Antecipar o que se vai tornar viral e perceber rapidamente os temas que podem ganhar tração. São estes os principais objetivos especificados no caderno de encargos entregue pelo Governo à NewsWhip, a empresa cuja contratação tem gerado polémica (por potencialmente permitir monitorizar e ordenar jornalistas em função do impacto do seu trabalho) e que o Executivo já veio esclarecer que se trata de uma ferramenta de “clipping moderno”.
No contrato e no caderno de encargos, a que o Observador teve acesso, não há referências específicas a objetivos como monitorizar ou fazer um ranking de jornalistas. A ferramenta, pela qual o Governo pagou 40 mil euros e que usará durante um ano (até março de 2027), deve servir para “permitir a identificação de tendências emergentes e acompanhar a velocidade de disseminação de temas”, recorrendo a modelos de previsão e métricas de desempenho.
Esses modelos vão servir para o Governo tentar antecipar-se aos assuntos que se vão tornando virais ou ganhando relevância nos jornais e nas redes sociais. E terão em conta a “taxa de crescimento das interações”, os “padrões de viralização” e o “alcance potencial”.
No caderno de encargos, assinado ainda pelo anterior secretário-geral do Governo, Carlos Costa Neves, especifica-se que a ferramenta deve incluir funcionalidades como a “criação de dashboards personalizáveis com até cinco pesquisas ternáticas por painel”; a monitorização simultânea de múltiplas plataformas sociais e meios de comunicação online”; filtros avançados por país, língua, categoria temática, fonte e rede social; uma deteção “automática” de conteúdos relevantes, com “alertas configuráveis”; exportação de dados e relatórios; e ainda a possibilidade de segmentar o trabalho por “áreas de trabalho autónomas”, garantindo confidencialidade entre as equipas.
A plataforma, lê-se no documento já entregue aos deputados, deve disponibilizar indicadores “que avaliam a probabilidade” de os conteúdos “ganharem tração“, antecipar desenvolvimentos e “ajustar a resposta informacional” — ou seja, que permitam ao Governo perceber os temas que ganham relevância e perceber como é que lhes pode dar uma resposta rápida.
No caderno de encargos especifica-se também que vários utilizadores devem poder usá-la, com “níveis de permissão distintos”, incluindo seis contas de utilizador, com sessões de formação incluídas e suporte contínuo.
O contrato esclarece que foi feita uma consulta prévia a três empresas, tendo a NewsWhip assumido o compromisso de cumprir e fazer cumprir o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados “no que respeita às regras relativas a proteção das pessoas singulares, ao tratamento de dados pessoais e a livre circulação desses dados”.
Além disso, é obrigada a “guardar sigilo sobre toda a informação e documentação, técnica e não técnica”, do Governo, não podendo transmitir nada a terceiros, exceto o que já seja do “domínio público” — o Governo tinha vindo garantir que a plataforma recorreria apenas a “fontes abertas” para fazer o seu trabalho, depois de a oposição ter demonstrado preocupação sobre a forma como a plataforma executaria estas tarefas e se poderia dedicar-se a monitorizar jornalistas ou a atividades que violassem a proteção de dados.