A princípio, parece uma algaraviada sem sentido, disfarçada de matéria complexa: uma estranha mistura de machismo, seita, teoria política, ginásio, bullying, jogos, pornografia, casas de apostas, investimentos online e, claro, “influência”. Mas como é que a manosfera, tradução literal de “manosphere” – “universo masculino” –, passou de etiqueta bizarra, vinda dum submundo de nicho, a termo corrente, associado a notícias sobre acontecimentos, à partida, tão distintos como violações em grupo transmitidas nas redes sociais ou a eleição de Donald Trump? A explicação, porém, pode ser, desarmantemente, simples – mas não menos preocupante.
Durante muito tempo, todos estes mundos estiveram, claramente, separados e organizados na nossa cabeça. Há pelo menos 100 anos que sabíamos que a política era uma coisa e a religião outra – e há mais de 200 que a ciência era outra coisa ainda. Que era melhor para todos se mantivéssemos cada uma destas disciplinas claramente separada e restrita aos seus assuntos. Também não misturávamos professores de educação física com moral, o ginásio ou a “academia” (note como foram buscar o nome, nem mais, nem menos, do que à escola de Platão) com uma escola de virtudes ou igreja. Os jogos eram para miúdos, a pornografia para adultos e às escondidas; o entretenimento feito por profissionais na rádio, na televisão, no cinema ou nas artes de palco; as secções de informação e programas claramente separadas nos media tradicionais; os conselhos sobre gestão do nosso dinheiro dados por especialistas encartados no assunto.
Depois, inventámos o telemóvel – e tudo isto passou a aparecer-nos de seguida, no mesmo plano, sem separação, num longo, infinito, scroll. Políticos, pastores, teóricos da conspiração e jogos, um exercício de ginásio e uma aposta online, uma dica de alimentação saudável e um pouco de porno, uma grande frase de auto-ajuda e um banner para clicar e investir em cripto. Como assim não é tudo igual?
No fim de século, o zapping aproximou-nos do niilismo, mas ainda havia canais, o carregar num botão para mudar, uma “grelha”, uma “ordem” pela qual as matérias estavam organizadas – por tema, perfil, nação, até por idade do público-alvo. Era preciso percorrê-la até aos confins para encontrar o que era suposto ser difícil de ser encontrado – e que vinha codificado. O scroll ou o swipe, isto é, o deslizar para vertical ou lateral, os movimentos quase orgânicos que os nossos dedos hoje desenham no ecrã táctil antes da democratização dos óculos digitais ou da pura implantação de chips no cérebro, dissolveram essas últimas ténues fronteiras. Foram-se com a “curadoria” que programava, com os guardiões dos órgãos de comunicação social, com os famosos “adultos na sala”. Tudo é uma mesma e só grande sopa, para estas grandes cabeças de scroll.
A manosfera, que saltou para as notícias como uma resposta dos putos ainda imberbes, alegadamente oprimidos por um sistema que se teria efeminado e declarado tóxica toda a forma de masculinidade, não é uma moda passageira nem, propriamente, uma “tendência”; é um sintoma, o resultado visível da primeira geração a ser educada pelo telemóvel. Num mundo onde perdemos a fé, primeiro, nos deuses e, depois, nos homens (com “H”, homens e mulheres), em que desconstruímos religiões, ideologias políticas e instituições, quantas vezes com razão, mas que ainda não fomos capazes de substituir por coisa melhor, deixámos os miúdos entregues aos ecrãs. Às vezes, por ingenuidade, outras por negligência, quase sempre por falta de tempo ou excesso de confiança. O resultado é perturbador, mas não propriamente surpreendente: deixámos os miúdos sozinhos na sala; eles educaram-se uns aos outros.
Interessantemente, não vale a pena culpar a falência da família tradicional. Um filho ser criado e educado pelos pais foi dos episódios mais breves da Humanidade. Ao longo da História, as crianças foram criadas pela tribo, pelas mulheres da aldeia, por freiras e padres, pelos avós, pelos irmãos, ultimamente pelos professores e quase sempre e só pelas mães. Ter pai e mãe de roda de um filho foi um luxo a que quase só a segunda metade do século XX, e em certas partes do mundo, se conseguiu dar. O tema aqui é o vazio, o grande vazio relativista, e como a natureza logo trata de o ocupar.
Neste tempo iconoclasta, os putos tornaram-se heróis uns dos outros. Muitas das celebridades de topo da manosfera são pouco mais do que pós-adolescentes, que já cresceram a fazer vídeos no Youtube e ainda compram roupa nas mesmas lojas que o seu público, ou apenas em versões mais caras delas. Eloquentemente, não foram ocupar somente o lugar antes reservado às estrelas de cinema ou do desporto, mas o papel de gurus, líderes espirituais, exemplos, conselheiros profissionais, financeiros e afectivo-sexuais – em poucas letras: foram ocupar o lugar do pai. Father figures. Não se vêem como criminosos nem maus exemplos; pelo contrário: parecem estranhamente convictos de estar a defender o regresso aos valores tradicionais, da família, da autoridade e do respeito, cujo afastamento nos teria lançado no caos.
Daqui até se juntarem ao “Make America Great Again” e sucedâneos pelo mundo fora, foi um pequeno passo. A sua falta de habilitações para a função reflecte-se na confusão simples de conceitos entre o que sejam os valores cristãos e os mais violentos atentados a esses mesmos valores. Fazem a apologia da família tradicional, enquanto, não poucas vezes, ganham dinheiro como chulos digitais, escudados numa estranha moral que construíram para eles mesmos, segundo a qual o facto de serem sinceros sobre o assunto, de não o tentarem esconder, basta para os declarar inocentes e virtuosos.
Em 1954, no “Deus das Moscas”, William Golding contava como um grupo de miúdos construía a sua própria sociedade em autogoverno, depois de o avião em que seguiam se ter despenhado numa ilha deserta e todos os adultos terem morrido. Os primeiros tempos eram de jogo e liberdade, da construção de uma democracia espontânea e colaborativa; até que, aos poucos, se instalavam o ócio e a inércia, o aproveitamento e a desordem e, finalmente, os exercícios de autoridade estúpida, medo, paranóia, até ao culminar na violência da mais cruel.
Os dias que vivemos são, ao mesmo tempo, assustadores e fascinantes. Tudo foi posto em causa e tudo está por fazer – outra vez. Nada disto é novo e nada está perdido. Mas quantos acidentes de avião metafóricos têm de acontecer? É que esta pode ter sido a primeira geração criada por telemóveis, mas a próxima será por robôs.