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Os preços dos combustíveis sobem, a popularidade dos Presidentes cai. Mas Trump tenta inverter a tendência antes das eleições intercalares

Jimmy Carter é o exemplo maior de uma tendência histórica: quando o preço dos combustíveis sobe, a popularidade do Presidente cai. Mas Joe Biden mudou o paradigma e Trump quer cristalizá-lo.

Madalena Moreira
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“A gasolina, que alcançou o pico de seis dólares por galão [cerca de 1 euro e 35 cêntimos por litro] sob o meu antecessor — foi um desastre francamente — está agora a menos de 2,30 dólares por galão na maior parte dos estados. E em alguns sítios, a 1,99 por galão”. Era assim que Donald Trump apontava, no dia 24 de fevereiro, o cumprimento em pouco mais de um ano de uma das suas maiores promessas eleitorais: a descida dos preços dos combustíveis. Pela primeira vez desde a pandemia, a média do preço do combustível estava abaixo dos três dólares.

Tudo mudou quatro dias depois deste discurso. Os Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra contra o Irão, que respondeu fechando toda a circulação marítima no Estreito de Ormuz. E o preço do petróleo subiu a pique. Em apenas um mês (de meados de fevereiro a meados de março), o combustível registou uma subida de 80 cêntimos por galão, a segunda maior subida de combustíveis num mês dos últimos 30 anos. A subida é apenas suplantada por aquela que se registou depois da passagem do furacão Katrina, em 2005, segundo dados da Administração de Informação Energética.

Na direção contrária ao preço do petróleo, a popularidade do Presidente norte-americano tem vindo a cair, estando agora estagnada abaixo dos 40%. A tendência não é nova. Pelo contrário, a questão dos preços dos combustíveis tem sido continuamente estudada como medida para avaliar a popularidade de um Presidente, tendo alguns estudos traçado mesmo uma correlação negativa entre as duas variáveis. Ou seja, quando o preço dos combustíveis sobe, a popularidade de um Presidente desce.

Esta tendência foi visível principalmente durante o final do século XX e início do século XXI, durante as administrações de Jimmy Carter, Ronald ReaganGeorge W. Bush. Ao longo da última década e meia, contudo, esta tornou-se cada vez menos evidente. Chegados a 2026, o perigo político que a subida dos combustíveis representa para um Presidente em funções não desapareceu e o Partido Republicano tem alertado Trump repetidamente para esse mesmo perigo — principalmente em ano de eleições intercalares. Porém, o atual enquadramento político pode ter tornado este perigo menos proeminente e aberto a porta à questão: pode Trump inverter a tendência?

Carter, kiss my gas“. A crise energética da década de 1970 e a queda de Carter não são um caso isolado

O inverno de 1977 foi um dos mais frios da História dos Estados Unidos. E foi em janeiro desse ano que Jimmy Carter entrou na Casa Branca, determinado a enfrentar a falta de combustível que punha em risco a capacidade de aquecimento de milhões de americanos. “Temos de equilibrar a nossa procura por energia com os nossos recursos, que estão rapidamente a esgotar-se. Ao agir agora, podemos controlar o nosso futuro, em vez de deixar que o nosso futuro nos controle”, declarou numa transmissão televisiva, poucos dias depois de tomar posse.

O olhar de Carter sobre o problema era sistémico: o Presidente aumentou o investimento em energias renováveis, impulsionou a criação do Departamento de Energia e reduziu impostos sobre edifícios com eficiência energética. De um modo geral, o democrata procurou substituir o consumo de combustíveis fósseis por energias renováveis, mas o investimento na transição energética não encontrou apoio entre o público norte-americano.

Em março de 1977, dois meses depois de tomar passe, a taxa de aprovação de Jimmy Carter estava acima dos 70%. Um ano depois, caíra para os 50%. Carter não mudou o rumo, mas o enquadramento internacional haveria de dificultar ainda mais a sua abordagem. A crise energética que o país vivia quando Carter tomou posse tinha sido provocada pelo embargo imposto Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP) aos EUA durante a guerra do Yom Kippur, em 1973. Antes de a década chegar ao fim, o Médio Oriente iria agitar-se novamente.

No verão de 1979, as repercussões da revolução islâmica iraniana provocaram uma diminuição no abastecimento de petróleo e levaram a um novo aumento dos preços do petróleo — ajustado à inflação, os preços chegaram aos cinco dólares por galão (cerca de 1,12 euros por litro). Nos Estados Unidos, o impacto fez-se sentir: formavam-se filas nas bombas de gasolina, pelos menos dois homens foram mortos em Nova Iorque por tentarem, alegadamente, passar à frente nas filas e, na Pensilvânia, rebentaram motins, descreve Meg Jacobs, autora do livro Panic at the Pump: The Energy Crisis and the Transformation of American Politics in the 1970s, num artigo na revista The Atlantic.

“Mais combustível” e “Carter, beija o meu combustível” (um trocadilho fonético com a expressão “kiss my ass“) tornaram-se cânticos de ordem frequentes. Nesse verão, a taxa de aprovação de Jimmy Carter caiu abaixo dos 30% e, no ano seguinte, o republicano Ronald Reagan conquistou uma vitória folgada e bloqueou o regresso de Carter à Casa Branca. Claro que a presidência de Carter teve outros obstáculos além da crise energética que precisam de ser considerados, mas esta correlação entre a popularidade e o preço do combustível não foi um caso isolado.

Uma análise do New York Times, que sobrepõe os preços do combustível às taxas de aprovação dos Presidentes, encontra esta tendência ao longo das administrações seguintes. Durante a administração Reagan, não se verificaram picos acentuados em nenhuma das variáveis, mas uma evolução inversa. É na administração de George W. Bush que a tendência se torna novamente evidente. À medida que a crise financeira se foi instalando e o preço dos combustíveis foi subindo, a taxa de popularidade do Presidente republicano foi descendo. Em julho de 2008, os preços ultrapassaram os seis dólares por galão (1,34€ por litro), ajustado à inflação, e, em outubro desse mesmo ano, a taxa de aprovação de Bush atingiu um mínimo recorde de 25%.

O “novo normal”: a estável taxa de aprovação de Joe Biden num ano em que os preços dos combustíveis bateram recordes

O primeiro ano da segunda administração Trump ficou marcado pelos preços mais baixos de combustível dos últimos anos. Mas a queda nos preços não foi resultado das medidas implementadas pelo Presidente republicano, que tardam a sentir-se. Pelo contrário, a anterior administração, liderada por Joe Biden, ficou marcada por um aumento nos preços: em primeiro lugar, pelo regresso à “normalidade” pós-pandemia, depois de uma queda durante a Covid-19 e, imediatamente a seguir, pela eclosão da guerra na Ucrânia.

"Quando era apenas Obama, podemos traçar histórias sobre como foi uma presidência pouco habitual, que ele foi eleito por uma larga margem numa eleição relativamente positiva em tempos de caos económico. Quando foi com Trump e Obama podíamos dizer que as duas presidências estiveram focadas de forma pouco habitual na identidade em vez de na performance económica. Mas três presidências... começa a parecer o novo normal."
Seth Masket, diretor do Centro de Política Americana da Universidade de Denver

Devido à guerra, o ano de 2022 ficou marcado pela subida histórica no preço dos combustíveis — em média, um galão de combustível custou, nesse ano, 4,06 dólares (0,91€ por litro), o valor mais alto no século XXI, numa subida de mais de 30 cêntimos em relação ao segundo valor mais alto, registado em 2012, durante a administração Obama.

Contudo, esta subida não teve efeitos na popularidade de Joe Biden. Ao longo dos primeiros meses de 2022, a popularidade do Presidente democrata manteve-se estabilizada à volta dos 40%. O número era baixo, mas a queda aconteceu ainda durante o primeiro ano do seu mandato, motivada, em parte, pela retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão, no verão de 2021. O momento consolidou uma mudança de paradigma que se tinha vindo a assistir durante a presidência Obama e a primeira presidência Trump: já não existia uma correlação entre combustíveis e popularidade.

[Depois de assassinar Carlos Castro, Renato Seabra vai passar 95 dias numa ala psiquiátrica. É lá que diz ter agido como um instrumento de Deus e ser “Jesus Cristo”. 

“Quando era apenas Obama, podemos traçar histórias sobre como foi uma presidência pouco habitual, que ele foi eleito por uma larga margem numa eleição relativamente positiva em tempos de caos económico. Quando foi com Trump e Obama podíamos dizer que as duas presidências estiveram focadas de forma pouco habitual na identidade em vez de na performance económica. Mas três presidências… começa a parecer o novo normal”, escreveu Seth Masket, diretor do Centro de Política Americana da Universidade de Denver, numa publicação de outubro de 2024, no seu blogue.

Os especialistas em sondagens explicam este fenómeno, de forma mais ou menos unânime, com a crescente polarização do sistema eleitoral norte-americano. Quer isto dizer que os dois partidos se consolidaram nos dois extremos do espectro político, apoiados por uma base de eleitores fidelizados. As eleições são agora decididas por uma pequena margem de centristas ou eleitores independentes, para quem a economia importa. No entanto, para a maior parte dos eleitores, o voto é decidido pela direção partidária e não tanto pelas políticas implementadas.

Isto reflete-se também na taxa de aprovação dos Presidentes, que se revelam muito mais estáveis, sem picos, quer de aprovação, quer de reprovação. No caso de Donald Trump, ao longo do último ano, a sua taxa de aprovação manteve-se perto dos 40%, independentemente da subida ou descida dos preços, mas também das suas ações de política interna — como as criticadas operações de imigração do ICE — ou de política externa — que incluíram ações militares contra múltiplos países.

“Os Presidentes tem um apoio relativamente unificado do seu próprio partido e uma oposição unificada do outro partido, o que significa que têm um chão mais alto e um teto mais baixo“, explicou Kyle Kondik, analista e comentador político filiado no Center for Politics da Universidade da Virgínia, ao New York Times.

A ação da Casa Branca tem impacto no preço dos combustíveis?

A Lei da Marinha Mercante, também conhecida como a Lei Jones, foi aprovada em 1920, com o objetivo de regular o comércio nas águas e portos norte-americanos. Trata-se de uma medida protecionista que exige que todos os bens que circulam entre portos dos Estados Unidos naveguem em embarcações construídas no país, com bandeira e tripulação dos EUA. Foi esta regulação que a administração Trump suspendeu no dia 17 de março, de forma a permitir que combustível circule entre portos norte-americanos em navios estrangeiros, procurando travar uma escassez de combustíveis que faça subir ainda mais os preços.

Contudo, a medida não teve o impacto pretendido, tendo o preço real dos combustíveis continuado a subir. A suspensão “é de menos, demasiado tarde”, argumentou Willy Shih, professor na Harvard Business School, especializado no mercado energético, à CBS News. “É uma gota num balde no que toca a influenciar os preços quando se retirou 20% do abastecimento global de circulação”, elaborou, referindo-se à percentagem dos combustíveis que passam pelo Estreito de Ormuz.

"A libertação [de petróleo da Reserva Estratégica de Petróleo] não vai ter impacto nenhum. É como tentar substituir uma conduta de água por uma palhinha."
Patrick De Haan, analista na empresa GasBuddy, que monitoriza os preços dos combustíveis nos EUA

Este caso ilustra bem a posição que os economistas têm vindo a defender de que as ações dos Presidentes norte-americanos não têm um impacto direto, ou têm apenas um impacto muito limitado, no preço dos combustíveis. Vários dos casos mencionados de crises energéticas ilibam os líderes norte-americanos de responsabilidades políticas no aumento dos preços: as decisões da OPEP, a crise financeira de 2008 ou a guerra na Ucrânia — ainda que possam ser analisadas à luz do contexto internacional — não tiveram mão direta de Washington. A realidade é a mesma quando se fala de soluções.

Para além da suspensão da Lei Jones, a outra ação mais evidente foi o recurso da Reserva Estratégica de Petróleo, da qual foram libertados 172 milhões de barris, uma estratégia que já tinha sido posta em prática em 2022, por Joe Biden. Além disso, Washington levantou sanções aplicadas à Venezuela, de forma a estimular a economia interna do país e a produção de petróleo para poder ser utilizado pelos Estados Unidos, e ao petróleo da Rússia, ainda que esta ação tenha sido apenas temporária.

Nenhuma destas quatro soluções produz resultados à medida da dimensão da crise atual. Se a libertação de petróleo da Reserva resultou, efetivamente, numa descida dos preços em 2022, os especialistas duvidam que a decisão tenha o mesmo impacto em 2026. “A libertação não vai ter impacto nenhum. É como tentar substituir uma conduta de água por uma palhinha“, ponderou Patrick De Haan, analista na empresa GasBuddy, que monitoriza os preços dos combustíveis nos EUA, à CBS News.

Contudo, ao contrário dos Presidentes anteriores, Donald Trump pode ser responsabilizado pela atual subida dos preços, uma vez que esta aconteceu no âmbito de uma guerra que os Estados Unidos iniciaram, no dia 28 de fevereiro. Mas isso também quer dizer que, por esse motivo, o chefe de Estado tem à sua disposição uma opção muito mais eficaz que as anteriormente mencionadas para baixar os preços: pôr fim à guerra.

Na verdade, alguns especialistas argumentam que nem é necessário a guerra terminar, mas o Estreito de Ormuz ser reaberto. “[Assim que o Estreito reabrir] vai haver um efeito imediato nos mercados, uma grande redução no preço”, declarou David Victor, professor de políticas públicas na Universidade da Califórnia — San Diego, à CBS News. Os acontecimentos desta sexta-feira deram razão ao especialista. Momentos depois de o Irão anunciar a reabertura do Estreito de Ormuz a todo o tráfego comercial, o preço do petróleo caiu a pique nos mercados.

Com eleições intercalares no horizonte, Trump procura inverter de vez a tendência histórica

“Mesmo com um grande Presidente, eles tendem a perder as intercalares. Vamos tentar virar isto ao contrário. Temos de explicar aos eleitores o trabalho incrível que fizemos, não há nenhuma razão para os republicanos estarem a perder. Acho que [os preços] vão estar muito mais baixos. Quando isto [a guerra] estiver resolvido, os preços vão baixar de forma tremenda.” Era assim que Donald Trump falava na quarta-feira passada, em entrevista à Fox Business. As palavras eram uma contradição direta do que tinha dito três dias antes, numa outra entrevista à Fox News, em que disse que os preços do combustível “podiam estar na mesma ou talvez um bocadinho mais altos” por altura das eleições intercalares.

Contradições à parte, as duas declarações do Presidente norte-americano ilustram uma realidade no terreno muito diferente da análise académica dos economistas. A ação da Casa Branca pode não ter impacto direto no preço dos combustíveis, mas o preço dos combustíveis continua a ser uma importante variável eleitoral. Dada a grande dependência da maior dos eleitores norte-americanos pelo carro para as suas deslocações diárias, o preço do combustível é uma medida utilizada por muitos para avaliar, de forma muito simplificada, o estado da economia.

E, neste momento, com os preços dos combustíveis a registarem o maior salto desde 2005, a avaliação do estado da economia é ainda mais negativa do que a já baixa taxa de aprovação. Uma sondagem realizada no final de março pelo Ipsos para a Reuters revela que apenas 29% dos inquiridos aprova a gestão que Donald Trump está a fazer da economia. É o valor mais baixo dos últimos dez anos, que incluem os dois mandatos de Trump e o mandato de Joe Biden.

A situação seria negativa para qualquer Presidente, mas pinta-se ainda mais negra para Donald Trump por dois motivos. Por um lado, o republicano focou a sua campanha no estado da economia, prometendo baixar o custo de vida — incluindo referências diretas ao preço dos combustíveis —, reduzir a inflação e fortalecer a economia norte-americana com recurso a medidas protecionistas. Por outro lado, Trump vai enfrentar, em novembro deste ano, eleições intercalares.

Há duas décadas, a situação atual dos EUA poderia traduzir-se numa queda a pique nos resultados do Partido Republicano, mas, dada a mudança de paradigma político, isso parece mais improvável. “Isto sugere que mesmo que haja pressões nos preços nas bombas isso pode ter um impacto limitado”, resume Alec Tyson, especialista de sondagens na Ipsos, ao New York Times. As palavras de Trump no passado domingo à Fox News parecem indicar uma consciência desse facto: os seus resultados em novembro já não dependem do estado da economia.

Porém, isso também não quer dizer que o Presidente tenha razão nas suas palavras de quarta-feira, uma vez que não há quaisquer dados que comprovem uma correlação positiva entre a descida dos preços e o aumento da popularidade. Ou seja, os Presidentes podem deixar de ter sido castigados pelo eleitorado por subidas no preço dos combustíveis, mas isso não quer dizer que sejam agora recompensados por uma descida dos preços. Nesta nova realidade, as intercalares de novembro não podem ser vistas pela lente de Jimmy Carter e isso só torna a política norte-americana mais à imagem do seu líder atual — imprevisível.