Ana Maria Gonçalves tomou posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), celebrada como a primeira negra eleita para a instituição. Na solenidade, ela explicou que “fala pretuguês” e escreve “a partir de noções de oralitura e escrevivência”. O segundo candidato mais votado foi a ativista indígena Eliane Potiguara – não perde pela demora, até porque a vencedora prometeu fazer a ABL avançar “naquilo que sempre critiquei: a falta de diversidade”. É a chamada “discriminação positiva” (no mundo do identitarismo, os oxímoros são fofinhos).
Mas há homogeneidade no nível literário da ABL, que é escasso. Inspirada na Academia Francesa de Letras (incluindo a suntuosa “farda” dos acadêmicos, que custa 10 mil euros), a versão brasuca foi fundada em 1897, no Rio de Janeiro, e presidida por Machado de Assis, até hoje o melhor ficcionista nacional. Gago, epiléptico e mulato, ele viveu 49 dos seus 69 anos num Brasil escravocrata, e escolheu para secretário da ABL o seu amigo do peito e abolicionista Joaquim Nabuco, que dirá de Machado: “Mulato? Só vi nele o grego”. Hoje Nabuco é que ver-se-ia grego por causa dessa opinião. (A Guerra e Paz publicou uma antologia de Machado sobre a escravidão – “Pai Contra Mãe” -, com prefácio meu.)
A ABL tem 40 membros – quando um bate a bota, é eleito um sucessor. Os académicos reúnem-se em saraus regados por um agradável chazinho. São admitidos convidados seletos, que talvez pousem nos anfitriões mais antediluvianos um olhar necrófilo. Ou talvez não, porque os académicos autointitulam-se “imortais”, e não com ironia machadiana. Quando perguntado se aquilo não era presunçoso, Machado negou: “O senhor não percebeu. Como escritores brasileiros, somos imortais porque não temos onde cair mortos”.
Hoje, com as ajudas de custo, os membros da ABL auferem 1500 euros mensais. OK, a questão da imortalidade artística é idiossincrática. Woody Allen, por exemplo, confessou: “Não quero ser imortal através da minha obra. Prefiro ser imortal não morrendo”.
Gonçalves é boa de votos: na votação de um jornal sobre as melhores ficções brasileiras deste século, um romance dela ficou em primeiro: “Um Defeito de Cor”, sobre africanos escravizados. Geovani Martins, também naquela rarefeita lista, concorda que “a linguagem oral está à frente da escrita, numa perspectiva afrocentrada”. Talvez tenham razão, embora, que eu saiba, desde a deriva dos continentes o Brasil não faz parte de África.
País independente há 204 anos, no Brasil trata-se ainda hoje de “descolonizar o cânone”, para incluir a inclusão. Certo: a matriz da literatura ocidental (as epopeias homéricas) brotou como narrativa oral, declamada por bardos itinerantes. E a própria poesia era cantada, ao som de uma harpinha – a lira, daí “lírica”. Porém, desde a invenção da escrita, há 5 mil anos, a literatura é sinónimo de texto, de prosa (ainda que Bob Dylan, autor de canções, abotoou-se com o Nobel de 2016). A própria ABL já elegeu Gilberto Gil, cantor e compositor – conquanto nunca tenha escrito uma narrativa de ficção, Gil é melhor ficcionista do que outro imortal, o arcano Paulo Coelho, o qual, em compensação, revelou que é capaz de levitar (mas só na vida real).
A criação literária não prospera numa estufa: é orgânica e histórica, e os autores refletem os respectivos vernáculos. Shakespeare inventou centenas de palavras que não existiam no Inglês da sua época, ainda hoje correntes, como lonely (solitário). E não por ativismo retórico, mas porque a complexidade da obra o exigia – quanto mais amplo o léxico, mais precisa e vívida será a representação verbal. E ninguém fala como escreve, com a eventual exceção dos analfabetos.
Agora, na terra natal do Bardo, universidades permitem aos alunos erros ortográficos, gramaticais e de pontuação. A Universidade de Hull (alma mater do grande Philip Larkin) alega: o que se julga “escrita correta” é só um produto eurocêntrico e elitista. O que conta é a forma espontânea como o aluno se expressa. No fundo, toda a forma de avaliação pedagógica é opressiva e autoritária.
Vivemos numa era em que a ideologia é a alma do negócio, pois tudo é política (sem deixar de ser negócio). O pânico moral contagia autores, editores, agentes, críticos e prémios literários – e quem paga a fava é o degraçado do leitor. As maiores editoras planetárias exigem que o escritor assine “cláusulas de moralidade”, com rescisão por sacrilégio narrativo. Uma cláusula do colosso Harper Collins autoriza-a a romper contratos se o autor “desrespeitar a moral pública”. O que Artaud ou Luiz Pacheco diriam disto? Nicles, pois não seriam publicados, mas arrolhados.
E floresce uma nova casta: a dos “leitores sensíveis”, que “compartilham uma identidade” com um personagem de ficção. Pagos a peso de ouro pelas editoras, esquadrinham à lupa se um manuscrito ofenderá o leitor incauto. É o dogma essencialista de que todas as pessoas da mesma identidade (digamos, amarelos ou lingrinhas) pensam, agem e sentem em uníssono, e que há maneiras “autênticas” e “espúrias” de ser-se amarelo ou lingrinhas. Esses agrimensores ideológicos passam a pente fino nichos tão específicos quanto obesidade ou cultura aborígene. Sem falar no alfabeto LGBTQUIA2+, que nesta altura do campeonato já deu duas voltas ao abecedário.
Como cá se faz, cá se paga, canceladores são cancelados por pares ainda mais sectários. Em 2020, a Penguin publicaria o romance da sino-americana Amélie Zhao, Blood Heir. Antes do lançamento, as redes sociais passaram-se: a trama desenrolava-se num reino imaginário onde a opressão não se baseava na cor da pele. Zhao capitulou, e expiou online a “dor” que a sua prosa inédita infligira a “leitores” que nunca tinham visto a obra mais gorda – lembrando, involuntariamente, Oscar Wilde: “Jamais leio os livros que vou criticar, para não sofrer a sua influência”.
Depois, Kosoko Jackson (negro e gay) autocancelou o seu romance de estreia, “A Place for Wolfes”, pelo ultraje de incluir um vilão muçulmano. Jackson era “leitor sensível” das Big Five, as cinco maiores editoras em língua inglesa – e um dos inquisidores que vetaram o livro de Zhao. Adam Szetela (“That Book Is Dangerous!: How Moral Panic, Social Media, and the Culture Wars Are Remaking Publishing”) chama tal reciprocidade “pelotão de fuzilamento circular”. Já a estreia literária de Keira Drake, “The Continent”, e apesar da beatice identitária da autora, levou com o anátema pela blasfêmia de incluir um “salvador branco”. Branco, hoje, é uma palavra válida apenas em sentido pejorativo.
Os novos autores são arrumados em cubículos ideológicos cada vez mais claustrofóbicos. Um editor explicou a um promissor escritor gay que este precisava de “gayzar” o manuscrito, porém a resposta mortificou-o: “Mas eu já nasci fora do armário, e só quero escrever sobre zombies!” Bem, a ausência de zombies homoafetivos evidentemente é homofóbica.
Como a narrativa ficcional implica conflitos (ficção é fricção, e não rotina repetitiva), felizmente não faltam malfeitores: ocidentais cis, brancos, cristãos (se não for pedir muito, mortos no happy ending). Já o/a protagonista é sempre um fantoche do/a autor/a, de retidão marmórea e unidimensional, em vez das contradições humanas de luzes e sombras que, precisamente pela sua irredutível singularidade, alcançam ressonância universal. Resultado? Uma maçada: cartas marcadas, maniqueísmo simplório, imprevisibilidade nula. O assassino continua a ser mordomo, só que agora com a libré de um cis lívido.
Matilhas vociferantes exigiram que a Amazon removesse A Birthday Cake for George Washington, de Ramin Ganeshram, ilustrado por Vanessa Newton e editado por Andrea Pinkney. É que a obra “branqueia” a escravidão. E depois se Ganeshram é negra e recebeu sete prêmios da Sociedade de Jornalistas Profissionais? Newton, também negra, foi finalista do NAACP Image Award de Melhor Obra Literária para Crianças. Pinkney, outra negra, venceu o Coretta King Award, e lançou o primeiro selo de livros infantis afro-americanos da Disney. Suponho que no melhor pano caia a nódoa. Talvez fosse melhor reabilitar o critério do julgamento de Salem, EUA, em 1692, quando 200 pessoas (não só mulheres) foram acusadas de bruxaria: atirar o manuscrito à água, para ver se ele flutua. Se boiar, o autor não vendeu a sua alma. Se afundar…
O obscurantismo é retrospectivo. Em 2025, “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf, fez um século. Na edição comemorativa, a Penguin espetou o dedo nos nossos narizes: “Este romance reflete as mentalidades de sua época!” – como se uma das mais icónicas protagonistas do modernismo fosse uma espécie de Pocahontas. Implícita pulsa a ideia arrogante e obtusa de que, se escrevesse hoje, Woolf expressaria mantras iguais aos dos linchadores online. O próprio conceito de “clássico” (segundo Calvino, uma obra que a cada geração entrega uma mensagem novinha em folha) torna-se repulsivo.
Ficcionistas contemporâneos e os seus personagens contorcem-se de angústia sobre ser uma boa pessoa. Por “boa pessoa” não referem a alguém racional, como Platão; ou compassivo, como Agostinho; ou que considera os outros como fins em si mesmos e não como meios, como Kant; ou que saúda a peculiaridade alheia, como Montaigne.
Não: uma pessoa boa aflige-se 24/7 com o aquecimento global. Ela #acreditaemmulheres, incluindo aquelas que sofrem de problemas na próstata. Queria que Jerusalém tivesse o mesmo presidente de Câmara que Nova York. Reconhece os seus privilégios, pede desculpas de joelhos numa selfie, e promete “fazer a sua parte”. Sabe que é imperioso cancelar os reaças, embora não conheça nenhum (boas pessoas não convivem com a escória).
O autor porreiro não tem opiniões imprevisíveis, não tem amigos de quem discorde sobre nada relevante, não tem pontos de vista que não possam ser reciclados em slogans e estampados em T-shirts da Farfetch. Com tais credenciais, as maiores editoras capitalistas recebem os manuscritos deles de mãos em concha e lambem o chão que pisam.
Se nunca foi fácil escrever ficção que preste, para certos principiantes publicarem-na é hoje quimérico. A censura prescritiva – não só há coisas que não devem ser ditas, como há coisas têm que ser ditas — torna obrigatório tudo o que não é proibido. Há pouco, a Compact publicou o artigo The Vanishing White Male Writer, de Jacob Savage. Em 2012, a tradicional lista anual do “NY Times” de “ficção notável” ainda incluiu sete autores brancos com menos de 43 anos (idade limite para um millennial); em 2013, eram seis. Em 2021, já não havia nenhum escritor millennial branco do sexo masculino. Em 2023 e 2024 houve apenas um último moicano, respectivamente. No ano passado, nem sinal de jovens brancos nas listas das revistas The Atlantic, Vanity Fair e Vulture. A Esquire, destinada a millennials masculinos, selecionou 53 ficcionistas nas suas listas desde 2020 – apenas unzinho tinha aquilo que, no tempo da outra senhora, designava-se por tez de alabastro (mas se calhar era apenas albino).
Entre 2001 e 2011, seis rapazes brancos embolsaram o prêmio Young Lions da Biblioteca Pública de NY para ficção de estreia. Desde 2020, nenhum branco foi sequer indicado (de um total de 25 indicações). No mesmo período, dos 14 finalistas millennials do National Book Award, zero são brancos. A prestigiosa Wallace Stegner Fellowship, uma plataforma para jovens autores, atualmente não tem nenhum bolsista masculino branco (de 25 bolsistas de ficção desde 2020, só um pertencia àquela famigerada categoria). No final do ano passado, o New York Times publicou um texto sobre “o desaparecimento do homem literário” – o tom implícito era de desdém glacial, tipo “já vai tarde”. No século XXI, nenhum homem branco americano nascido depois de 1984 publicou um conto na New Yorker, celeiro da melhor prosa ficcional americana do século 20.
Não é só a nova patologia, que troca a misoginia pela misandria: é que os jovens ficcionistas brancos cis ficaram sem assunto. Afinal, que gajo terá a lata de abordar a sua masculinidade obviamente tóxica? Como notou o Nobel Kazuo Ishiguro, os novos autores são forçados à autocensura. A degenerarem em lemingues literários, precipitando-se em manada para o abismo do silêncio.
Como reza o título do romance de Ana Maria Gonçalves: sim, esses jovens malandros têm um defeito de cor. Se queriam ser ficcionistas no século 21, nasceram no corpo errado. Se calhar por justiça poética, na literatura atual a cor defeituosa mudou, assim como o género e a orientação sexual “problemáticos”. Nada como um dia depois do outro.
Há 24 anos, o afroamericano Percival Everett publicou o romance Erasure. O protagonista da sátira é um talentoso romancista negro que, para finalmente vender uns livritos, finge ser o estereótipo que o progressista branco faz de um minoria oprimida: um preto que só diz asneiras impublicáveis, oriundo de um lar desfeito por drogas e violência. Claro que nenhum autor branco teria descaramento para uma história assim. Os jovens autores brancos heteronormativos estão encarcerados no lado errado da história – até porque, vivos ou mortos, não existem Homens Brancos Bons. E a tal da liberdade de expressão é um luxo que as sociedades genuinamente democráticas não podem conceder-se.
Acontece que boa literatura não é sociologia: lida com indivíduos ímpares, caleidoscópicos e falíveis (é o erro que nos humaniza), e não conceitos genéricos e abstratos. O protagonista do grande romance sempre aprende uma lição, e ao terminar a história não é a mesma pessoa que nela entrou. Daí que a literatura ativista, preferindo a propaganda, simplifique paisagens morais complexas e se dirija aos leitores como se fossem pré-adolescentes. A indignação moral reduz-se a um onanismo emocional que nos assegura do nosso próprio heroísmo, juntamente com o do autor e o do protagonista.
Onde estão hoje os romances conservadores? Ou simplesmente aqueles que não tomam partido, em vez de recitar o decálogo formulaico? Que questionam premissas através do ambíguo e do matiz? Ainda há exceções, cada vez mais excepcionais. Eu consigo gostar de ficcionistas cujas convicções ideológicas não subscrevo, e não gostar de ficcionistas cujas políticas perfilho – porque a boa literatura jamais é mera propaganda, ou bula de medicamentos.
Nesta era de polarização centrífuga, as pessoas sentem-se cada vez mais desconfortáveis naquele deserto necessário chamado “o meio”, que Lionel Trilling descreveu como “o único lugar honesto para estar-se”. A última esperança é de que, mais tarde ou mais cedo, panfletos esquemáticos sempre ficam datados, rançosos. Hoje, nenhum leitor pega num romance do realismo socialista nem com alicates e uma mola no nariz.
Só esperemos que, quando a maré mudar, o Nobel de literatura já não seja atribuído exclusivamente à Inteligência Artificial.