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O teatro do absurdo

O absurdo é estarrecedor: é preciso esperar que a crise energética atinja o seu ápice para a UE suspender certas regras. Será que devemos esperar até morrermos?

Maria Vieira da Silva
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O roteiro se repete. De agora em diante, os líderes europeus tentarão usar o Estreito de Ormuz para dar dignidade à sua inacção com a mesma abordagem que tem vindo a certificar a sua irrelevância e declínio.

É disso exemplo, o fio condutor que liga a retórica sobre a Ucrânia àquela que se desenrola agora em torno da iniciativa convocada pelo primeiro-ministro britânico Starmer, e não por Bruxelas, que, no entanto, aderiu quase imediatamente, para desbloqueio do Estreito de Ormuz. E é um fio condutor feito de anúncios, posturas agressivas, declarações pomposas e, quando colocado à prova, de confrangedora impotência.

Durante meses, ouvimos discursos sobre o envio de tropas, garantias de segurança, de membros “dispostos” e de estruturas internacionais de segurança robustas a serem criadas para garantir a soberania da Ucrânia. Parecia que a Europa estava finalmente prestes a agir, que tinha chegado o momento de mostrar a sua capacidade geopolítica. Então, no momento em que se começou a falar sobre quem deveria enviar soldados, com que mandato, sob quais condições e, acima de tudo, com que cobertura política e militar, ficou claro que por trás da encenação havia um vazio.

Agora encena-se o mesmo para o Estreito de Ormuz. Aqui também há uma emergência, aqui também há uma conferência internacional, aqui também há países “dispostos”, aqui também há declarações solenes sobre a liberdade de navegação. “A abertura do Estreito de Ormuz é urgente”, dizem Starmer e Macron. Sem dúvida. Mas a questão não é declarar a urgência: a questão é entender quem está disposto a fazer algo para realmente o reabrir. E aqui, mais uma vez, um deserto.

Porque, se prestarmos atenção às declarações de Londres sobre Ormuz, imediatamente se torna claro que não se trata de uma coligação pronta para intervir, mas sim de uma aliança diplomática que tenta desesperadamente ganhar tempo. Dizem que o Estreito deve ser reaberto imediata e incondicionalmente, mas acrescentam que se devem concentrar na diplomacia. Falam na necessidade de proteger o tráfego comercial, mas especificam que qualquer iniciativa deve passar pela ONU. Sugerem a possibilidade de uma presença multinacional, mas esclarecem imediatamente que só será discutida após um acordo de paz.

Cenários diferentes, o mesmo mecanismo político. Uma narrativa musculada é construída para dar a impressão de uma frente organizada e unida. Mas, mal a discussão se aproxima da possibilidade concreta de uma intervenção, entra em acção o reflexo condicionado do adiamento. Macron considera-o “irrealista” (tendo votado ao lado da Rússia e da China para vetar um pedido de intervenção de países do Médio Oriente, com o objetivo de proteger o tráfego marítimo), Tajani diz que sim, mas só no âmbito da ONU, Starmer convoca cimeiras de pessoas dispostas sem vontade própria e espalha a ideia de uma resposta multilateral em curso. Porém, no final, todos impõem uma condição, uma cláusula, um “agora não”. E quando uma coligação diz “agora não” perante uma crise que considera urgente, está na verdade a dizer “talvez nunca”.

Mas, vamos lá, eles causam uma boa impressão e certamente não falta quem compre e venda como hipóteses estratégicas o que na verdade não passa de marketing político. Mas tendo em conta os riscos de uma acção directa no conflito, não seria mais honesto admitir que ninguém quer arriscar abrir uma nova frente, ao invés deste teatro absurdo para mascarar a própria irrelevância?

A verdade é que também nem todos consideram urgente romper o impasse no Estreito de Ormuz, como parece ser o caso da Comissão Europeia, que depois de ter permanecido cega, surda e muda em relação ao conflito, encontrou nos custos exorbitantes dos combustíveis uma oportunidade para reduzir as emissões de CO2.

E aqui também encontramos um fio condutor que liga a retórica sobre a pandemia àquela que se tem vindo a desenvolver no âmbito da crise energética. E é o fio condutor feito de anos de discussões sobre a transição verde, independência estratégica e resiliência e, quando a realidade bate à porta, eis que, a UE, descobre, mais uma vez, a sua dependência mais básica. Ainda precisa de exportar petróleo para sustentar a sua economia, a sua mobilidade e o seu dia-a-dia. E quando esse fornecimento falha, ressurge a tentação na UE de propor uma mudança no comportamento individual e pouco mais.

E assim, em plena crise energética “de longo prazo”, Von der Leyen anunciou, na passada segunda-feira, medidas vagas a serem formalmente apresentadas em 22 de Abril, no seguimento do que o Comissário Dan Jorgensen havia recomendado: 1) reduzir o consumo de combustíveis incluindo o de aviação; 2) incentivar o trabalho inteligente e o teletrabalho; 3) limitar as viagens desnecessárias; 4) restrições àutilização de carros particulares; 5) promover os transportes públicos e a partilha de carros; 6) considerar a redução dos limites de velocidade e; 7) considerar medidas de racionamento de consumo na UE.

Já sobre as propostas legislativas para reduzir os preços da energia e aliviar o fardo dos cidadãos e das empresas, Von der Leyen adiou-as para Maio, o que significa que a receita para gerir a crise não é proporcional à gravidade do momento. Algo que, Dan Jorgensen, já tinha confirmado quando disse que “ainda não tínhamos chegado ao ponto” de ter de flexibilizar as regras sobre o combustível de aviação, bem como Valdiz Dombrovskis e a presidente da Comissão em relação à suspensão do Pacto de Estabilidade: “só em caso de grave recessão económica.  E ainda não chegamos lá”.

O absurdo é estarrecedor: é preciso esperar que a crise energética atinja o seu ápice para a UE suspender certas regras. Será que devemos esperar até morrermos?

Entretanto, a Eslováquia e a Eslovênia já começaram a impor restrições ao consumo: 50 litros de combustível por dia para particulares e 200 para empresas, enquanto a Lituânia, reduziu as tarifas ferroviárias locais em 50% por dois meses, e os protestos e greves contra o aumento do preço dos combustíveis não param de aumentar, da Irlanda a Itália.

Mas não se aprende a lição. Von der Leyen reitera que a resposta à crise energética passa por “acelerar a transição energética”, ou seja, por mais Pacto Ecológico Europeu. O mesmo Pacto pelo meio do qual se tem vindo a transformar a UE num deserto industrial, a obrigar os cidadãos a pagar os preços de energia mais altos do mundo, e com o qual se reduz as emissões de CO2 transferindo-as para economias movidas a carvão, como a China, ao ponto de se ter criado uma “nova e perigosa dependência”, conforme admitiu a mesma Von der Leyen.

Mas tudo isso, claro, é para o bem maior: salvar o planeta. Sacrificar estilos de vida e bem-estar social é um custo mínimo a pagar por um objectivo superior. Uma trégua na guerra e a reabertura do Estreito de Ormuz são um desastre para esses fanáticos ambientalistas.

E nesse paradoxo exclusivamente europeu, o teatro do absurdo parece se ter tornado um sistema.