O país parou para assistir a um debate entre o líder da oposição e um historiador português sobre o Estado Novo, o 25 de Abril e o PREC. O resultado foi – não surpreendentemente – a peixeirada habitual dos debates políticos nacionais. Não assisti porque me recuso a compactuar com o incansável “pão e circo” que a classe política e mediática nos oferece para nos distrair dos verdadeiros problemas da nação.
Porque os problemas da nação não são decerto o regime político criado por um homem nascido no século XIX e derrubado há cinco décadas. Os problemas do país, hoje, resultam quase na totalidade não dos homens do regime antigo, e não dos homens de Abril, mas sim dos homens do modelo de governação actual que se perpetuam no poder desde então, num regime de porta giratória onde entram uns e saem outros, todos culpando-se mutuamente pelo desastre de governação e económico que tem sido o país.
Falo do inverno demográfico, da estagnação do crescimento, da importação em massa de mão de obra barata e da substituição populacional que daí deriva, da queda gritante de poder de compra e do estrangulamento fiscal a que o capital nacional ficou refém. Tudo isto para alimentar um sistema falhado, ineficiente, com serviços públicos em declínio em todo o espectro. A corrupção tornou-se crónica, o chico-espertismo tornou-se algo cultural.
Vejo, com estes meus dois olhos que ninguém pode acusar de cegueira, caminhos que nos parecem levar todos ao mesmo destino. Entre PS e PSD, e os partidos derivados do primeiro e aquelas vertentes do segundo, encontram-se as ideologias e personagens que assombram a política nacional nesta casa abandonada a que chamamos Estado Português. Existe, também, o partido CHEGA, fundado por um ex-dirigente do PSD e preenchido por quadros de segunda e terceira linha desse mesmo partido e do CDS.
Não existem para mim dúvidas de que, excluindo alguns casos raros de pessoas genuinamente preocupadas pelo estado da nação, os ocupantes desta casta superior política são largamente figuras medianas, incapazes de grandeza. Para além de não representarem os interesses do português mediano, muitas vezes – seja por ignorância, seja por genuína maldade – defendem precisamente o contrário daquilo que para eles será algo fictício, vestígio de um passado longínquo, enquanto para nós é algo sagrado: o interesse nacional.
Devemos pregar então precisamente isso: movimentos, associações, projectos meta-políticos e políticos que ponham em primeiro plano o interesse dos portugueses acima de tudo o resto. Portugueses de todas as classes, desde operários e pequenos empregadores – a coluna dorsal da nação – até aos grandes empresários e às grandes famílias que representam o motor do capital nacional. Ambos protegidos por uma nova Política Nacional que defenda salários e condições laborais dignas para os trabalhadores, e condições para empreendedorismo e benefícios fiscais que favoreçam o capital nacional. Ambos consultados, ambos considerados, ambos elevados – e sempre em prol do interesse nacional.
Eu continuo a acreditar que, principalmente entre a elite portuguesa, existe um espírito dormente de patriotismo que, se formos capazes de acordar, nos permitirá construir as bases para um movimento nacional que reivindique os nossos interesses como nação. Não posso acreditar que o capital e a política internacional se tenham sobreposto por completo, pervertido por inteiro, as estruturas do Estado, dos nossos capitalistas e da elite intelectual.
Onde estão os Alfredos da Silva, os Antónios Champalimaud, os Manueis de Mello, os Palmelas? Onde estão aqueles que, sem caminho traçado, o criaram – que com esforço abriram as primeiras minas, que com coragem ergueram estaleiros, que fundaram fábricas e desenharam caminhos de ferro?
Onde estão os grandes empresários e famílias de norte a sul que antes defendiam os seus trabalhadores – os portugueses – e o interesse nacional, com uma ferocidade inabalável? Onde está a classe que se recusava a deixar que americanos, britânicos, franceses e alemães abrissem negócios em Portugal para produzir coisas que nós sabíamos ser capazes de produzir? Os mesmos empresários que enviavam cartas aos nossos chefes de Estado dizendo: “Não! Este negócio será português!” Como é possível que hoje tenhamos, por exemplo, a Autoeuropa em Portugal, onde se produzem mais automóveis do que em Itália, e que, no meio disso, não haja capital português? Alguma vez Singapura, China ou Japão permitiram isto?
Onde está a dignidade, o orgulho, o sentido de dever para com a Pátria que caracterizava aquela geração? Ou terá tudo sido vendido, leiloado ao melhor preço, entregue de bandeja aos interesses estrangeiros que hoje dominam sectores inteiros da economia nacional?
Recuso-me a acreditar que este espírito esteja morto. Recuso-me a aceitar que não existam, algures entre os corredores das grandes empresas, dos escritórios de advocacia, das salas de conselho, homens e mulheres que ainda compreendam o que significa ser guardião de algo maior do que o lucro trimestral. Que ainda saibam o que é olhar para os trabalhadores não como “recursos humanos” mas como compatriotas. Que ainda sintam o peso da responsabilidade histórica.
É principalmente a esses que faço este apelo. Não se esqueçam: só com os portugueses em mente é que a política em Portugal poderá ter sucesso. E só com portugueses no comando – honestos, sérios, dignos e capazes dos cargos que lhes são dados pela Nação – e em consciência plena dos deveres que lhes são exigidos, é que poderemos fazer renascer o espírito nacional.
Não são precisos mil homens e mulheres, mas sim um grupo coeso, dedicado e disposto ao sacrifício. Um grupo que compreenda que o desastre demográfico que se avizinha terá repercussões permanentes e alterará – para pior – para todo o sempre aquilo que nós amamos e reconhecemos como nosso.
Porque quando este pequeno canto de península se tornar irreconhecível, ninguém escapará. Nem rico nem pobre, nem emigrado nem refugiado. Sim, alguns de nós podem fugir. Sim, podemos encontrar um novo sítio para viver, como tantos outros milhões de portugueses que fugiram no último meio século. Mas ninguém – ninguém – escapará à tristeza e acima de tudo ao arrependimento de não ter feito algo quando ainda era possível. Isto é, caros leitores, a nossa casa: ninguém lutará por ela senão nós!
E ainda é possível. Ainda não chegámos ao ponto de não-retorno. Mas aproxima-se, a passos largos, o momento em que já não haverá regresso.
O país precisa de nós hoje – não amanhã – e de uma maneira como nunca antes exigiu daqueles que vieram antes de nós. Operários. Pequenos e médios empresários. Das grandes empresas, das grandes famílias. A pergunta é simples: estarão dispostos a dar um pouco de nós para não perdermos tudo aquilo que nos une?