco.

Mesmo na relação com Bruxelas, muitos búlgaros encaram a União Europeia com desconfiança. A perceção da UE continua a ser positiva, mas a adesão ao euro em janeiro deste ano abalou essa imagem: a introdução da moeda única foi acompanhada de preocupações com o aumento do custo de vida e de protestos. Muitos na Búlgara consideram que o país — um dos mais pobres na Europa — não estava preparado para dar esse passo.

Neste sentido, Rumen Radev tem feito campanha em volta desse tema nos comícios por todo o país, acusando os governos do GERB de terem “introduzido o euro” sem convocarem um referendo. “Agora, quando pagam as contas, lembrem-se dos políticos que vos prometeram que pertenceriam ao clube dos ricos”, disse o candidato da Bulgária Progressista, citado pela Reuters.

A Bulgária pode ser o novo cavalo de Tróia da Rússia na Europa?

A derrota de um líder eurocético em Budapeste fez os dirigentes comunitários suspirarem de alívio. É provável que a Hungria chefiada por Péter Magyar — que será o novo primeiro-ministro —, levante o veto ao empréstimo de 90 mil milhões de euros prometido à Ucrânia, assim como é previsível que o Governo húngaro dê luz verde a novos pacotes de sanções contra a Rússia.

O estado de otimismo poderá durar pouco com a vitória de Rumen Radev. Poderá o antigo Presidente da Bulgária funcionar como uma nova força de bloqueio em Bruxelas no que toca ao apoio à Ucrânia? Os sinais são contraditórios. Por um lado, o antigo comandante nunca referiu que quer retirar a Bulgária da União Europeia ou da NATO, tendo condenado as ações militares russas na Ucrânia. Por outro, já deixou várias críticas ao envio de armas ocidentais e não esconde que quer reaproximar Sófia de Moscovo.

“Somos o único Estado‑membro da União Europeia que é simultaneamente eslavo e ortodoxo oriental”, justificou, numa entrevista, Rumen Radev, antevendo que a Bulgária “poderia ser um canal importante” para a Europa “restaurar as relações com a Rússia”. Esta mensagem — no quarto ano de guerra na Ucrânia — colide com a postura defendida por Bruxelas, que não dá sinais de ceder no apoio político e militar a Kiev, nem de levantar as sanções impostas contra Moscovo.

“Somos o único Estado‑membro da União Europeia que é simultaneamente eslavo e ortodoxo oriental."
Rumen Radev, antigo Presidente e principal candidato do Bulgária Progressista

As semelhanças com o discurso pró‑russo de Viktor Orbán são bastantes. E não se ficam por aqui. Rumen Radev tem defendido que o país deve comprar gás natural e petróleo da Rússia, argumentando que essa é a opção que defende melhor os interesses soberanos da Bulgária. O ex‑Presidente também deixou claro que se opõe ao envio direto de armas para Kiev; aliás, enquanto chefe de Estado, vetou iniciativas que concediam apoio militar à Ucrânia.

Sobre o que vai fazer na UE quando chegar muito provavelmente a primeiro-ministro, Rumen Radev ainda não aclarou se vai seguir a mesma linha de confronto com as instituições europeias como fez Viktor Orbán. Mas a Bulgária não é a Hungria. Como lembra o Telegraph, o país é o mais pobre na União Europeia e depende fortemente de fundos europeus. Um eventual congelamento de verbas, como o que atingiu Budapeste nos últimos anos, seria potencialmente devastador para a frágil economia búlgara.

Radev promete acabar com a instabilidade. Mas é improvável que o faça

A dependência búlgara face às instituições europeias poderá levar Rumen Radev a evitar bloquear iniciativas comunitárias de apoio à Ucrânia. E existem outros fatores de política interna que podem funcionar como travão ao pendor pró‑russo do ex‑Presidente. A principal? O facto de existir uma grande probabilidade de ser obrigado a fazer uma coligação ou entendimentos pós-eleitorais com forças pró-europeias.

Neste momento, as sondagens indicam que o Bulgária Progressista deverá vencer as legislativas, com um resultado na ordem dos 35% das intenções de voto com cerca de 100 mandatos, longe da maioria absoluta de 121 deputados. Em segundo lugar deverá ficar o GERB com cerca de 20%. Ainda assim, é improvável que o partido de Rumen Radev se coligue com a força política que tanto criticou no passado e cujo legado garante querer terminar.

Num sistema eleitoral em que é preciso obter pelo menos 4% dos votos para entrar no Parlamento, os estudos de opinião apontam que entrará o PP-DB, um partido liberal pró-europeu anticorrupção, que deverá reunir 12% dos votos. Segue-se, com 10% o DPS-NN, uma força política centrista pró-europeia que defende os interesses da minoria turca na Bulgária. Com cerca de 7% deverá ficar o Renascimento, a força de extrema-direita pró-russa. Uma coligação de partidos de esquerda (BSP) deverá ficar perto dos 4%.

Os analistas sugerem que o parceiro de coligação mais provável do Bulgária Progressista é o PP-DB, se bem que Rumen Radev tenha para já evitado fazer compromissos com o partido centrista. Ambos os partidos têm a bandeira da luta contra a corrupção e o fim da “oligarquia” que tem governado o país. De fora de eventuais coligações para o ex-Presidente, ficam o GERB e o DPS-NN, cujos líderes são associados por Radev ao sistema de compadrio e de corrupção.

Para aceitar uma coligação com o Bulgária Progressista, o PP-DB exige que Rumen Radev abandone as suas posições pró-russas e colabore ativamente com Bruxelas. Num país em que existe uma instabilidade política crónica, esta poderá ser a solução mais consensual — que faria o antigo Presidente não comprar nenhuma guerra com a União Europeia. Uma aliança com o Renascimento, que aproximaria totalmente Sófia de Moscovo, também é bastante improvável; os dois partidos juntos não deverão atingir a maioria absoluta.

Boriana Dimitrova assinala ao Politico que o antigo Presidente pode ainda tentar governar sem formar uma maioria. “Ele pode tentar construir um governo minoritário e tentar forjar diferentes alianças em tópicos distintos”, acredita a especialista, que ressalva que essa missão exige “um considerável talento político”, principalmente num país em que a estabilidade política parece ser uma miragem.

O antigo piloto de caças soviéticos que comprou várias guerras com o partido dominante da Bulgária deverá ser eleito primeiro-ministro no domingo. As expectativas dos búlgaros são elevadas: Rumen Radev surge como o rosto da mudança política há muito ansiada e o nome associado do fim da instabilidade. Assumidamente pró-russo e desejando aproximar-se de Moscovo, reúne alguns ingredientes que alimentam o receio de que possa transformar‑se num novo Viktor Orbán, ainda que enfrente importantes condicionantes internas e externas. A partir de domingo, terá de tomar uma posição e escolher para que rumo quer levar a Bulgária.