Apesar de ter tirado a carta, sou uma não-condutora empedernida. Sentei-me ao volante durante um ano e picos, sempre em agonia, sempre a suar do bigode e sempre convicta que um atropelamento mortal ia acontecer mais quilómetro, menos quilómetro. Fiz apenas trajetos curtos, nunca em auto-estrada, tendo conseguido o feito assinalável de nunca ter posto a quinta, já para não falar que a quarta só era usada em dias em que me sentia especialmente destemida. Por circunstâncias da vida, e apesar da profecia do homicídio nunca se ter concretizado, um dia estacionei o carro e nunca mais me alapei no lugar do condutor.
Dito isto, e acrescendo o facto de ter vivido a maior parte da minha vida fora da metrópole — metrópole essa onde estudei e quase sempre trabalhei — os transportes públicos são o meu habitat natural e os meus companheiros de viagem peixinhos num aquário. Adoro gente que fala alto ao telefone e atraco-me a conversas alheias sem pudor. Até desenvolvi uma técnica excelente para o efeito, que consiste em usar óculos escuros para disfarçar o meu olhar curioso e manter os fones com a música no silêncio para não perder pitada sem me denunciar. Poderia usar a minha profissão de guionista como livre trânsito para justificar o meu comportamento, porque tudo é material e tal, mas a verdade é que tenho a alma de uma Dona Clotilde à janela desde sempre e, hoje, do alto dos meus 46 anos, abraço isso sem pinguinho de vergonha.
Por isso, observar a pessoa que calhou a sentar-se à minha frente no comboio com destino a Lisboa-Oriente e paragem em todas as estações e apeadeiros, exceto Marvila, e imaginar-lhe uma uma personalidade, uma profissão, uma família, virtudes e defeitos, o que é que é a máscara social e o que é a versão não censurada que só se mostra no (des)recato do lar é um dos meus passatempos favoritos. Porque como alguém diz em DTF St. Louis — a mini-série da HBO que devorei num só dia deliciada — “ninguém é normal, só dá essa impressão do outro lado da rua”.
https://www.youtube.com/watch?v=u1XHd5rIvmY
DTF St. Louis centra-se num triângulo que vai oscilando entre o equilátero, o isósceles e o escaleno, à medida que a relação entre Clark Forrest (Jason Bateman), Floyd Smernitch (David Harbour) e Carol Love-Smernitch (Linda Cardellini) se desenvolve. Clark é o weather guy — que é como quem diz o meteorologista — do canal regional, profissão que se diria obsoleta por cá, mas que ainda tem relativa relevância nos Estados Unidos, tornando-o numa cara conhecida e com uma relativa aura de sucesso. Pai de duas filhas, casado com uma mulher linda e loira com quem não tem relações sexuais por incompatibilidade de horários, desloca-se numa daquelas bicicletas em que se pedala rente ao asfalto, coisa que me causa uma certa aflição, confesso.
Floyd é intérprete de língua gestual, tem problemas com o peso que acumulou com o avançar de idade e é portador de um pénis com uma curvatura superior a 30 graus, fruto de uma deliciosa sucessão de eventos que só será revelada lá para o fim da série. Juntando a inclinação peniana, os problemas de auto-estima e um problema com uma certa e determinada indumentária que a mulher usa, também Floyd não pratica o doce amor há para cima de um ror de tempo. Casado em segundas núpcias com Carol, contabilista da Purina em full-time (sim, a marca de comida de cão, que ficam a saber é um dos empregadores principais de St. Louis) e árbitra de basebol infantil em part-time. Tem um filho neurodivergente e acabado de aterrar na adolescência, Richard (Arlan Ruf) que usa um colete de pesca em contínuo e cujo passatempo favorito é atirar pedras a casas. O casal padece de problemas graves de saúde financeira, o que parecendo que não, também não contribui para uma vida sexual saudável.
Clark e Floyd formam uma dupla profissional, um enquanto jornalista do clima, o outro como intérprete. Na primeira reportagem que fazem juntos, um direto de exteriores durante um tornado, Floyd desvia Clark no momento exato em que ele ia levar com um sinal STOP voador nas trombas. E se isto não é coisa para criar um laço, não sei o que é. Tanto que, poucas semanas depois de se conhecerem, Clark partilha com o amigo que ouviu falar de uma aplicação chamada “DTF St. Louis”, sendo que DTF significa “down to fuck”, o chamado “é para o que é” entre pessoas comprometidas que querem sachar em horta alheia, mas não têm interesse em assinar o título de propriedade.
Clark está decidido a mijar fora do penico, Floyd está mais reticente, mas deixa-se ir pela adrenalina, coisa que estes dois indivíduos de meia-idade já não sentiam desde o tempo em que tinham buço em vez de bigode. Uma vez que a relação se vai estreitando, Floyd organiza um ajuntamento com as respetivas famílias, passo natural numa amizade adulta. O facto é que Clark bota o olho em Carol, a mulher do amigo, a mulher do amigo bota o olho em Clark e está-se a ver está visto. Clark entra em modo pavão de roda da fêmea, a agigantar uma masculinidade performativa em que só cai quem quer, e Carol parece querer. Ela, por sua vez, faz-se pequena e frágil, carente de um provedor viril, papel em que Floyd é falho, como não hesita em sublinhar.

Postas que estão as cartas na mesa, avançamos no tempo até à madrugada em que o corpo sem vida de Floyd Smernitch é encontrado no balneário de uma piscina pública, acompanhado de uma lata de refrigerante minada com uma quantidade letal de um fármaco e uma página central de uma Play Girl onde podemos ver uma versão pornográfica de um conhecido arqueólogo do cinema, com outro tipo de chicote na mão. E tudo isto só no primeiro episódio.
DTF St. Louis é um whodunnit que vai recorrendo a flashbacks e fast forwards na cronologia da relação entre Floyd, Carol e Clark e que nos faz tirar conclusões num determinado episódio, para mudarmos radicalmente de ideias no seu subsequente. O desenrolar dos factos vai-nos empurrando para firmes condenações de carácter, e a seguir conduz-nos a empatizar com os anteriormente réus. Vamos acompanhando uma investigação do crime bicéfala, dividida entre um batido e um tanto ou quanto datado Donoghue Homer, detetive de homicídios de St. Louis (o sempre ótimo Richard Jenkins, que recentemente fez um brilharete como pai de Dahmer, na série homónima) e uma afiada e mais up to date detetive local, Jodie Plumb (Joy Sunday, a Bianca de Wednesday).

A série junta o apelo da caça ao culpado, com o puro prazer da viagem até ao desvendar do mistério, de uma maneira que roça a perfeição. Nada aqui é o que parece, porque relembrando a citação do início, toda a gente parece normal a uma certa distância. Ou pelo menos, estes averages joes parecem, porque são o estereótipo da mediania suburbana de meia-idade, sentada em cima do tédio a ver os dias passar. Ao mesmo tempo, também demonstra que uma novidade, um evento disruptivo, uma pessoa que nos sirva de espelho e nos faça ver coisas a que fechámos os olhos durante toda uma vida adulta, pode transformar a pessoa num gato jovem a seguir furiosamente um laser no chão, em hiper foco, descurando a visão periférica do que está ao seu redor.
Steve Conrad escreveu o guião e assumiu a realização desta história, pontuada pelo realismo mágico de que já tinha feito bom uso em A Vida Secreta de Walter Mitty, e eu só posso fazer-lhe uma daquelas vénias em que só não bato com a testa no chão, porque já não tenho costas para isso. Enquanto guião, é um tesouro, é escrita de joalheiro. Enquanto realização, tem planos deslumbrantes, enquadramentos que falam altíssimo, vai acelerando e abrandando sem nunca deixar cair a bola e vai adaptando a linguagem visual, sem medos, de maneira a casar com o conteúdo. O momento videoclip à la Beastie Boys não me deixa mentir.

Encantei-me pelo Jason Bateman em Arrested Development e, apesar daquela temporada terrível, não mais larguei a sua mão. Mais recentemente, num registo que me surpreendeu, gabei-o em Black Rabbit. E aqui, caramba! Como o homem salta entre o incipiente, o detestável, o ridículo, o terno e o maldoso, é de atleta medalhado. E apesar das personagens estarem recheadas de coisas caricatas e inusitadas, o que torna tudo ainda melhor, os desempenhos nunca resvalam para o cartoon, nunca se perde de vista a verosimilhança, e isso é um feito só possível com interpretações deste calibre.
Acho a Linda Cardellini underrated e sempre que a vejo, quero vê-la mais. Se nunca viram Bloodline, ela é uma excelente razão para carregarem no play. Esta Carol é um acontecimento, a personagem está cheia de pormenores, inclusivamente linguísticos (como os “uaus” que parecem meios aleatórios, mas nunca são), que a adensam e agigantam. Carol vive uma relação com o marido, em que a ternura e o desdém vivem paredes meias. Enquanto mãe, transita entre a felicidade e o fardo de ter aquele filho. Faz o que tem de ser feito de forma relativamente amoral, mas não inconsciente e caminha com esse peso.
David Harbour, que não há-se ser sempre, mas por enquanto para mim é o Hopper do Stranger Things (e nem nunca me lembro do nome do ator, o que é muito injusto), faz um trabalho notável e constrói uma personagem pela qual — tenho poucas dúvidas — se apaixonou. Floyd tem graça, é luminoso, absolutamente comovente e muito, muito triste. Quanto a mim, é graças a ele que esta série é anunciada como comédia, mas é também por ele que DTF St. Louis é tão melancólica e cheia de dor. A maneira como ele lida com as pessoas ao seu redor é a epítome de como a empatia é uma coisa muito linda, mas nos pode destruir. Floyd a dançar hip hop com miúdas da primária encheu-me de uma alegria efervescente, a maneira como ele cria uma ponte com o enteado é uma lição de compreensão do outro e a amizade que ele gera com Clark é de uma vulnerabilidade de deixar a cara à banda.
Menção extraordinariamente honrosa para Peter Sarsgaard, que interpreta um match de Floyd e que, sendo uma personagem secundária, serve como lupa e tem um papel absolutamente central na definição do protagonista.
Um dos pilares deste bromance é o treino em conjunto, sendo que Clark cumpre o papel de hype man de Floyd, que precisa desesperadamente de perder peso, não só por uma questão de vaidade, como por uma questão muito mais pragmática que, se fizeram o enorme favor a vocês mesmos de ver esta maravilha, descobrirão. E é nesse espírito que repetem o mantra “Be up the be”, um jogo de palavras para “Bring up the best”, isto é “Puxar o nosso Melhor”. Foi isso que o criador Steve Conrad fez, quanto a mim. Puxou o que de melhor havia nesta gente toda, ele incluído. Uma das comédias mais tristes que vi nos últimos tempos e isso fez-me muito feliz. O que só prova que eu, como toda a gente, também não sou normal. Nem ao perto, nem ao longe.