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Num mercado global o equilíbrio dita a diferença

A questão central não é quem compra casas em Portugal. É se Portugal está preparado para responder à procura que gera.

Miguel Poisson
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Portugal tornou-se um mercado imobiliário global e isso está a mudar profundamente quem consegue viver nas nossas cidades. Em 2025, mais de um quarto das casas vendidas no país foi adquirido por compradores estrangeiros, num total de cerca de 41 mil imóveis. Este não é um fenómeno passageiro. É uma mudança estrutural.

Durante décadas, o mercado imobiliário português foi, essencialmente, doméstico. Hoje, compete diretamente com outras geografias na captação de investimento internacional e na atração de residentes estrangeiros. A estabilidade, a qualidade de vida e a projeção internacional do país tornaram-nos um destino altamente competitivo e isso deve ser reconhecido como um sinal claro de sucesso.

Mas, esse sucesso tem consequências. Em 2025, os preços da habitação subiram 17,6%, o maior aumento desde que há registo. Esta dinâmica está a agravar a dificuldade de acesso à habitação por parte das famílias portuguesas, sobretudo nos centros urbanos. Ignorar este desequilíbrio seria um erro, não apenas económico, mas também social.

Importa, por isso, clarificar o debate. A presença de compradores internacionais não é, por si só, um problema. Pelo contrário, representa confiança no nosso país, investimento relevante e um contributo claro para a reabilitação urbana e para a dinamização económica. O desafio não é travar esta procura, mas garantir que o sucesso do mercado não exclui os portugueses.

Existe, ainda, um equívoco que importa desfazer. O segmento de luxo, onde se concentra uma parte significativa da procura internacional, não compete diretamente com o mercado residencial da classe média. No entanto, seria ingénuo ignorar que o investimento externo influencia o mercado como um todo, criando expectativas de valorização e pressionando os preços de forma transversal.

Neste contexto, a resposta não deve ser defensiva. Travar o investimento internacional seria um erro estratégico e colocaria em causa o posicionamento global que Portugal conquistou até agora. A resposta deve ser estrutural: aumentar a oferta, simplificar processos de licenciamento e criar condições para um mercado mais equilibrado e mais inclusivo.

A questão central não é quem compra casas em Portugal. É se Portugal está preparado para responder à procura que gera.

O país conquistou um lugar relevante no mapa global do imobiliário. Esse é um ativo que deve ser protegido. Mas, como em qualquer mercado maduro, o crescimento sustentável exige equilíbrio entre atratividade e acessibilidade, entre investimento e, sobretudo, coesão social.

Esse equilíbrio não é automático. É uma escolha. E é hoje uma das decisões mais importantes para o futuro do país.