De uma rua em Lisboa cuja história está repleta de sexo, rock and roll e drogas, apenas a última parece permanecer com mais força. Quinze anos após a rua Nova do Carvalho ter sido pintada de cor de rosa, a proposta de trazer vida (para além da noturna) à marginalizada zona do Cais do Sodré resultou, mas a fama conquistada trouxe também problemas — e talvez tenha também agravado aqueles que já existiam. Nos dias e noites em que a reportagem do Observador passa pelo local, traficantes assediam quem por ali anda. Homens que aparentam ter entre 20 e 30 anos, na sua maioria parados em pé no corredor de acesso à rua do Alecrim e à praça Duque da Terceira, sussurram “Coca! Weed!”, oferecendo cocaína e canábis mal ouvem conversas numa língua que não seja português. E quanto mais pálida a pele e os cabelos de quem chega, maior é a probabilidade de ser alvo da oferta de drogas.
Depois da pintura do alcatrão em dezembro de 2011, aquela passou a ser chamada popularmente de “Rua Cor de Rosa”, sendo hoje mais frequentada por quem a chama Pink Street. Ao longo dos últimos cem anos, os seus estabelecimentos e o seu público mudaram — e muito. Numa quinta-feira à tarde, amigos, casais e famílias de turistas ocupam as cadeiras nas esplanadas dos bares e restaurantes e ainda sobra espaço para que vários deles caminhem e posem para fotografias.
O local mais disputado para os cliques é aquele em frente ao centenário restaurante Rio Grande, onde estão afixados sobre a rua vários guarda-chuvas coloridos. A ideia partiu de uma amiga dos donos do restaurante, o francês Gaby Orain e o irlandês Conor Gillen, ambos há trinta anos a viver em Portugal. A instalação deu-se em 2021, durante a pandemia de Covid-19, quando a Marcha do Orgulho de Lisboa não pôde ser realizada. A rua Nova do Carvalho tornou-se o cenário de homenagem à diversidade e união entre as pessoas num período em que as aglomerações não eram recomendadas.



Orain, que comprou o espaço dois meses antes do início do confinamento, diz que até hoje são eles os responsáveis por fazer a manutenção e troca dos objetos, a cada dois meses, devido aos danos provocados pelo vento, sol e chuva. “[Eu e o meu sócio] somos muito felizes e orgulhosos em sermos os responsáveis por essa instalação, que traz alegria e atrai mais gente para a rua“, diz. Mas nem tudo ali é cor de rosa: em 2021, os clientes regressaram às ruas, mas também os vendedores de drogas — como o Observador já dera conta em 2015.
“Traficantes vinham oferecer drogas de forma agressiva aos nossos clientes sentados na esplanada”, revela Orain, que paga “pouco mais de mil euros por mês” para que seguranças de uma empresa privada, contratados por vários empresários daquela rua, a “mantenham segura”. O Rio Grande, que já passou por várias gestões, mantém-se em funcionamento há 103 anos. É o único lugar centenário que resistiu nos mesmos moldes em que sempre operou, com as suas paredes com os preservados azulejos da fábrica Viúva Lamego.
‘Britney Spears’ e os traficantes: os alvos da polícia
À tarde, a presença dos seguranças privados parece resultar contra as abordagens de traficantes aos turistas nas esplanadas. Adultos e miúdos, sentados à mesa, vibram quando ali surge uma maquilhada figura esguia, de peruca loira e vestida com um fato de lycra. Para além do disfarce, o que salta mesmo aos olhos é a sua destreza para andar de patins — seja no alcatrão ou na calçada portuguesa — fazendo manobras e brincadeiras com as pessoas, sempre a passar Britney Spears numa coluna de som que carrega consigo. Trata-se de Eubrite, personagem criada pelo brasileiro Jarbas Figueiredo Krull, de 40 anos, que se tornou um património vivo da rua, apesar de não trabalhar para nenhum bar ou restaurante da zona.

Eubrite diz que os condutores de tuk-tuk começaram a pedir que estivesse na rua nos horários em que estes passam num dos seus cruzamentos, de forma a surpreender os turistas. Há cinco anos, Jarbas Eubrite paga as suas contas só com as gorjetas destes viajantes que aplaudem a sua personagem. O valor é suficiente para cobrir o prejuízo das colunas que carrega sempre consigo e que são com frequência apreendidas pela Polícia de Segurança Pública. “Uma coluna nova custa 85 euros e a multa para recuperar a que foi levada é de 250 euros, então ainda assim compensa”, explica, ao admitir já ter “perdido a conta” de quantas colunas já foram apreendidas: “Chegaram a levar três num único dia“. Na tarde em que conversa connosco, já tinha perdido uma. Quando os polícias se aproximam da via, há quem o avise para ter cuidado e desligar o som. Eubrite encerra por um momento o seu espetáculo de dança e música e então os polícias passam sem nada a fazer.
Os dois homens fardados estão mais concentrados em ver o que se passa nos becos circundantes, especialmente nos arredores do arco sob a rua do Alecrim. O sol ainda não se pôs quando dois rapazes ali parados são encostados à parede com as mãos erguidas. “Andam sempre com poucas quantidades de droga no bolso para não serem presos pela polícia, mas escondem o stock em buracos que encontram nas fachadas dos prédios e em caixas das companhias de eletricidade”, revela uma fonte ouvida pelo Observador, que trabalha naquela zona há dois anos. O movimento de pessoas na Rua Cor de Rosa permanece normal enquanto a ação dos agentes decorre.


Regressamos ao mesmo local, agora numa sexta-feira à noite. O movimento de venda de drogas é diferente. Não há traficantes parados nos becos da Rua Cor de Rosa, porque estes estão, às dezenas, espalhados tanto naquela via como nas adjacentes. Quanto ao eventual consumo, é bem mais discreto. Convém notar que não se sabe de onde veio o que é ali vendido, nem a sua verdadeira composição.

É no meio deste cenário que circulam os turistas notívagos. Um dos seguranças da empresa privada avalia o outfit de quem faz fila para entrar na Pensão Amor. E recusa a entrada a um rapaz, acompanhado de duas amigas, vestido com calções e camisola de uma equipa de futebol. O trio vai-se embora daquela que até ao fim da década de 1990 foi a mais conhecida casa de alterne da zona, frequentada por marinheiros de todo o mundo — facto que é relembrado na decoração burlesca do bar e restaurante reaberto em 2011 de forma a remeter para o seu passado, desta vez exposto de forma sofisticada. No rés-do-chão do mesmo prédio, a presença dos marinheiros está também presente na decoração do bar e restaurante Sol e Pesca, aberto em 2010 no mesmo espaço em que já funcionou, antigamente, uma loja de artigos para pesca.
Os chapéus são abertos quando cai uma “chuva de turistas”
De repente, caminhar pela Rua Cor de Rosa sem ter de pedir licença ou até mesmo empurrar alguém para conseguir passar torna-se um desafio. Cerca das 00h15, dezenas de turistas caminham em direção ao bar Rosa Loca [antigo bar de alterne Scandinavia], guiados por jovens que seguram guarda-chuvas vermelhos, sinalizando integrar um grupo que organiza pub crawls — tours em bares e discotecas, que são vendidos online e em hostels de diversas zonas da cidade. Uma das paragens de um destes passeios era o Musicbox, que deixou a rua em setembro de 2025. No seu lugar, está hoje o bar Loucura. Logo chega à rua mais um grupo acompanhado por um guia, cuja t-shirt indica ser aquela uma empresa de eventos para estudantes Erasmus.




Por volta das 00h30, um carro da Divisão de Trânsito da Polícia Municipal estaciona na Rua de São Paulo com a luz da sirene ligada, criando um efeito dissuasor. Cinco minutos depois, desce da Rua das Flores mais um grupo guiado por guarda-chuvas, que desta vez são amarelos. Vem dali mais um pub crawl, que arrasta mais turistas jovens para aquele que será o terceiro bar do passeio naquela noite. Na primeira paragem, no Bairro Alto, beberam um shot. Na segunda, ainda naquela zona, estiveram durante uma hora a participar de um open bar, o que pode explicar o porquê de, nesta altura, alguns estarem mais a cambalear que propriamente a andar.


Os turistas são instruídos pelos jovens guias do passeio a não aparentar embriaguez, para que não sejam impedidos de entrar numa das discotecas do Cais do Sodré, onde termina o roteiro que tem o custo de 20 euros por pessoa. “Put on your best poker face!“, recomendam aos turistas na fila. No verão, uma destas companhias chega a guiar, em apenas uma noite, 300 turistas pelas ruas de Lisboa. Tanto no pub crawl dos guarda-chuvas amarelos como no dos vermelhos, a presença de turistas em viagem de despedida de solteiro é explícita pelas suas roupas e acessórios a combinar uns com os outros.
A revista dos seguranças na porta das casas noturnas no Cais do Sodré é rigorosa, e, mais uma vez, o dress code pode fazer com que mesmo quem tenha pagado para estar ali seja impedido de entrar. A empresa organizadora dos pub crawls envia recomendações, como evitar sapatos abertos, fatos de treino e calções, pelo que se exime da responsabilidade caso algum dos clientes seja barrado devido à roupa que veste ou ao comportamento provocado pelo efeito do álcool.
A noite branca da Rua Cor de Rosa
Para além dos seguranças fardados, que estão ao serviço de alguns dos restaurantes e bares, há outros homens parados ou a caminhar de um lado para o outro. Sem copos na mão, distinguem-se por carregarem uma pequena mala que, na maioria dos casos, está repleta de drogas e dinheiro. Na Rua Nova do Carvalho, a abordagem de venda de drogas na noite desta sexta-feira é mais discreta. Os traficantes estão presentes em maior quantidade na Rua dos Remolares e na travessa da Ribeira Nova, que são menos iluminadas e não têm a presença dos seguranças privados. Parados em pé enquanto esperam a passagem dos turistas, alguns dos traficantes conversam entre si, em português, e atiram piropos a mulheres desacompanhadas.
A um dos turistas que ali passa e demonstra interesse, um dos traficantes oferece “amostras” daquilo que vende. “Tenho tudo o que tu quiseres. MD[MA], ecstasy, ‘ganza’, coca…”. A presença de pessoas ao redor não intimida o interlocutor, pelo que é possível vê-lo e ouvi-lo ao tentar vender uma saqueta recheada com o que diz ser cocaína, ao custo de 60 euros por grama. O homem, que não deve ter mais de 30 anos, despeja uma pequena quantidade de pó branco na mão do turista — que diz não acreditar na veracidade da substância oferecida — para que este avalie a “qualidade do produto”. Há cerca de duas horas, mantém-se parado a menos de 100 metros dali um carro da Polícia Municipal, com as luzes apagadas e nenhum agente de segurança dentro ou fora do veículo. Numa tentativa de concluir a venda, o homem chama colegas para trazerem ainda mais opções de drogas ao turista.
O som da liberdade das noites de Mário Dias
As confusões e infrações nesta rua não são inéditas. Uma grande pancadaria entre marinheiros ingleses e norte-americanos foi repelida pela PSP em 1989, o que tornou os encontros dos “homens do mar” com as “mulheres da terra” cada vez menos frequentes. As casas de alterne continuavam a existir, operando ilegalmente disfarçadas de pensões que ficavam sobre os bares da rua. Este e tantos outros factos da história da Rua Nova do Carvalho foram reunidos no livro Cais do Sodré — Das tavernas de marinheiros à revolução Jamaica e Tokyo (editora Tinta da China), lançado em janeiro deste ano. Contar toda a história do cais “desde a Idade Média” foi a missão de João Macdonald, Guiomar Belo Marques, Luís Carlos Amaro e Carlos Machete Ramadinha. Os autores organizaram toda a complexa linha do tempo deste ícone lisboeta através de pesquisas em arquivos, fotos e depoimentos realizados durante quase dois anos.


A localização privilegiada da rua, próxima ao porto, permitiu que fosse aquela a porta de entrada para diferentes culturas, que trouxeram consigo não só as suas diversas línguas, mas também as tendências do que se vestia e ouvia para além de Portugal. Desta forma, a Rua Nova do Carvalho começou a chamar a atenção dos jovens portugueses. Foi ali, com o alcatrão ainda negro, que muitos tiveram o seu primeiro contacto com a internet nos cibercafés e com os sons de várias bandas de rock. Tiveram ali também acesso fácil às drogas. “A cocaína, a canábis e a heroína entraram a sério em Lisboa naquela época em que ainda havia uma ignorância da juventude relativamente às drogas”, diz João Macdonald.
Em contraponto, a atuação dos DJs foi fundamental para fazer com que a música e a dança ganhassem ali mais espaço do que as casas de alterne. A presença de nomes como os dos DJs Mario Dias e Vítor Fernandes, cita o livro, mudou completamente a cara da Rua Nova do Carvalho, que atraíram os jovens de tal forma que tornaram os bares e discotecas o principal negócio. Estas vivências são também retratadas nas várias entrevistas que compõem o documentário Caos do Sodré, lançado em 2022, com realização de Carolina Torres.


As memórias nostálgicas têm como cenário bares e discotecas como Tokyo, Europa, Jamaica, Texas Bar e Roterdão. Os DJs davam, nas suas mesas de mistura, estilos como reggae, eletrónico e sobretudo rock. Em 2006, o Texas Bar deu lugar ao Musicbox. Em 2021, Europa, Jamaica e Tokyo mudaram-se para o Cais do Gás, na ribeira, a quase 400 metros da Rua Nova do Carvalho. Resiste ainda ali, até aos dias de hoje, o Roterdão. Mas não se sabe ainda por quanto tempo. A 8 de abril, a gerente do espaço, Ana Paula Afonso, revelou à Time Out o risco iminente de encerrar as atividades já no fim deste mês. Esta, que é a última discoteca a dar indie rock naquela rua, pode em breve tornar-se apenas mais uma memória da nostalgia alfacinha.

A gerente do Roterdão afirma ter investido mais de 70 mil euros na discoteca durante a pandemia, para que, quando o público pudesse ali regressar, a estrutura estivesse em boas condições. No fim das medidas de distanciamento social, “as pessoas estavam desejosas de sair à noite” e puderam aproveitar o espaço. Mas não continuaram a voltar ali com frequência. “A rua mudou e sei que poderia adaptar-me a isto, mas quero manter as músicas indie rock no Roterdão”, admite Ana Paula Afonso. Os seus concorrentes passam estilos musicais que hoje são mais populares entre o público frequentador do que o rock, como o reggaeton, a kizomba e o funk brasileiro.
Problemas que a tinta não consegue cobrir
A grande mudança na rua aconteceu com a marcante pintura rosa da faixa de rodagem que em 2011 foi encomendada ao escritório José Adrião Arquitetos pela extinta Associação Cais do Sodré, cujos principais membros eram os sócios do Musicbox. O intuito de transformar aquela via num pedonal “espaço de troca, comunicação, cultura e música”, diz o próprio José Adrião, foi completado com êxito, de tal forma que a rua tornou-se conhecida em todo o mundo, fama propulsionada por fotos na internet e meios de comunicação social, atraindo os turistas. Os alojamentos locais, que queriam apanhar esta boleia, aproveitaram os prédios devolutos e instalaram-se por ali, mas começaram a receber reclamações dos seus próprios hóspedes sobre o barulho na rua, especialmente durante a noite, explica Adrião. A vida noturna fervilhante e o seu consequente barulho, afinal, eram interessantes apenas nos vídeos do Instagram.


Naquela via a falta de pessoas claramente não é o problema, mas sim o quanto o perfil deste público mudou ao longo dos anos, o que nem sempre foi acompanhado pelos estabelecimentos. Na noite de sexta-feira, quando o Observador visita o Roterdão, a pista de dança está vazia poucos minutos após a rua estar completamente cheia.


A falta de segurança pública, afirma a gerente do Roterdão, é mesmo o principal problema do Cais do Sodré hoje. Entre 2022 e 2025, Ana Paula Afonso diz ter enviado “inúmeros” e-mails com o pedido de aumento dos efetivos da PSP naquela zona, mas lamenta nunca ter tido resposta. E mesmo as medidas criadas pela Câmara Municipal de Lisboa com o intuito de diminuir as confusões na via pública (e consequentemente o ruído sonoro) não estão a resultar, porque não têm a fiscalização adequada. “As pessoas que frequentavam a rua querem afastar-se dela porque os turistas vêm cá embebedar-se”, diz. Os cartazes na fachada dos bares tentam atrair os turistas antes da entrada, com anúncios de bebidas e os respetivos preços. Um copo de vinho da casa na Rua de São Paulo, por exemplo, custa dois euros. Na Rua Nova de Carvalho, há 4 shots por 12 euros. E na travessa dos Remolares, há várias opções de cocktails por 6 euros.
Ao Observador, a PSP revelou que nos primeiros meses de 2026 verificou-se uma subida ligeira nos registos criminais em comparação com o período homólogo. As principais ocorrências recebidas por aquela polícia estão relacionadas com o tráfico de estupefacientes, ofensas à integridade física e crimes contra o património. “Na comparação entre os anos de 2024 e 2025, registou-se uma tendência de subida na criminalidade global, com particular incidência nos furtos por carteirista e nos crimes de proatividade policial”, informou a PSP, que disse manterem-se estáveis os índices de criminalidade violenta e grave. A 15 de abril, nove suspeitos de roubos a turistas — que tentaram comprar cocaína com o grupo — foram detidos em flagrante delito pela PSP.

Nos bares da Rua Nova do Carvalho e nas suas traseiras, a Rua de São Paulo, há cartazes que advertem para a lei que entrou em vigor há dois meses, que proíbe a venda de bebidas alcoólicas para consumo na rua a partir da meia-noite de sábado. As coimas podem ser aplicadas tanto aos peões quanto aos estabelecimentos. Mas quando o relógio marca a chegada do novo dia, dezenas de pessoas continuam à porta dos estabelecimentos e a caminhar pelas ruas com copos na mão. Não são advertidos nem pelos funcionários dos balcões nem pelos seguranças privados. Entre as 23h e até as 00h30, não foi avistado nenhum carro de polícia ou agentes de segurança pública a fazer rondas por aquele quarteirão. A Rua Cor de Rosa, agora, é assim.